A profissão de professor no Brasil

Texto Melissa Lucchi | Foto Shutterstock

Recomeço de aulas para quem é professor por escolha é revigorante, principalmente quando se lida com alunos ingressantes. Você nota os olhares curiosos, ávidos por novidades e a sensação de vitória de adolescentes, jovens e adultos que começam a fazer parte do contingente de 5,95 milhões de pessoas que compõem o ensino superior no Brasil (MEC, 2009), a maioria – 4,88 milhões – matriculada em cursos de graduação particulares e presenciais no país.

A arte de ser professor merece, no dicionário, espaço para um verbo específico, a que chamo “professorar”. Professorar é elaborar material didático adequado ao perfil, à rotina e às necessidades dos discentes. Em Instituições de Ensino Superior (IES) particulares, principalmente no ensino noturno, é compreender que a maioria dos estudantes trabalha durante o dia, às vezes por turnos e/ou aos sábados; por vezes reside em outra cidade ou está alistado no Exército. Se é mulher, há que se compreender a necessidade de jornadas múltiplas: estudo; casa; marido; filhos; cachorro; curso de inglês, além de pequenos bicos, como vender doces ou sanduíche no intervalo das aulas ou fazer sobrancelha para ajudar a pagar a faculdade.

Professorar é ser também um pouco psicólogo, mãe, pai, amigo; é ter ouvidos atentos e empáticos para auscultar histórias de desabafo e de superação: alunos que saíram da depressão e hoje conseguem olhar o seu ‘eu’ verdadeiro no espelho; que persistem pagando os estudos, mesmo com mensalidades atrasadas, pois sustentam pais doentes; jovens que suportam pressões e dores imensas, como ter um irmão drogado que já tentou o suicídio várias vezes; outros que se dizem tímidos, se consideram incapazes ou se sentem diminuídos, discriminados, por colegas ou pela
sociedade.

Professorar é treinar não somente as competências técnicas, mas educar as comportamentais, mais sutis, subjetivas e intangíveis, como comunicação; relações interpessoais; criatividade; flexibilidade; trabalho em equipe; trabalho sob pressão e aceitação de desafios, essenciais para sobreviver, ascender e se diferenciar num mercado de trabalho tecnológica, econômica e
culturalmente mutante. Consiste em cativar e cultivar valores pessoais corretos, bons, respeitosos em relação a si e aos outros e compartilhá-los por meio de um olhar acolhedor, humilde, da escuta atenta e de palavras de incentivo em relação às esperanças de novas conquistas, como comprar o primeiro computador pessoal; ter acesso a Internet e ser a primeira pessoa da família a ter
um curso superior.

A Educação no Brasil, ao contrário do que muitos pensam, não é um caso perdido. Ela é feita de 307 mil professores (MEC, 2009) que acreditam que fazer sua parte e poder colaborar com o desenvolvimento alheio faz, sim, muita diferença. Comparo o professor a milhares de comunidades colaborativas, grupos de discussão ou indivíduos que criam sites, blogs ou videologs temáticos: eles têm algo – importante – a dizer. O que os motiva primeiramente não é a recompensa financeira, mas promover a auto-aprendizagem e disseminar a produção coletiva do conhecimento em áreas de que gostam e cujo conhecimento dominam. Essa é uma prática social que professores também desejam aprofundar, seja em sala de aula ou por meio da Educação a Distância: a partilha do repertório de saberes que cada um encerra em prol do aprimoramento dos indivíduos e da sociedade.

*Melissa Lucchi é professora na Faculdade Bilac (Grupo Cetec Educacional) e doutoranda em Administração pela Universidade Nove de Julho (Uninove)

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 42