Tecnologia no ensino

Veja como a tecnologia tem agregado benefícios à importante tarefa de educar

Texto Mary Rangel | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

É inegável que a comunicação presencial, no ato de ensinar e aprender, não pode ser excluída do processo didático; que o diálogo e o vínculo afetivo são insubstituíveis e que a tecnologia e o ambiente virtual não substitui ou dispensa a interação, o diálogo, as relações humanas no ato de aprender, de ensinar e na produção de conhecimento. Mas não podemos fugir à realidade de que o ambiente escolar possa ser enriquecido com ferramentas tecnológicas que auxiliem e enriqueçam as práticas de ensino, a pesquisa e a interpretação e a análise crítica de textos digitalizados. Entre esses recursos podemos citar como exemplo a Webquest e os programas para download de Mapas Conceituais. Os recursos do ambiente virtual são ferramentas dos tempos contemporâneos e o uso criativo da internet pode ser aproveitado na aprendizagem do conhecimento, assim como pode se constituir em objeto de estudo e problematização dos impasses do ambiente midiático. Além disso, a produção de mídias escolares pode também ser implementada por meio do uso criativo de blogs, podcasting – arquivos de áudio em formato digital – ou da postagem de textos  audiovisuais no Youtube. Reafirma-se, entretanto, a importância da moderação, para que o uso das ferramentas tecnológicas contribua à leitura, interpretação e produção de textos, com atenção e acuidade crítica, sem aligeiramento, superficialidade e excesso, mantendo o equilíbrio e o propósito de aprendizagem. A formação de atitudes torna-se, portanto, essencial à educação em rede. O twitter, o facebook, os chats podem ser meios de comunicação e diálogo entre os alunos e deles com os professores. As bibliotecas digitais podem ser meios de obter artigos e livros. As plataformas digitais podem ser meios de obter pesquisas, a exemplo de dissertações e teses.

 

 

Entretanto, a facilidade de acesso a trabalhos disponibilizados na internet merece especial cuidado no sentido de que o aproveitamento desses trabalhos seja feito sempre com informação da fonte e autores, ou seja, com a referência completa da origem. A sociedade atual caracteriza-se pela informação, especialmente a que se veicula nas redes. As notícias chegam aos computadores, tablets, celulares com muita agilidade e o leitor as obtém mediante um simples toque numa tecla. Contudo, a velocidade não pode afetar a forma de ler, interpretar, analisar, deduzir, captar o conteúdo do texto com percepção crítica e contextualizada. Ainda há que se cuidar para que a comunicação no ambiente digital não se torne mais um fator de desigualdade socioeconômica e de exclusão de camadas sociais que não tenham condições para não só adquirir equipamentos, mas também para aprender a usálos e, mais ainda, para dominar a linguagem específica da informática, seu vocabulário, seus códigos. Os valores éticos que orientam as relações também são parte da educação para a vida e convivência no mundo virtual, de modo que o respeito, a qualificação das pessoas e a solidariedade presidam as comunicações em rede. Esses valores são essenciais para que o cenário computadorizado não subtraia o sentido, a proposta, o significado de preservação da humanidade e da relação interpessoal, sensível e solidária. Diante de novos modelos e possibilidades de comunicação através de meios e ferramentas variadas de edição e produção de textos, é importante reafirmar que não se pode perder de vista as  formas como são absorvidas e aplicadas as informações. Crianças e jovens têm facilidade de uso dos multimeios, tanto no entretenimento dos jogos e das redes sociais quanto na veiculação de suas produções em blog, fotolog ou Youtube.

 

Entretanto, observa-se o acúmulo crescente do consumo das mídias digitais e a possível dispersão do foco das leituras, o que convoca a atenção dos educadores. Se no trabalho pedagógico com as mídias tradicionais já se apresentava questões diversas, a cultura digital encaminha aos educadores uma dimensão maior de interrogações, como as que se exemplificam a seguir. Essas interrogações suscitam estudos que possam respondê-las de modo fundamentado. É possível e preciso indagar sobre quando acontecem as apropriações das mídias por parte de uma comunidade escolar e quando as  mídias se tornam apenas distrações ou moda. Vale também observar quando as tecnologias contribuem à formação de leitores e quando os textos passam pelos olhos de quem os lê sem construir sentidos, ou, ainda, quando as leituras são aproveitadas, por educadores e educandos, como estímulo para a autoria, ou quando são apenas para a transmissão e a reprodução de textos, em sucessivos downloads.Não há lugar para um processo de ensino-aprendizagem estático, repetitivo, para um educando habituado ao movimento do mundo digital. O aluno é um ouvinte espectador- leitor em um novo contexto interativo. Nesse contexto, a cultura construída em rede, ou seja, a cibercultura, torna-se alvo de uma apropriação pedagógica que estimule questionamentos. Essa análise se traduz em práticas educativas que propiciam a formação de leitores-ouvintes espectadores críticos, mas também – e principalmente – de construtores produtivos e criativos de textos. Os alunos podem usar, de modo espontâneo, os dispositivos de comunicação, pois isso acontece de maneira empírica. O que necessitam é de orientação no sentido de não perderem a percepção crítica e preservarem a moderação dos usos, de modo a não serem envolvidos pela velocidade intensa do fluxo das informações. Submersos em um cotidiano tão veloz quanto permeado de multimídias e multitarefas, os alunos podem perder condições de concentração na leitura de um texto, a ponto de não interpretarem adequadamente suas ideias e mensagens, o que dificulta a elaboração de conceitos e o exercício do pensamento reflexivo. Recomenda-se, então, prudência para “navegar” nas redes da internet com segurança, sem submergir na onda digital. É necessário priorizar o compromisso educativo, para que se ensine essa prudência àqueles por cuja formação a escola e a família são responsáveis.

 

 

A comparação entre as mídias impressas (consideradas “tradicionais”) e as “novas” mídias digitais também necessita de prudência e moderação. Os livros, os artigos, os jornais têm contribuições significativas e necessárias à formação de leitores e autores. Ler na tela não exclui as possibilidades e contribuições da leitura de textos impressos. Pode-se, então, reconhecer que as tecnologias de informação e comunicação, por serem partes indissociáveis da vida social, devem ser consideradas pela comunidade escolar e aproveitadas em seu potencial como recursos ao processo de ensino-aprendizagem. Todavia, a presença e usos dessas tecnologias no ambiente da escola devem também ser acompanhados por processos e práticas sócio educacionais que aproveitem suas funções e evitem suas disfunções, que incidem sobre a redução da criticidade, da produção original de textos, da inovação. Necessariamente, quando se propõe praticar e processar o ato educativo, fundamentado em princípios e aportes pedagógicos, é preciso reconhecer e reafirmar a sua recorrência a valores. Desse modo, o ato educativo e, portanto, pedagógico, de ensinar e aprender, assim como ensinar a aprender, é essencialmente axiológico. Essas considerações também fundamentam a compreensão das tecnologias nos processos e práticas educacionais como recursos cuja aplicação é vinculada e recorrente à formação de valores. Portanto, a inserção de recursos tecnológicos no campo da educação assume o seu propósito formativo e os valores que o orientam. Assim, mais do que conceber as tecnologias na educação, é preciso concebê-las como tecnologias da educação, ou seja, como sendo elementos e instrumentos a serviço da educação. Nesse sentido, as tecnologias agregam, incorporam os valores da educação: (relacionar a valores) aqueles que a movem, que lhe dão sentido, que constituem sua substância, que a definem (RANGEL; FREIRE, 2012). Com os valores educacionais, as tecnologias da educação assumem também os seus fundamentos pedagógicos. A pedagogia e seu propósito de formação humana incorporam, entre outros, fundamentos filosóficos, sociológicos, culturais, epistemológicos e históricos (RANGEL; FREIRE, 2009). Desse modo, na perspectiva dos fundamentos filosóficos, considera-se as tecnologias como recursos ao exercício do pensamento, o que implica em que sua leitura seja uma leitura reflexiva, crítica e contextualizada. Conclui-se, então, realçando a importância da reflexão, dos fundamentos teóricos das práticas e do estudo crítico dos usos e potenciais tecnológicos, no interesse do diálogo e da avaliação de princípios e critérios necessários à formação educativa de leitores, capazes de usar as tecnologias como meios, e não modas, e como recursos, e não fins da comunicação social.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 47