Veja a diferença da prática do Mangá no Brasil e Japão

Para entender a leitura do Mangá no Brasil é necessário entendê-lo também no Japão. Descubra como ele é atrativo para jovens brasileiros e japoneses

Texto Simonia Fukue | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

 

A leitura no Japão, assim como em diversos lugares no mundo, foi, primeiro, um privilégio do sexo masculino. No País do Sol Nascente existem quatro tipos de escrita: kanji, hiragana, katakana e romaji. A primeira é o ideograma nascido da escrita chinesa: precisa-se conhecer mais ou menos 2000 deles para se ler um jornal ou um livro. Hiragana é a forma mais comum de se encontrar em textos japoneses, pois está presente sobre alguns kanji, porém de tamanho menor chamado de furigana, porque facilita entender os ideogramas, mas é mais usado para a escrita de palavras japonesas. Este alfabeto teve popularidade entre as mulheres da corte por volta do século V. Já os homens não a apreciavam muito por não ser uma escrita oficial. Era mais usada, por exemplo, para escrever cartas pessoais. Já o katakana, com formas semelhantes ao hiragana, é a escrita para usos especiais, como palavras emprestadas do estrangeiro ou para dar ênfase a alguma palavra. Ambos são simplificações dos kanji e conhecidos como kana (fragmentos), ou seja, hira – gana (gana=kana, a grafia se altera conforme a melhor sonoridade) e kata – kana. Com sentido parecido do katakana. O romaji é o alfabeto ocidental escrito na fonética japonesa.

 

 

Por exemplo, a própria palavra kanji é grafada com a letra “k” ao invés do “c”, e o “j” tem som de “d”. Normalmente, o padrão fonético é do sistema Hepburn. A grafia do japonês em alfabetos romanos obedeceu ao sistema Hepburn, o hebonshiki, com as seguintes características: a. O “s” é sempre surdo, ainda que venha entre vogais: Nagasaki (cidade japonesa), que deve ser lido Nagassaki. b. O “r” é sempre vibrante alveolar (fraco), como em “coração” ou “paralelo”, ainda que não seja intervocálico: bunraku (teatro de bonecos japonês), Rakuten Kitazawa (quadrinista japonês). c. O “h” é sempre aspirado, como no português “hum-hā” ou no inglês “hungry”: Hayao Miyazaki (artista japonês). d. O “g” é sempre oclusivo velar sonoro como em “guerra” ou “seguir” e nunca fricativo palatal sonoro, mesmo que venha seguido das vogais “e” e “i”: gekiga (um gênero de mangá). Por extensão, entende-se que o “g” de gya, gyu, gyo seja também oclusivo velar sonoro. e. o grupo “ch” será sempre africado surdo, como no inglês “church” ou no italiano “cièlo”, e nunca fricativo palatal surdo, o que deve ser representado pelo grupo consonantal “sh”: chibi (pequeno). f. Os alongamentos de vogais foram indicados com um traço grafado acima das mesmas, ā = aa, ō = oo: shōnen = shoonen (masculino). g. As consoantes dobradas representam sons assimilados como acontece com o italiano ou o latim: Magaretto (mangá japonês). No retto do Magareto faz-se uma ligeira parada antes de pronunciar-se o te, havendo um breve fechamento acompanhado de uma pequena explosão. É o que os professores de japonês explicam, falando em “dar um soquinho”. O grupo ch, porém, constitui uma exceção, pois foi antecedido de um “t”, no caso de ser pronunciado como som assimilado: didarabochi (personagem de Mononoke Hime). h. Em “nn”, deve-se pronunciar “n” separado do outro “n”, constituindo-se o “n” numa sílaba independente: onna = o-n-na (menina).

 

 

Por consequência da grafia japonesa estar relacionada a uma imagem, ou seja, ser pictórica, a leitura dos japoneses é mais rápida, pois observam não letras, e sim imagens com significado. Talvez isso os estimule mais à leitura e compreensão do texto. Entretanto, a escrita japonesa não é simplesmente um meio para leitura e comunicação, é uma arte, a arte do shodô. Essa arte está relacionada com a cor preta, usada para construir as linhas da caligrafia. Interessante salientar que não somente a tinta tem sua importância, mas a qualidade do papel, do pincel e do suzuri, que é um tinteiro de pedra, no qual o calígrafo esfrega um bastão de tinta nanquim sólida, o sumi, em um pouco de água para fazer a tinta. O material usado é parte das ferramentas para a criação do shodô – ainda tem a técnica e dentro desta técnica se encontram os meios intervalares, do tempo e espaço das linhas que são criadas transcendentalmente. Essas características também podem ser encontradas nos traçados dos mangás, que ora se apresenta por uma linha fina, ora por uma com maior espessura. Essa relação dos japoneses com o shodô reflete nos mangás, como, por exemplo, a maneira como as onomatopeias são grafadas oferece mais dinamismo à leitura. Esse fenômeno linguístico está presente no dia a dia nipônico como uma forma interativa e isso reflete nos mangás como expressões de sentimentos, emoções, fenômenos naturais etc. As onomatopeias têm valor e significado tanto quanto palavras e figuras. Elas são formadas, principalmente, por dois dos quatro sistemas gráficos de escrita: o hiragana e o katakana. Geralmente as onomatopeias que representam sons mais graves são grafadas por hiragana, e em katakana quando os sons são mais agudos. Em alguns mangás, nos deparamos com o ideograma kanji representando o movimento da ação com uma função onomatopaica.

 

 

Por exemplo, quando um personagem exerce um golpe no adversário, o som da onomatopeia que caracteriza essa situação seria “bitsu” em hiragana ou katakana, entretanto é a palavra “chikara” que significa “força” em kanji, que acompanha o golpe. Encontram-se também onomatopeias em rômaji – pode-se dizer que foi muito frequente em mangás da década de 1980, período em que os japoneses absorveram a cultura norteamericana. Por conta disso, os japoneses acabaram tendo mais facilidade em expressar graficamente as onomatopeias, podendo ainda escolher qual dos sistemas gráficos se encaixa melhor em determinada situação do mangá. Elas estão tão incorporadas nos desenhos dos quadrinhos que passam a ser parte do conjunto visual que os compõem, sem fronteira entre linhas, traços, imagens. Juntos se tornam um, o que nos remete à escrita japonesa. Esse formato de texto e desenho remonta as ilustrações em papel solto, os kakemono-e ou ichimai-e (pintura-uma-folha), que surgiram para representar os espetáculos do teatro kabuki. O rolo de papel é composto por pinturas e narrativas. A professora e pesquisadora Madalena Hashimoto Cordaro, comenta que os “rolos de pintura são a união artística da pintura e da literatura em forma de ‘livro ilustrado’. Mas não é livro ilustrado em que ilustrações são subservientes à narrativa. No caso do emakimono, as ilustrações são essenciais para a vida do livro” (HASHIMOTO, 2002, p. 147). Dessa forma, entende-se que a imagem não é somente a representação de alguma coisa, mas algo que está além dela.
*** Adaptado do artigo “O Mangá como leitura e iniciação de leitura no Japão e no Brasil”

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 58