Propostas da psicopedagogia institucional

Uma entrevista sobre a relação entre professores e o processo de ensino-aprendizagem

Texto: Redação | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

A psicopedagogia é o campo do saber que se constrói a partir da pedagogia e da psicologia, vindo a receber nessa construção influências da psicanálise, da linguística, da semiótica, da neuropsicologia, da psicofisiologia, da filosofia humanista-existencial e da medicina. Intimamente ligada à psicologia educacional, existem dois tipos de psicopedagogia: a Institucional e
a Clínica. A linha da psicopedagogia institucional promove uma relação entre os professores e o processo de ensino-aprendizagem, a fim de melhorar a instituição escolar e os problemas de aprendizagem nessa instituição.

Bianca Acampora, que é doutora em Ciências da Educação, mestra em Cognição e Linguagem e psicopedagoga, nesta entrevista fala da sua experiência com psicopedagogia institucional, sua especialidade.

No livro Psicopedagogia Institucional – Guia Teórico e Prático, de sua autoria com Beatriz Acampora, é colocado que a psicopedagogia tem como proposta uma aprendizagem ativa, em que o sujeito é o construtor de si mesmo. Quais são os recursos disponíveis para este fim?

Na aprendizagem ativa, em oposição à aprendizagem passiva, bancária, baseada na transmissão de informação, o aluno assume uma postura mais ativa, na qual ele resolve problemas, desenvolve projetos e, com isto, cria oportunidades para a construção de conhecimento. Diversas estratégias têm sido utilizadas para promover a aprendizagem ativa, tais como: a aprendizagem baseada na pesquisa, mapa conceitual, o uso de jogos, resolução de problemas, criação de produtos, sala de aula invertida. Uma outra estratégia é prover material de apoio de modo que o aluno possa estudar o conteúdo antes de frequentar a sala de aula. Com base no material estudado, o aluno responde a um conjunto de questões. Também é muito importante o uso de tecnologias educacionais.

Quais são os pontos principais para o desenvolvimento da Linguagem?

A comunicação se estabelece de várias formas, como por meio de gestos, cores, símbolos e sinais. Portanto, não ocorre apenas por palavras faladas ou escritas. Há uma convenção entre as partes para que ela ocorra. Para que a comunicação aconteça é necessário o emissor, a mensagem e o receptor. Esse sistema de comunicação permite a troca de informação pelo grupo e a concretização da linguagem. O sistema de signos que traduz o pensamento verbal e da linguagem foi considerável no desenvolvimento da espécie humana. Saussure tinha uma visão estruturalista e definiu a língua como um sistema de valores que se opõem uns aos outros, numa relação de dependência mútua, isto é, num sistema em que os termos se definem por uma relação de dependência recíproca. Para ele, a língua é um sistema homogêneo, um conjunto de signos exterior aos indivíduos que deve ser estudado separado da fala. Para Saussure a linguagem é dividida em duas partes: a língua e a fala, considerando a língua um objeto fundamentalmente social.

Por outro lado, Chomsky em sua teoria gerativista afirma que os seres humanos apresentam uma predisposição genética que permite a aquisição da linguagem. Segundo ele, a língua é um sistema de princípios radicados na mente humana. Ele relaciona a aquisição da língua a termos conhecidos como: competência e desempenho.

Já Lacan constrói sua tese de que o inconsciente se estrutura como linguagem. Também o lapsus, os atos falhos, os sonhos e os sintomas, em suma, todas as formações do inconsciente surgem como resultado das substituições metafóricas ou metonímicas de um ou mais significantes por outros, vinculados aos originais por diferentes tipos de relações.

Lenneberg defende que quando a criança aprende novas palavras, a pronúncia destas que já fazem parte do seu vocabulário se aperfeiçoa, e algumas dessas palavras são acompanhadas com gestos. Por exemplo, quando a criança quer água pode falar uma palavra com o som parecido, apontando para um copo com água. Lenneberg traz à “explosão de nomeação”, para reforçar a posição psicolinguística. A “explosão de nomeação” acontece aproximadamente entre o 24° e o 30° mês da criança, quando o número de palavras conhecidas por ela dá um salto. Até um ano e meio a criança tem um vocabulário de 3 a 50 palavras, e ao completar 3 anos seu repertório passa de mil palavras, sem contar com outras 3 mil, que apesar de não pronunciar, ela compreende. Para Lenneberg este fato torna evidente que a linguagem se desenvolve por meio da maturação, de acordo com “cronogramas biológicos”.

Compreender a comunicação humana é saber que a aquisição da linguagem tem vários níveis. Nos primeiros anos de vida a criança apresenta a fase pré-verbal no desenvolvimento do pensamento e uma fase pré-intelectual no desenvolvimento da linguagem.

Há estudos que comprovam que a boa relação professor-aluno é um fator determinante para o desenvolvimento do educando. O uso da tecnologia, para o ensino na sala de aula, interfere no êxito deste processo? Por quê?

A relação professor–aluno é de suma importância para o aprendizado, pois o vínculo afetivo e o respeito mútuo favorecem a motivação para a aprendizagem. O uso da tecnologia só interferirá no êxito deste processo se o professor não souber trabalhá-la. É necessário que o uso de ferramentas digitais sejam em prol de ampliar o conhecimento e fazer conexões com os diferentes tipos de conhecimentos. Para tal, o professor precisa problematizar, estabelecer relações e propor atividades desafiadoras que estimulem a reflexão crítica de seus alunos.

Alguns professores assumem as funções dos pais, na tentativa de resolver os problemas emocionais e psicológicos dos seus alunos. É correto ou errado? Por quê?

Não é correto. Cada um tem seu papel na vida do indivíduo. A família precisa educar, estabelecer regras e limites, amar e cuidar. O professor pode agir com carinho, amor, estabelecer as regras no ambiente escolar, estimular a aprendizagem, mas não agir como pai e mãe. Infelizmente, devido ao abandono que as crianças vêm sofrendo por parte da família, muitos professores se veem exercendo tais papéis, mas não é o aconselhável. Isto pode gerar uma transferência emocional e prejudicar o aluno, visto que o professor não poderá acompanhá-lo nos outros anos de escolaridade.

O que são Jogo Simbólico, de Construção, de Regras e Cooperativo, utilizados pelo psicopedagogo?

Jogo Simbólico — também chamado de faz-de-conta, caracteriza-se por recriar a realidade usando sistemas simbólicos, ele estimula a imaginação e a fantasia da criança, favorecendo a interpretação e ressignificação do mundo real. É fundamental para o desenvolvimento, favorecendo a interação com o outro, possibilitando a expressão das emoções e percepções vivenciadas na relação que a criança, estabelece com o mundo real. Estimula o desenvolvimento psicomotor, cognitivo, emocional, social e cultural das crianças.

Jogo de Construção — acontece quando as crianças usam, transformam objetos e materiais variados (blocos ou sucatas, por exemplo) e criam novos produtos (parque de diversões, fazenda, engenhocas…). Nestes jogos, as crianças começam a entrar em contato com o mundo social e a desenvolver níveis mais complexos de inteligência por meio do desenvolvimento de suas capacidades de antecipar situações, movimentos e elaborar propostas e possibilidades que podem ou não se concretizar. Estes jogos também possibilitam maiores oportunidades de cooperação entre as crianças.

Jogo de Regras — são jogos estruturados que possuem regras definidas. Exemplos: dominó, dama, pega-varetas, jogo da memória etc. Segundo Piaget, tais jogos são adequados a partir dos 6-7 anos de idade, quando a criança já começa a entender as regras. A regra surge para a criança como uma forma de afirmação do seu eu, a submissão dela à regra social é um dos meios que o eu utiliza para se realizar, sendo assim, a regra se mostra como instrumento da personalidade, é a ordem colocada em nossos atos.

Jogo Cooperativo — é realizado em grupo e enfatiza a participação, a cooperação, trabalho em equipe, o cumprimento da meta, o desafio e a diversão. Tem como objetivo incentivar de forma eficaz a ajuda entre duas ou mais pessoas. Não há competição e, sim, colaboração, por isso não há perdedor ou ganhador. A ênfase está em cumprir a tarefa e para tal, todos se ajudam. O resultado do jogo está na participação da atividade coletivamente, favorece o respeito, a colaboração, a comunicação. Os jogos cooperativos também têm como objetivo fazer com que uma pessoa se coloque no lugar de outra, aprenda a compartilhar e cooperar com o próximo; estimular o afeto, a compaixão e facilitar a aproximação e a aceitação entre os membros da equipe para alcançar um objetivo no final.

De que forma o trabalho psicopedagógico pode, com a leitura, atuar no desenvolvimento da personalidade moral do aluno?

A leitura de livros pode auxiliar muito neste processo, pois através das histórias pode-se refletir sobre os comportamentos positivos ou negativos, o que é ético, o que não é. As histórias e contos utilizados pelo psicopedagogo e o trabalho de reflexão crítica levam a criança a construir sua autonomia moral, ou seja, agir de forma assertiva quando está sozinha, independente se tem alguém vigiando ou não. Muitas crianças e adolescentes só têm comportamentos assertivos quando estão na presença de adultos. Quando estão sozinhas, agem de forma inadequada. O objetivo é que a criança compreenda que independente de ter um adulto ou não perto dela, ela precisa agir de forma correta.

Como a intervenção psicopedagógica auxilia no raciocínio lógico matemático?

A intervenção psicopedagógica, neste caso, visa amenizar os sintomas das dificuldades relacionadas ao raciocínio lógico, corrigindo os fatores que contribuem para tal dificuldade e resgatando a autoestima do indivíduo para que este tenha uma melhor qualidade de vida e autonomia para elaborar estratégias que viabilizem seu sucesso em tarefas que, outrora, lhe eram praticamente impossíveis de realizar.

A compreensão da matemática envolve a construção de estruturas básicas de interação, classificação, correspondências, grupos etc., ou seja, o saber matemática vai além de ensinar cálculos. A intervenção psicopedagógica pode se dar por meio do lúdico, com jogos e brincadeira que envolvam o raciocínio lógico e a resolução de problemas. Jogos como o Tangram, Sudoku, Ábaco Aberto, Material Dourado, Palitos, entre outros são sugestões de atividades promotoras de situações-problemas que podem ser utilizadas no tratamento psicopedagógico com sujeitos que apresentem problemas de raciocínio lógico.