Uma sábia não sabia onde estava o sabiá…

Acentuar palavras sempre foi o calo de muita gente. Mas é possível minimizar as dificuldades com a ajuda de alguns macetes um tanto curiosos...

Por Edmilson José de Sá*

O título deste texto apresenta um grupo homógrafo heterofônico de palavras muito conhecidas. Acentuá-las pode não ser tão difícil, mas será que isso acontece com outras tantas que a língua portuguesa possui? A resposta será, indubitavelmente, negativa. A gramática normativa apresenta regras de tonicidade e, é claro, de acentuação, que, muitas vezes, cansam o aluno e também não apresentam resultados inteiramente satisfatórios. Existem até músicas que tentam controlar a situação, tendo a melodia livremente criada. O professor baiano Antônio Jorge Pontual, também compositor, cantor e poeta, abordou em uma de suas músicas a acentuação:

Palavras oxítonas
Terminadas por e, a e o
Recebem um acento
E a pronúncia fica bem melhor
Palavras oxítonas Terminadas por em e por ens
Na derradeira sílaba
Recebem o acento também.
Paroxítonas são muito, muito mais…
Por isso mesmo, são tantas terminações:
R, x, n, l
Um, i, us, ã e ão
Ei, is, uns e os – preste atenção!
Em ditongo decrescente, oral e final Nesses casos, o acento é fatal!
As proparoxítonas
Todas recebem acento, meu irmão
É a regra mais fácil
Pois não existe exceção

 

Podemos observar que a construção artística da música, incluindo-se as rimas, auxilia bastante na assimilação das regras, mas a memorização das terminações bastante díspares ainda causa desconfortos. Assim, com uma simples reflexão mais apurada sobre o assunto, podemos transformar a infinidade de regras de acentuação em apenas uma. Será que isso é possível?

UMA NOVA ABORDAGEM DA GRAMÁTICA
Professores pesquisadores do Instituto Pró-Universidade Canoense (IPUC), pertencentes ao Centro de Estudos Sintagramaticais, estão aplicando o que tem tudo para ser um grande marco no ensino-aprendizagem de língua portuguesa: a Neopedagogia da Gramática.

O sistema procura levar o aprendiz a entender bem a gramática natural, sintetizando as regras, como, por exemplo, os acentos gráficos oficiais, que são dominados por uma única regra; a crase oficial, justificada com apenas uma explicação; os verbos são estudados por um diagrama único; a sintaxe completa é transmitida pelos binômios determinante/determinado e nome/verbo; e a regência, a concordância, a colocação e a própria pontuação são esclarecidas com a sintaxe dos determinantes e determinados.

Sobre acentuação gráfica, o professor Francisco Dequi lembra que essa tem duas funções na língua portuguesa, função deslocadora de tonicidade e função diferenciadora de timbre. Além disso, também não levamos em consideração que a tonicidade ocorre na vogal e não na sílaba, já que é a vogal que é acentuada. Deste modo, para que o leitor perceba que a tonicidade foi deslocada pelo acento gráfico, é preciso saber qual é a acentuação “natural ou regular das palavras sem acento gráfico.

Para tanto, o primeiro passo é verificar o número de vogais realmente pronunciadas e sem acento. No caso de escola, são pronunciadas três vogais; em possibilidade, são pronunciadas seis e quilo, apenas duas. Essa acentuação regular ou natural nos indica as palavras que não precisam de acento gráfico, ao contarmos as vogais da direita para a esquerda.

ACENTUANDO PELAS TERMINAÇÕES
Segundo a neogramática, 99,6% dos acentos gráficos dos léxicos portugueses podem ser explicados com apenas uma regra, tendo como pré-requisito único dominar a acentuação natural das palavras sem acento gráfico. Para isso, podemos considerar, inicialmente, as terminações das palavras, dividindo-as em fortes e fracas.

As terminações fracas são a, e, o, am, em, ens, e nesses casos, o acento natural da palavra estará na penúltima vogal, ou seja, na vogal número 2:

Terminações fracas
Acentuam Apoiados Cedem Jovens Objetiva
Preliminares Proferidas Sendo Tonicidade Universo
As terminações fortes são as que não se encontram no grupo das fracas mencionadas acima. Quando isso ocorrer, a tonicidade natural ficará a cargo da última vogal ou vogal 1.

Terminações fortes
Abajur Algum Alguns Atriz
Azul Batons Bauru Beiral Canguru
Coatis Irmã Jardins Jasmim Marrom Neon

 

É conveniente mencionar particularidades decorrentes dos ditongos decrescentes, em que a tonicidade natural recai para a antepenúltima vogal ou vogal 3.

Ditongos decrescentes
Caule Doido Eira Foice Muito

 

Conforme a neopedagogia, o acento gráfico anula o acento natural e acentua outra vogal, tornando forte a que seria naturalmente fraca. Nas palavras ilustradas abaixo, a tonicidade é distinta:

Isso quer dizer, em resumo, que a acentuação gráfica existe na língua portuguesa para indicar o acento irregular, porque as demais palavras não são acentuadas graficamente. Desse modo, na perspectiva dos neogramáticos respaldada pelo professor Dequi, haverá sempre uma situação a escolher. Não havendo acento gráfico na palavra, a vogal chamada tônica ou mais forte possuirá tonicidade natural. Se houver um deslocamento dessa tonicidade, a vogal automaticamente será acentuada, a depender do seu grau de abertura. Basta conferir o que aconteceu no par mínimo camelo e camelô e nos exemplos abaixo, do título deste texto:

SABIA  SÁBIA  SABIÁ
Se pensarmos que a palavra sabia possui uma terminação fraca a, a tonicidade natural deverá recair para a penúltima vogal. No caso de rechaçar a tonicidade para uma das outras duas vogais pronunciadas, a palavra deverá obrigatoriamente ter acento. Que tal verificar nos pares mínimos abaixo qual das palavras será acentuada?

 

Não podemos aqui desconsiderar as exceções ocasionadas pelas mudanças na nova ortografia, em que não ocorrem mais acentos em ditongos abertos antes de hiatos eia, oia, como em ideia e paranoia, que antes acentuavam a vogal do ditongo, assim como também não se acentuam mais a vogal do hiato que segue o ditongo, como em feiura e baiuca, nem o ditongo oo (voo) e o hiato ee (veem). Também não há mais os acentos diferenciais em para (verbo), pera (fruta), pelo (cabelo), polo (extremidade). Também é necessário lembrar de que acentos diferenciais em pôr (verbo), pôde (verbo poder no passado), têm e seus compostos verbais (detêm, mantêm) continuam a ser usados.

A ideia da neopedagogia é recente e ainda pouco divulgada, mas, pelo que foi apresentado aqui, acreditamos na importância que os ensinamentos desse método já estão trazendo com cursos de Graduação e Pós-Graduação e atraindo cada vez mais seguidores, com um único objetivo: entender a gramática natural que possuímos, só não a desenvolvemos por completo (ainda!).

* Professor de Língua Portuguesa, Mestre em Linguística (UFPE) e Doutorando em Letras (UFPB). Contato: edmilsonjsa@hotmail.com