Uma aula de redação

Aprenda dicas de linguagem e desenvolvimento de texto

Texto Roberto Sarmento Lima | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

 

 

De que modo você, professor de língua portuguesa, espera que seja uma aula de redação? Sei que por aí deve haver mil e uma formas de ensinar português, e eu corro o risco de chover no molhado. Mas, como avisar nunca é demais, prefiro correr esse risco. Pois bem. Nada de sentar-se à escrivaninha, à frente dos alunos, e pedir-lhes que escrevam sobre suas férias ou sobre o seu último Natal em família! Tal estratégia nunca deu certo mesmo. O resultado disso em geral é mais do que pífio, porque terá faltado uma orientação plausível para dar conta dessa atividade. Perda de tempo! Antes, tomemos um texto pronto de jornal, de revista, de livro científico ou até mesmo um texto literário (mas teria de ser aquele literário mais comportadinho linguisticamente, pois não é hora de quebrar regras e sim de saber quais são elas). Enfim, peguemos um texto que podemos chamar de autêntico, ou seja, não produzido artificialmente para ser usado com fins didáticos, mas aquele que existe de fato, que não foi feito para ensinar e circula por aí em livros, revistas e outras mídias.

 
Certos do que queremos fazer, fatiemos agora esse texto (aconselho que seja um texto pequeno, de quatro ou cinco períodos no máximo, ou que, extraído um parágrafo de uma unidade textual bem maior, seja considerado em si mesmo como um todo autônomo e autossuficiente). Com as fatias cortadas, embaralhemo-las, como num jogo de cartas! Desarrumemos, pois, a ordem das frases! Os alunos vão ter o trabalho de colocá-las na ordem prevista (devendo elas coincidir, no fim de tudo, com o que está no texto-base, evidentemente). E, depois de recompor o que foi decomposto, deverão saber explicar por que assim foi desenvolvido o trabalho, dando justificativas coerentes com o que preceituam a gramática e os conceitos de formação de texto.

 
UM PEDAÇO DE TEXTO DE REPORTAGEM

 
Tomo aqui, para tal exercício, um pedaço de texto retirado de uma reportagem da revista Veja (que em geral se notabiliza por um bom emprego do registro formal escrito) e, dispersando os períodos que o compõem, pretendo realinhá-los, voltando à sua forma original.

 
Eis as frases fora da ordem (para quem quiser conferir, o texto se encontra na edição 2.527 da revista, de 26/4/2017, na página 105, e é o início da reportagem “Viva a História Alternativa”, de Marcelo Marthe):

 
•Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas.
• Tudo impecável, exceto por um detalhe: quase nada disso consta dos livros de história.
• A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo.
• Para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa que, pouco depois do banquete, conduziria Leopoldina ao Rio de Janeiro.

 
PONDO ORDEM NA CASA

 
Apresentadas as fatias, comecemos a arrumá-las, torcendo para que fique tudo certo. Como escolher aquela que vai ser a primeira frase do texto, a que vai apresentar o tema que se discute nele? Comparando as cinco fatias, vemos que a de número 3 reúne a maior precisão possível, dizendo que uma cena histórica foi recriada em uma telenovela, cujo nome já aparece, Novo Mundo; que há uma princesa austríaca; e que o fato se deu no remoto ano de 1817. Não lhe parece, leitor, ser essa alínea a mais completa de todas? É o que, na linguagem jornalística, se chama de “lide” (do inglês lead), a informação (ou um conjunto de informações) que abre o texto por conter os principais elementos referenciais: quem (uma princesa austríaca), quando (em 1817), onde (numa viagem ao Brasil). Mais adiante, em outro período, ficamos sabendo por que a princesa veio para cá. São tais informações os ingredientes da notícia que interessam ao leitor, para ficar bem situado. Informações básicas e elucidativas.

 
Por que não é a de número 1 a primeira informação do texto, a que deve encabeçar o texto que se vai compor, e sim a de número 3? Porque, antes de dizer que Leopoldina é “a futura esposa de dom Pedro I”, talvez seja necessário que se diga que ela é uma princesa austríaca, se é que o conhecimento da noção de origem realmente prevalece, tendo em vista a necessidade de criar um contexto, passo a passo, para a definição do papel dessa personagem. Em situações assim, condição social (“princesa”) e origem (“austríaca”) — e ainda o nome da futura rainha (“Leopoldina”) — vêm na frente. Ademais, a descrição da festa de despedida vem depois do anúncio dos dados básicos da biografia da princesa. Questão de lógica, não? Assim, a informação 1 das instruções do exercício é a segunda na reconstrução do texto, enquanto a 3 é a primeira. O texto fica, até o momento, assim:

 
“A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo. Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas.”

 
O professor tem de saber argumentar e mostrar isso muito bem ao seu aluno para que o casamento das frases dê certo (já que o casamento de Leopoldina com Pedro foi um fiasco). Apela-se para a lógica comum que envolve a sucessão dos termos nas frases envolvidas, confirmando-se assim o conhecimento histórico e o conhecimento linguístico, porque o consórcio desses dois universos produz segurança na hora de explicar o ordenamento que as frases assumem no texto. O primeiro período é mais definido do que o segundo pelo acúmulo maior dos detalhes que apresenta: a data da chegada da princesa ao Brasil, o nome dela, sua naturalidade, o nome da telenovela em que aparece a cena da viagem, iniciando a narrativa. O segundo período, visto como consequência do primeiro, introduz o nome da atriz que a representa na telinha (“Letícia Colin”), o que é secundário em relação à primeira informação. Nesse período, diz-se o que houve no bota-fora da princesa: o “luxo”, mencionado na primeira frase, agora passa a ser exemplificado fartamente. A festa, como se vê depois, teve extravagâncias sesquipedais (“show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas”), coisa de fazer inveja às elites brasileiras de hoje, para sempre marcadas pela investigação da Lava-Jato.

 
A informação 4 é, na verdade, a terceira frase do texto, que fica assim, nesse passo a passo:

 
“A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo. Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas. Para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa que, pouco depois do banquete, conduziria Leopoldina ao Rio de Janeiro.”

 
Note, meu caro professor, meu irmão, meu semelhante, que a informação 4 teria de ser mesmo a terceira do texto. Nesta, como se pode ver, alude-se ainda à paisagem europeia, com sua neve produzida pelos estúdios da Globo. Além disso, a expressão temporal “pouco depois do banquete” mostra que Leopoldina ainda vai viajar. Na organização das cenas (e, por conseguinte, do texto, que preferiu seguir a cronologia dos fatos citados), temos a seguinte ordem de conteúdos por período: (1) ênfase dada à recriação, no primeiro capítulo da novela Novo Mundo, da viagem da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil; (2) focalização da festa de despedida em homenagem à princesa que parte, com todas as peculiaridades de fausto da realeza europeia naquela época; e (3), como artifício da recriação novelística, destaque conferido à queda de neve sobre carruagens e à réplica da caravela para que se dê a viagem da princesa.

 

Quer dicas sobre como concluir o texto? Confira na matéria completa da Revista Conhecimento Prático – Língua Portuguesa Ed 65