Reflexões sobre a leitura

Bem mais do que estimular o papel instrumental da leitura, o grande desafio é fazer com que ler ajude a dar significados diversos. Confira!

Texto Aline Fernanda Camargo Sampaio | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Não é de hoje que vivemos um afunilamento das percepções no que diz respeito ao papel da educação e, dentro dela, acerca do papel ocupado pela leitura. No entanto, bem mais do que estimular esse papel instrumental da leitura, o grande desafio sempre presente é fazer com que ler ajude a dar significados diversos para aqueles que vão se apropriando das letras. Significados de aprendizagem, sem dúvida. Mas também significados de identidade pessoal e coletiva, de humanização por meio da experiência, de maravilhamento poético, de percepção ética, enfim, de aproximação do legado da cultura por meio de seus mais diversos matizes. A cultura ocidental, por razões históricas, deu à palavra um peso fundamental. E, à medida que as relações sociais ganharam complexidade, as palavras passaram a ser utilizadas numa dimensão não apenas oral, mas também escrita, através do conhecimento acumulado pela experiência do homem. Apreender a palavra, dominá-la, encontrar a procedência e justeza de seu uso tornou-se um crescente desafio para podermos compartilhar dos saberes e das informações que nos circundam, especialmente nesses tempos em que os verbos ler e escrever passaram a ser utilizados como quase sinônimos de acesso ao mercado de trabalho e à formação da cidadania. Nesse sentido, podemos ampliar, também, o conceito de texto.  A palavra texto deriva, etimologicamente, do vocábulo latino textum (do verbo texere), que, dentre outras valências, significa: tecido, urdidura, entrelaçamento. Desta raiz comum derivam palavras semanticamente aparentadas, tais como: texto, textura, tecer, tecido, tessitura. Com efeito, também o texto é um entrelaçamento de palavras e de frases, é um tecido. Melo e Castro, poeta e crítico português contemporâneo, compara o trabalho do profissional que tece ao profissional que escreve. Ele diz: “Tanto se pode dizer que tecer é escrever, como escrever é tecer”.

 

 

Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: um tecido ou uma tessitura; apenas variam os materiais: de um lado, os fios do tecido; do outro, os fios das palavras. Em O prazer do texto (1996), o crítico francês Roland Barthes tece comentários acerca do prazer e da fruição provocados pelo texto e vivenciados pelo leitor durante o ato da leitura. Segundo Barthes, um texto lido com prazer significa que foi escrito com prazer. Mas o prazer de escrever não assegura o prazer do leitor no ato de ler, pois a recepção do texto dependerá de cada um. Nessa obra, o crítico francês avalia a escritura de alguns autores de renome como Flaubert, Zola, Proust, Balzac, dentre outros, e ressalva que cada leitura demanda um ritmo. Em certos casos, se a leitura encontra-se muito lenta, o leitor salta algumas partes e vai em busca do que lhe interessa. Do mesmo modo, o leitor pode correr, parar, saltar, enfim, agir como quiser no processo da leitura, pois sua atitude diz respeito somente ao texto e a ele mesmo. Caracterizada como um ato solitário, a leitura flui e o prazer dos relatos é marcado pelo ritmo “do que se lê e do que não se lê” (BARTHES, 1996, p.18). Assim sendo, Barthes leva-nos a perguntar: o que determinado texto é para cada leitor? Por que ele causa prazer? Por que desperta interesse? Qual é a razão de seu estranhamento? Torna-se pertinente realizar esses questionamentos porque o texto literário tem um caráter plurissignificativo, o que possibilita várias leituras. Se lemos um texto partindo do princípio do prazer, não podemos julgá-lo como sendo bom ou ruim, mas considerá-lo a partir do que ele significa para nós enquanto leitores de uma determinada época. Barthes também parte da concepção de que o texto é um “tecido”, e que o leitor se perde nesse tecido como “uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia” (BARTHES, 1996, p. 83). O tecido pode significar os vários sentidos ocultos produzidos pelo texto, no entanto, o crítico utiliza essa metáfora para expressar que o texto se produz em um entrelaçamento contínuo.

 
O leitor mergulha nessa rede e constrói novas ideias a partir do diálogo permanente com o texto. Nessa perspectiva dialógica instaurada pela relação texto-leitor, pode-se estabelecer uma analogia com o poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, em que o eu-lírico nega-se à individualidade (“Um galo sozinho não tece uma manhã”) e afirma a coletividade (“ele precisará sempre de outros galos”). Assim, um homem não compõe sozinho um produto cultural; necessita estar entre e com os outros homens; precisa ouvir uma voz aqui, outra lá, apanhar um grito aqui, outro lá, lançar o grito anterior para outro homem. Do conjunto de vozes emerge a obra cultural de uma época, que não é uma obra solitária (um fio), mas uma obra solidária (um conjunto de fios). Reconhecer a linguagem como uma atividade humana significa dar a ela a devida dimensão na nossa relação com o mundo. A palavra está na base de nossos questionamentos e indagações sobre o modo como o mundo se organiza e sobre como nos relacionamos com ele e com as pessoas com as quais convivemos. Como falantes, participamos de um diálogo permanente, no qual somos ao mesmo tempo atores e espectadores da performance dos nossos interlocutores. Dessa forma, um quadro pode ser um texto, pois tem um significado articulado por meio da linguagem da pintura (linguagem pictórica). Um filme, além do texto verbal dos diálogos, apresenta um texto visual, constituído pelas imagens que se sucedem na tela. O mesmo acontece com a televisão. Quantas vezes lemos, isto é, damos um significado às imagens que vemos na “telinha”, mesmo que não estejamos ouvindo som? Essa tarefa de leitura, de atribuição de significados, depende da vivência de cada leitor, porque é essa vivência que faz cada um de nós observarmos o mundo de uma forma diferente da dos outros. Toda leitura depende de nossas experiências, idade, gênero, país, época em que vivemos, classe social a que pertencemos, enfim, de nossa história de vida. Aprender a ler o mundo significa conhecer valores e ideias. Significa, também, pensar sobre eles, desenvolvendo uma posição crítica e própria.Com isso, ler o mundo, decifrá-lo e reconstruí-lo, é ideal para o desenvolvimento não só de textos, mas também da vida. O ser humano deveria ter um olhar atento para o que o rodeia, de forma a comparar, relacionar e inferir sobre suas leituras, filmes, papos entre amigos, revistas de qualidade e trazer tudo isso para seu universo pessoal.

 

 

***Adaptado do artigo “Tecendo os fios das palavras: Reflexões sobre a leitura”

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 56