Uma aula de redação

Compor um texto tomando como base o fatiamento de outro texto ajuda a compreender a reunião lógica de suas informações e pode ser um eficiente instrumento para levar a pensar

Texto: Roberto Sarmento Lima | Fotos: Shutterstock | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

De que modo você, professor de língua portuguesa, espera que seja uma aula de redação? Sei que por aí deve haver mil e uma formas de ensinar português, e eu corro o risco de chover no molhado. Mas, como avisar nunca é demais, prefiro correr esse risco. Pois bem. Nada de sentar-se à escrivaninha, à frente dos alunos, e pedir-lhes que escrevam sobre suas férias ou sobre o seu último Natal em família! Tal estratégia nunca deu certo mesmo. O resultado disso em geral é mais do que pífio, porque terá faltado uma orientação plausível para dar conta dessa atividade. Perda de tempo! Antes, tomemos um texto pronto de jornal, de revista, de livro científico ou até mesmo um texto literário (mas teria de ser aquele literário mais comportadinho linguisticamente, pois não é hora de quebrar regras e sim de saber quais são elas). Enfim, peguemos um texto que podemos chamar de autêntico, ou seja, não produzido artificialmente para ser usado com fins didáticos, mas aquele que existe de fato, que não foi feito para ensinar e circula por aí em livros, revistas e outras mídias.

Certos do que queremos fazer, fatiemos agora esse texto (aconselho que seja um texto pequeno, de quatro ou cinco períodos no máximo, ou que, extraído um parágrafo de uma unidade textual bem maior, seja considerado em si mesmo como um todo autônomo e autossuficiente). Com as fatias cortadas, embaralhemo-las, como num jogo de cartas! Desarrumemos, pois, a ordem das frases! Os alunos vão ter o trabalho de colocá-las na ordem prevista (devendo elas coincidir, no fim de tudo, com o que está no texto-base, evidentemente). E, depois de recompor o que foi decomposto, deverão saber explicar por que assim foi desenvolvido o trabalho, dando justificativas coerentes com o que preceituam a gramática e os conceitos de formação de texto.

UM PEDAÇO DE TEXTO DE REPORTAGEM
Tomo aqui, para tal exercício, um pedaço de texto retirado de uma reportagem da revista Veja (que em geral se notabiliza por um bom emprego do registro formal escrito) e, dispersando os períodos que o compõem, pretendo realinhá-los, voltando à sua forma original.

Eis as frases fora da ordem (para quem quiser conferir, o texto se encontra na edição 2.527 da revista, de 26/4/2017, na página 105, e é o início da reportagem “Viva a História Alternativa”, de Marcelo Marthe):

•Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas.

• Tudo impecável, exceto por um detalhe: quase nada disso consta dos livros de história.

• A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo.

• Para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa que, pouco depois do banquete, conduziria Leopoldina ao Rio de Janeiro.

PONDO ORDEM NA CASA
Apresentadas as fatias, comecemos a arrumá-las, torcendo para que fique tudo certo. Como escolher aquela que vai ser a primeira frase do texto, a que vai apresentar o tema que se discute nele? Comparando as cinco fatias, vemos que a de número 3 reúne a maior precisão possível, dizendo que uma cena histórica foi recriada em uma telenovela, cujo nome já aparece, Novo Mundo; que há uma princesa austríaca; e que o fato se deu no remoto ano de 1817. Não lhe parece, leitor, ser essa alínea a mais completa de todas? É o que, na linguagem jornalística, se chama de “lide” (do inglês lead), a informação (ou um conjunto de informações) que abre o texto por conter os principais elementos referenciais: quem (uma princesa austríaca), quando (em 1817), onde (numa viagem ao Brasil). Mais adiante, em outro período, ficamos sabendo por que a princesa veio para cá. São tais informações os ingredientes da notícia que interessam ao leitor, para ficar bem situado. Informações básicas e elucidativas.

Por que não é a de número 1 a primeira informação do texto, a que deve encabeçar o texto que se vai compor, e sim a de número 3? Porque, antes de dizer que Leopoldina é “a futura esposa de dom Pedro I”, talvez seja necessário que se diga que ela é uma princesa austríaca, se é que o conhecimento da noção de origem realmente prevalece, tendo em vista a necessidade de criar um contexto, passo a passo, para a definição do papel dessa personagem. Em situações assim, condição social (“princesa”) e origem (“austríaca”) — e ainda o nome da futura rainha (“Leopoldina”) — vêm na frente. Ademais, a descrição da festa de despedida vem depois do anúncio dos dados básicos da biografia da princesa. Questão de lógica, não?

Assim, a informação 1 das instruções do exercício é a segunda na reconstrução do texto, enquanto a 3 é a primeira. O texto fica, até o momento, assim:

“A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo. Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas.”

O professor tem de saber argumentar e mostrar isso muito bem ao seu aluno para que o casamento das frases dê certo (já que o casamento de Leopoldina com Pedro foi um fiasco). Apela-se para a lógica comum que envolve a sucessão dos termos nas frases envolvidas, confirmando-se assim o conhecimento histórico e o conhecimento linguístico, porque o consórcio desses dois universos produz segurança na hora de explicar o ordenamento que as frases assumem no texto. O primeiro período é mais definido do que o segundo pelo acúmulo maior dos detalhes que apresenta: a data da chegada da princesa ao Brasil, o nome dela, sua naturalidade, o nome da telenovela em que aparece a cena da viagem, iniciando a narrativa. O segundo período, visto como consequência do primeiro, introduz o nome da atriz que a representa na telinha (“Letícia Colin”), o que é secundário em relação à primeira informação. Nesse período, diz-se o que houve no bota-fora da princesa: o “luxo”, mencionado na primeira frase, agora passa a ser exemplificado fartamente. A festa, como se vê depois, teve extravagâncias sesquipedais (“show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas”), coisa de fazer inveja às elites brasileiras de hoje, para sempre marcadas pela investigação da Lava-Jato.

A informação 4 é, na verdade, a terceira frase do texto, que fica assim, nesse passo a passo:

“A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo. Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas. Para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa que, pouco depois do banquete, conduziria Leopoldina ao Rio de Janeiro.”
Note, meu caro professor, meu irmão, meu semelhante, que a informação 4 teria de ser mesmo a terceira do texto. Nesta, como se pode ver, alude-se ainda à paisagem europeia, com sua neve produzida pelos estúdios da Globo. Além disso, a expressão temporal “pouco depois do banquete” mostra que Leopoldina ainda vai viajar. Na organização das cenas (e, por conseguinte, do texto, que preferiu seguir a cronologia dos fatos citados), temos a seguinte ordem de conteúdos por período: (1) ênfase dada à recriação, no primeiro capítulo da novela Novo Mundo, da viagem da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil; (2) focalização da festa de despedida em homenagem à princesa que parte, com todas as peculiaridades de fausto da realeza europeia naquela época; e (3), como artifício da recriação novelística, destaque conferido à queda de neve sobre carruagens e à réplica da caravela para que se dê a viagem da princesa.

FECHANDO O TEXTO
Sobrou, agora, a informação 2, constante do fatiamento do texto original. Essa informação vai ser a quarta do texto. Vejamos como ficou ele, completo:

“A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817, foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo. Vivida por Letícia Colin, a futura esposa de dom Pedro I ganha festa de despedida num palácio europeu, com show de artistas mambembes e distribuição de barras de ouro à bandejada aos convivas. Para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa que, pouco depois do banquete, conduziria Leopoldina ao Rio de Janeiro. Tudo impecável, exceto por um detalhe: quase nada disso consta dos livros de história.”

O último período tem toda a pinta de fechamento: é um resumo, um recolho, como diz Dámaso Alonso a respeito dos sonetos barrocos em que, no último verso, são retomadas as imagens metafóricas disseminadas ao longo do poema. O indefinido e generalizante “tudo” se refere, sim, a tudo que foi descrito até ali; seu antônimo “nada” (ou, melhormente, “quase nada”) também tem esse poder resumidor. Já o “disso” (em “quase nada disso”) tem valor anafórico, remetendo o leitor para trás, e abrange as informações contidas nos quatro períodos que antecedem esse agora que conclui. A ironia, que resulta da leitura do texto, é que, se o leitor acreditou no que a novela de fundo histórico promete mostrar, cai das nuvens ao saber que é praticamente um trabalho de intenso valor ficcional, não historiográfico ou documental. É telenovela, é diversão pura, entretenimento acima de tudo. Boa hora para falar também de textos ficcionais e de textos que, inversamente, pretendem ser o registro de algum fato acontecido no passado.

Nessa aula de redação — na qual coparticipam a semântica e a sintaxe como dimensões parceiras da construção do texto —, o professor deve saber conduzir de tal forma a explicação a ponto de poder mostrar que uma área ajuda a outra, sendo inseparáveis. No âmbito das considerações semânticas, sabe-se que, numa narrativa, o fator temporal é determinante. O texto do jornalista de Veja é narrativo (o reconhecimento do método utilizado é fundamental para a compreensão do texto). Esse texto jornalístico narra o que existe em outra narrativa, a que é proposta pela novela, e cada uma dessas narrativas tem o seu próprio tempo. Por essa visão metodológica, é bom dar uma olhada nos verbos, que assumem papel principal. Incidem eles sobre ações que se desenvolvem no texto, linearmente. O segredo está em saber reconhecer que se trata de dois conjuntos de verbos, distribuídos em duas narrativas que se completam.

Por exemplo, esse “em 1817” que aparece no primeiro período é o tempo da narrativa a que o narrador-jornalista se reporta. O ano de 1817 se refere ao momento da vinda da princesa Leopoldina ao Brasil e não ao tempo em que se diz que “a vinda da princesa foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo”. Por isso mesmo, leitor, esse “em 1817” não é um adjunto adverbial de tempo do período em que está. Não é, simplesmente porque não se adjunge a “foi recriada” (ora, a recriação do fato histórico se deu em 2017, duzentos anos depois da vinda de Leopoldina para cá). Esse “em 1817” faz parte da expressão do sujeito da oração, que é longo, longo: “A vinda da princesa austríaca Leopoldina ao Brasil, em 1817”. Tudo isso? Tudo isso! O predicado vem depois: “foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo”.

Quem recriou a história de Leopoldina e de dom Pedro I foi a Globo, por meio do seu departamento de dramaturgia, que, infelizmente, em 1817, ainda não existia. Não se referindo ao tempo do narrador-jornalista (presente em “foi recriada”), essa expressão temporal só pode estar se referindo ao tempo da história que está sendo contada, em torno de cujo substantivo de ação “vinda” gira o termo “em 1817”. O narrador-jornalista narra uma história que, por sua vez, narra outra coisa, a vinda da princesa ao Rio de Janeiro, naquela data. Uma narrativa inclui outra. Dá para perceber, leitor? Então, tome cuidado na hora de classificar termos da oração! Ele não é um adjunto adverbial de tempo como uma leitura apressada da frase poderia admitir de pés juntos; é um termo que gira em torno do particípio substantivado “vinda” para melhor determiná-lo cronológica e historicamente; é um adjunto adnominal do núcleo desse sujeito, “vinda”.

UM CASAMENTO PERFEITO
É hora de afinar os instrumentos! Há uma distância temporal de, pelo menos, duzentos anos entre o jornalista Marcelo Marthe, que assina a matéria de Veja, e o fato da vinda da princesa austríaca, no começo do século XIX, que ele narra. O texto inteiro trata dessa vinda da princesa — desde a festa de despedida até a viagem propriamente dita, sendo esta apenas citada enquanto aquela é comentada e demonstrada em seus detalhes —, mas não só dessa vinda. O leitor vai, aos poucos, ficando ciente de que o texto só se interessa mesmo é pelas extravagâncias da corte austríaca ao despedir-se de Leopoldina. Na narrativa do narrador-jornalista dão-se dois movimentos: um para dentro dele mesmo e outro para fora do seu âmbito. No primeiro caso, o narrador prende-se ao seu tempo e demora-se nele, pois boa parte da massa verbal do texto implica anotações sobre o século XXI: “foi recriada com luxo no primeiro capítulo da novela Novo Mundo”, “vivida por Letícia Colin”, “para gravar a sequência da nova trama das 6, em exibição há um mês, a Globo fez cair neve artificial sobre carruagens e construiu uma réplica da caravela portuguesa”, “tudo impecável, exceto por um detalhe: quase nada disso consta dos livros de história”. O resto que sobrou e que não assinalei agora pertence a eventos do tempo da história narrada por Marthe. Movimento para dentro quer dizer tudo aquilo que remete ao ato enunciativo, do tempo real em que se situa o narrador-jornalista; e para fora, ao contrário, quer dizer tudo aquilo que implica os fatos do século XIX revividos pela novela, por si só outra narrativa. Já a narrativa do narrador-jornalista açambarca, assim, a narrativa novelística. E cada uma delas tem seu tempo peculiar. Reconhecer isso ajuda a compreender o texto, a redigi-lo com sabedoria, a classificar com precisão os termos da oração, entendendo o que eles transmitem. Esse exercício ajuda a escrever e a pensar. A pôr em ordem as frases que foram tiradas do conjunto, transformadas provisoriamente em fatias. Fatias que, no fim, voltam, devidamente reunidas, ao seu ponto de origem, restabelecendo a ordem textual.

Redigir, portanto, é um ato de conhecimento tanto do funcionamento de regras textuais, sintáticas, quanto da semântica que lhes dá base e, depois, formato, acabamento formal, comprovando-se, na prática, que forma e fundo não se separam jamais. Um casamento melhor do que o de Leopoldina.