Tira, charge e cartum: afinal, o que são?

Quando o olhar se volta às histórias em quadrinhos de humor, a visão se torna um tanto curva. Quer ver só? De pronto, você saberia dizer qual a diferença entre charge, cartum e tira? Se sim, você é uma das exceções

Por Paulo Ramos* | Foto Shutterstock

A regra é confundir os três, em especial os dois primeiros. Para explicar melhor do que se trata cada um deles, a discussão se volta incontornavelmente às características apresentadas por esses textos. Em outros termos: torna-se uma exposição sobre gêneros – dos quadrinhos, no caso – e suas marcas de estabilidade na forma como circulam socialmente.

Comecemos pela charge. Ela já era vista nos jornais bem antes de ser conhecida por esse nome. Pelo menos no Brasil. No século 19, os periódicos daqui costumavam chamar de caricatura essa forma de produção gráfica. Tudo – ou quase tudo – que fosse desenhado e que mexesse com temas cotidianos era rotulado assim. Mas o DNA da charge já estava lá. A marca central dela é abordar algum tema do noticiário. Esse contato com os fatos jornalísticos é trabalhado de forma crítica e, na esmagadora maioria das vezes, com humor. Foi assim que ela ganhou espaço fixo em muitos jornais do país durante o século 20. Em alguns, em páginas até bastante nobres. Tendo essa marca central em mente, a interação com os fatos jornalísticos, vejamos um exemplo para tentar deixar a exposição um pouco mais clara. A charge é de autoria de Laerte Coutinho:


O desenho foi veiculado no jornal Folha de S.Paulo de 1º de julho de 2014. A data é importante para que se perceba qual ou quais fatos a história aborda. No caso, o diálogo era com a Copa do Mundo, realizada no Brasil entre os meses de junho e julho daquele ano. Um dos discursos bastante correntes à época era que o país não teria condições de sediar o campeonato de futebol por não oferecer infraestrutura adequada para um evento mundial desse porte. Um bordão corrente de se ouvir era “imagina na Copa?”. O que se viu, no entanto, é que, mesmo concluídos às pressas, os estádios puderam receber normalmente os torcedores. Deu tudo certo, enfim. A cutucada feita por Laerte era justamente sobre as opiniões contrárias ao governo. Mostrados como arautos do apocalipse, com capuzes e montados em cavalos feitos apenas de ossos, os críticos são mostrados em dois momentos. No primeiro, à esquerda da cena, eles levantam comentários comuns nos meses que antecederam a Copa: “não vai ter estádio”; “não vai ter aeroporto”; “não vai ter acesso”. Dá-se um espaço até a imagem da direita, intervalo que pode ser interpretado como o momento de realização do mundial. Como nada do que havia sido dito de fato ocorreu, a derradeira placa arrumava uma espécie de desculpa sobre os comentários feitos: “caso tenha, isso era apenas crítica construtiva”. Criava-se, assim, o humor.

Vale destacar outros dois pontos a respeito das charges. Um é que o tema delas não é obrigatoriamente relacionado à política, como muitos costumam pensar. Outros assuntos também são trabalhados. Tudo vai depender da importância do fato. O outro destaque sobre as charges é que elas não precisam obrigatoriamente ter humor. O lado cômico ocorre quase sempre. Mas não sempre. Em assuntos mais delicados, como tragédias ou morte de pessoas importantes, o tom costuma ser outro, bem mais sério. Um caso assim:

O desenho foi feito por Amarildo e publicado no jornal A Gazeta, de Vitória (ES), em 29 de novembro de 2014. A data, vale registrar mais uma vez, é importante para que se saiba com qual fato a charge trabalha. No caso, tratava-se da morte do ator mexicano Roberto Gómez Bolaños, falecido um dia antes. Bolaños ficou mundialmente conhecido por ter interpretado o personagem central do seriado Chaves. No Brasil, a série é exibida pelo SBT desde meados da década de 1980. Chaves costumava ser visto dentro de um barril na vila onde interagia com os demais moradores de lá – Quico, Chiquinha, Seu Madruga, Dona Florinda. A imagem mostra um menino olhando dentro do barril, sem encontrar nada. O personagem já não estava mais lá, motivo de tristeza, que leva o garoto às lágrimas. Na parte de madeira, mostram-se os anos de nascimento e de morte de Bolaños, 1929-2014. Nada de humor.

Fica claro, portanto, que a charge mexe com algum assunto noticiado. É justamente essa a diferença entre ela e o cartum. O cartum extrai humor de qualquer situação, sem a exigência dessa amarra factual. Por conta disso, seu entendimento tem um prazo de validade mais largo, ao contrário da charge. Um exemplo: O cartum, criado pelo iraniano Afshin Nazari, foi o principal premiado do Salão Internacional de Humor de Piracicaba de 2014. A brincadeira é que o preso serrou as grades da janela de sua cela, amarrou o lençol numa das barras de ferro e está pronto para alcançar a liberdade. O humor surge pelo fato de ele ter amarrado uma das extremidades do lençol ao próprio pescoço. Ou seja, de nada adiantaria a fuga, porque, ao final, ele seria enforcado. Além da comicidade em si, podem-se perceber também alguns toques de crítica ao sistema carcerário. Mas nada diretamente relacionado a alguma notícia específica, como na charge.
Recursos usados tanto na charge quanto no cartum podem ser vistos também nas tiras. Mas há um diferencial de base: o formato. O tamanho usado pelas tiras já antecipa ao leitor do que se trata aquele conteúdo, mexa ele com temas do noticiário ou não, quer tenha personagens fixos, quer não.
As tiras cômicas – há outros gêneros de tiras, não custa registrar – têm como marca central a construção de uma situação de humor com desfecho inesperado. É como ocorre nas piadas: a narrativa é construída de modo a surpreender o leitor no final. Essa quebra de expectativa é o que leva ao sentido cômico.

O Brasil já se tornou um dos principais polos produtores de tiras do mundo. Nossas tiras cômicas não deixam a desejar às de outros países importantes no segmento, como os Estados Unidos e a Argentina. E não só nos jornais. Na internet, elas têm encontrado novos caminhos, via sites, blogs e redes sociais. Um caso:

A tira é da série Bichinhos de Jardim, de Clara Gomes. As histórias criadas por ela são veiculadas tanto em jornal – O Globo, do Rio de Janeiro – quanto na página pessoal da autora. Nesse exemplo, o humor é criado na cena final e conta com uma ajuda do leitor para preencher as informações sugeridas. Nos três primeiros quadrinhos, a joaninha se mostra decidida a não ficar mal. Ela se diz “decidida e cantante”, a ponto de enxergar tudo de uma maneira mais otimista, até mesmo os “doces passarinhos” que estavam vindo em sua direção. Para comê-la. Daí a correria no final, que leva ao sentido de humor. É de se concordar que há muitos casos em que a fronteira entre tiras e, principalmente, charge e cartum fica bastante nebulosa. Ter clareza das marcas centrais de cada um deles pode não responder tão bem situações assim. Mas seguramente vai ajudar a dar maior propriedade à discussão.

*Paulo Ramos é jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo