Um exercício de reflexão sobre a prática docente

Estabelecer uma relação entre ética e educação, bem como entre educador e seu exercício profissional, é um grande desafio

Texto Aline Fernanda Camargo Sampaio | Adaptação Giovanna Henriques da Costa | Foto Shutterstock

Se a educação lida com a formação, não é por outro motivo que se pode dizer que a educação possui o diferencial de requerer a ética como condição precípua para sua expressão e exercício. Essa situação requer, na preparação do profissional, esmero cada vez maior, que nos leva a redimensionar a nossa própria área de atuação; no meu caso, o estudo da Língua Portuguesa na universidade. Não é possível, restringir o ensino de língua materna somente ao universo do discurso técnico.

 
Como mediação entre os homens, considera-se a linguagem como base do pensamento. Recorre-se, então, ao diálogo tomado não apenas pelas trocas verbais orais (a fala), mas pelas trocas de conhecimento, realizadas a partir de problemas com os quais temos que conviver socialmente e sobre os quais temos que fazer reflexão, pensar, a fim de se encontrarem soluções. Ensinar os alunos apenas como produzir textos publicitários, por exemplo, não é suficiente para a formação do cidadão crítico. Portanto, coincidindo com o “saber fazer” está associada a reflexão crítica ao que já foi produzido e ao que se produz, a fim de incitar o estudante a desvendar as implicações ideológicas do discurso. Ao se reportar às outras áreas do conhecimento técnico, é preciso lembrar que outros gêneros discursivos são bastante utilizados. Para uma grande quantidade de cursos técnicos, como os da área de Engenharia, é imprescindível o estudo de gêneros discursivos e, de modo especial, o conhecimento das características específicas da descrição.

 
Ao estudante dos cursos de Turismo, também não se permite o desconhecimento da descrição, por meio da qual os veículos de comunicação costumam descrever as belezas das regiões geográficas para as quais procuram chamar a atenção dos turistas em potencial. Na verdade, todo conhecimento precisa culminar em uma produção efetiva. Assim como o estudante de Publicidade deve tornar-se competente para o mercado de trabalho, sendo capaz de continuamente elaborar textos, principalmente os específicos, o mesmo vale para as outras áreas. A partir do conhecimento da descrição, os estudantes de Análise de Sistemas e de outros cursos da área de Ciências Exatas usarão esse tipo de texto para a elaboração de manuais de instrução, ou de relatórios, nos quais se descreve o processo das ações realizadas, em uma dada ordem e com um objetivo definido.

 
Logo, nada mais frutífero, para o professor de Língua Portuguesa na universidade, do que constatar as mudanças ocorridas na relação técnica-discurso e definir a sua área de ensino: o que o estudante precisa conhecer a fim de se formar profissionalmente. Debruçar-se também sobre essa relação e aceitar o discurso técnico, que, muitas vezes, não é arte, nem um fim em si, mas meio para exercício da técnica, é função dos cursos de formação de professores, cuja atuação se pretende não apenas a partir de uma visão da língua como objeto ou apenas voltada para a Literatura, mas também em sua aceitação como mediadora entre os homens e deles com o mundo, para produzirem ou usarem objetos e/ou mensagens com fins utilitários. Assim, acredito que o meu dever enquanto professora de língua materna seja o de resgatar e respeitar o conhecimento prévio de meus alunos, adotando uma postura de partilha de experiência, uma vez que o melhor meio para
se aprender e ensinar algo está no exercício do diálogo, na interação educador-educando.

Revista Conhecimento Prático – Língua Portuguesa Ed 65