Topicalização e padrões de construção sintática na Língua

O registro da língua portuguesa utilizado como base de materiais didáticos e planos de aula ainda segue uma ideia colonizada no nosso País. Entenda

Texto Iran Ferreira de Melo | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Os estudos linguísticos do Brasil, nas últimas três décadas, têm oferecido grandes contribuições para a descrição da língua portuguesa falada e escrita em nosso país (português brasileiro, doravante PB). Diferentes projetos interinstitucionais, liderados por professores de larga experiência nos estudos da linguagem (a exemplo de Maria Helena de Moura Neves, Rodolfo Ilari e Ataliba de Castilho) vêm desenvolvendo pesquisas para entender como as pessoas usam a língua e qual a relação que os diversos usos linguísticos possuem com os contextos sociais e cognitivos em que esses usos acontecem. Nessa perspectiva, conhecida como funcionalista, tais estudos vão de encontro aos tradicionais postulados normativistas e pouco inspirados na realidade das variedades linguísticas do Brasil, na mudança histórica de nosso português e nos diferentes discursos produzidos em PB. Postulados esses que, ainda em vigor na nossa sociedade por meio do aparelhamento de instituições conservadoras (reprodutoras do ensino tradicional, estruturalista), buscam manter a descrição de qualquer registro do PB segundo padrões do português escrito europeu e que, portanto, como nos lembra Marcos Bagno, em sua Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, promovem, junto a essas instituições, uma prática colonizada e com pouca compreensão sobre como, de fato, usamos a língua portuguesa em nosso país. As investigações científicas empreendidas sobre as construções sintáticas do nosso português vivenciam práticas contrárias à legitimação desses postulados, procurando entender, entre outras coisas, como se estruturam as relações sintáticas do PB, quais as características que a sintaxe de nossa língua apresenta e o que os traços de caráter sintático que articulamos nos dizem sobre o modo como produzimos sentido.

 

 

Dentre as diferentes construções sintáticas do PB pesquisadas, a topicalização tem se revelado, nessas investigações (por exemplo, nas pesquisas das cientistas Eunice Pontes, Mary Kato, Charlotte Galves e Edinalva Araújo), como um mecanismo de natureza discursivo-pragmática muito interessante e responsável por apontar modos de fraseado pouco catalogados pelos compêndios de gramática no Brasil, porém muito comuns nas interações cotidianas dos falantes brasileiros, sobretudo na oralidade. Esse paradoxo, já tradicional em nosso país entre os discursos institucionais oficiais, mormente aqueles que representam as nossas instituições pedagógicas, e a realidade do PB, remonta ainda o grande descompasso entre como a nossa língua é geralmente tratada na condição de objeto de conhecimento pedagógico e como tem sido descrita pelas pesquisas linguísticas atuais. O caso da topicalização apresenta nuances relevantes para entender de que forma, realmente, a estrutura de nossa sintaxe do PB se realiza e, com isso, indica que as configurações que emergem para compor os enunciados formados por tópico-co- mentário preenchem funções comunicativas comuns em nossas interações. Isso justifica a necessidade de deixarmos de lado a prescrição da sintaxe do português no Brasil, geralmente entendida a partir de parâmetros europeus e pouco usuais em nossa sociedade e descolonizarmos o olhar sobre a nossa língua.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 52