Subserviência cultural

Subserviência cultural do brasileiro

Texto José Augusto Carvalho |Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

 

Há duas forças na língua que se opõem e agem simultaneamente: o espírito de intercurso, que acolhe termos e expressões estrangeiras, e o espírito de campanário (esprit de clocher), que repele esses termos e expressões, substituindo-os por equivalentes vernáculos. Foi o que ocorreu com a terminologia futebolística. Ninguém, hoje, diz “corner”, “center forward” ou “goal keeper”, por exemplo, mas “escanteio”, “centroavante” ou “goleiro”. Ninguém tampouco usa o nome inglês “speaker” para designar o locutor de rádio.

 
É possível entender a subserviência cultural do brasileiro quando se trata de palavras estrangeiras sem os equivalentes no idioma pátrio, como a maioria dos termos relacionados à informática ou à ciência da computação, até que um dia prevaleçam o bom-senso e o espírito de campanário, e o povo adote formas substitutas, como aconteceu com a metalinguagem do futebol. O que me causa espécie, contudo, não são os estrangeirismos porque a língua não é um compartimento estanque, e é necessária a comunicação com outras culturas e outros povos. Afinal, se o dicionário fizesse a língua, o inglês seria língua latina e não germânica, porque há muitas palavras latinas no seu léxico. Da mesma forma, o romeno seria língua eslava e não latina, já que grande parte de seu vocabulário é de origem eslava. O que me revolta é a intromissão estrangeira na própria gramática da nossa língua.

 
BECHARA

 

Leiamos o que diz nosso maior gramático, Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras e autor de vários compêndios gramaticais: “Etnônimo é o nome que se aplica à denominação dos povos, das tribos, das castas ou de agrupamentos outros em que prevalece o conceito de etnia. Estes nomes utilizados na língua comum admitem a forma plural, como todos os outros: os brasileiros, os portugueses, os espanhóis, os botocudos, os tupis, os tamoios, etc.” (BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001, p. 88) e Moderna gramática portuguesa, 37ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999, p. 129).

 
Por convenção internacional de etnólogos, que nada entendem de linguística e ainda menos de morfologia da língua portuguesa, os etnônimos que não sejam de origem vernácula ou não contenham elementos vernáculos se mantêm invariáveis no plural. Por essa norma, deveríamos dizer e escrever “os tupi”, “os caiuá”, “os guarani”. O problema é que, se formos seguir à risca essa convenção que desrespeita a formação do plural de substantivos em português, teremos de dizer Goiá, em lugar de Goiás (nome do Estado), Aimoré, em lugar de Aimorés (nome de cidade mineira), Chavante (sic), em lugar de Xavantes (cidade de São Paulo) etc.

 
A propósito do plural de etnônimos, eis o que digo no meu livro Problemas e curiosidades da língua portuguesa (Brasília: Thesaurus, 2014,p. 97, a respeito de um equívoco do dicionário Houaiss:
“(…) o nome da cidade de Campos deveria ser Campos dos Goitacás, e não dos Goytacazes. O Aurélio registra o singular ‘goitacá’, embora o Houaiss registre o singular ‘goitacaz’, com base parcialmente na grafia registrada por Theodoro Sampaio, no livro O tupi na geographia nacional (3.ed. Bahia: Secção Graphica da Escola Aprendizes Artífices, 1928, s.v. Goytacaz). Theodoro Sampaio, contudo, deve ter-se equivocado ao grafar ‘goytacaz’, porque dá como étimo, sem z final, a expressão ‘guay-atacá’ (o indivíduo veloz, a gente andeja), e registra também a forma ‘Guaytacá’ no mesmo verbete. O –z final, certamente, é fruto de equívoco. Cf. Goiá, plural: Goiás.” A forma “goytacazes” (com grafia à antiga, não sei por quê), na verdade, é hipercaracterização, já que é plural de plural (é como se disséssemos “cafezes” em lugar de “cafés”).

 
Além dessa subversão indevida na formação do plural de substantivos em português que atenta contra a nossa dignidade (“Tenho uma pátria: a língua francesa”, disse Camus nos seus Cadernos. Também podemos dizer, como Fernando Pessoa, que nossa pátria é a língua portuguesa.), há outra intromissão estrangeira indevida na nossa gramática, desta vez no nosso processo de formação vocabular.

 

PARALÍMPICO

 

O Comité Paraolímpico Internacional (International Paralympic Committee) exigiu que se diga e se escreva “paralímpico” em lugar de “paraolímpico”, em desrespeito à formação de palavras na nossa língua. Não faz sentido dizer “paralimpíada” em lugar de “paraolimpíada”, como não faz sentido dizer “paraclusal” ou “pararvalho”, em lugar de “paraoclusal” ou “paraorvalho”, que são as formas recomendadas pelo Vocabulário Ortográfico. Se alguma vogal tivesse que ser suprimida na formação dessas palavras, seria a do radical “para-“ (que também aparece sob a forma “par”, como em “parótico” por exemplo, de “par(a) + ótico”), e não a da palavra base “olímpico”. Assim, “parolímpico” seria mais adequado do que “paralímpico”, forma que contraria as nossas regras morfológicas.

 

O melhor a fazer é desrespeitar essas interferências espúrias na nossa gramática e seguir a morfologia do português, pluralizando os nomes de povos segundo as regras de formação do plural na língua, e evitar a excrescência da palavra “paralimpíada”. Endossar um erro, ainda que generalizado, por causa da aceitação oficial de convenções equivocadas que nos humilham como falantes do português e nos envergonham como brasileiros, é errar duplamente…Houve um Projeto de Lei (nº 7551/14) dos deputados Salvador Zimbaldi (Pros-SP) e João Dado (SD-SP) que pretendia alterar a Lei Maria da Penha (11.340/06) para substituir as ocorrências da palavra “gênero” pela palavra “sexo”. Não sei o que aconteceu com esse projeto que combatia o absurdo de considerar “gênero” como sinônimo de “sexo”, equívoco generalizado que não passa de um decalque da palavra inglesa “gender” que tanto significa “gênero” quanto “sexo”. Afinal, gênero é uma distinção gramatical, enquanto sexo é uma distinção semântica. Uma palavra pode ser do gênero masculino e designar pessoa do sexo feminino (como “mulherão”, por exemplo, que é substantivo masculino a designar uma mulher exuberante) e vice-versa: “sentinela” é palavra feminina que designa um homem. Além disso, há palavras masculinas (como “cônjuge”) que designam tanto o homem quanto a mulher, e palavras femininas (como “criança” ou “testemunha”) que também designam tanto pessoas do sexo masculino quanto pessoas do sexo feminino. A utilização equivocada de “gênero” como sinônimo de “sexo” é mais um exemplo de subserviência cultural. Está certo que somos um país subdesenvolvido. Mas o mínimo que se poderia exigir das autoridades é um pouco menos de subserviência e um pouco mais de respeito pela língua que todos falamos.