Plural, plurais….e outros obstáculos!

O plural é uma categoria gramatical das palavras variáveis, tanto quanto o gênero e o número, para ficarmos somente com os nomes simples e seus determinantes, deixando de lado os verbos, que apresentam ainda outras desinências

Por Leo Ricino*


A desinência típica do plural no caso dos nomes é o S. E aqui já começamos a enfrentar os primeiros problemas, pois há muitas e muitas palavras terminadas em S, mas que estão no singular: lápis, cútis, pires, ourives etc. Essas palavras, todas do singular, podem passar a impressão de um falso plural. Mas o povo não se tem deixado enganar por elas!

O leitor mais atento perceberá que na própria concordância verbal, quando o sujeito é representado por nomes de obras, cidades, países e acidentes geográficos em geral, não é o “S” que determina a concordância do verbo com o sujeito e sim os determinantes.

Ou seja, o verbo não reconhece o S como marco de plural. Assim, em “Os Andes se estendem por grande parte da América do Sul”, o verbo vai para o plural porque o seu sujeito, “Andes”, está determinado pelo artigo “Os” e não porque na citada palavra aparece um S. Tanto que em “Campinas fica a apenas uma hora da capital” o verbo permanece no singular, embora a palavra “Campinas”, seu sujeito, esteja no plural. No entanto, para o verbo aceitá-la como plural essa palavra precisaria ser modificada por um determinante que consolidasse esse plural. Como não há, a concordância se realiza no singular.

Portanto, como se viu, nem toda palavra terminada em S está no plural. Vamos, neste artigo, tratar de alguns plurais diferentes, alguns até exóticos. Só trataremos dos nomes simples.

PLURAL DE NOMES PRÓPRIOS
Reza a norma que os nomes próprios obedecem às mesmas regras dos nomes comuns. Isso quer dizer que apresentam plural com todos os esses: os Andradas, os Maias, os Barbosas etc.

Mas há quem prefira mantê-los no singular, como fez o dr. Hélio Pelegrino na crônica “Os Barões das Biroscas”, de 1982, ao referir-se a traficantes e viciados dos morros cariocas: “os Zaca”, “os Cabeludo”. (In “A Burrice do Demônio”, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1982)

PLURAL DE SIGLAS E ABREVIATURAS
Sigla, basicamente, é a formação de uma palavra aproveitando-se as iniciais ou algumas letras de um nome. Assim, de Banco Brasileiro de Desconto S.A. formou-se a sigla Bradesco; de Instituto Nacional de Seguro Social formou-se INSS. Abreviatura é a redução de uma palavra a uma ou algumas de suas letras, como Ilmo. (ilustríssimo), Sr. (senhor) etc. Há também as abreviações, que são reduções de palavras a sua parte inicial, como foto de fotografia, pneu de pneumático, xerox de xerocópia etc.

Em relação ao plural de siglas, abreviaturas e reduções, o VOLP, sigla de Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, na 5.ª edição, adaptada ao recente Acordo Ortográfico, registro oficial do léxico de nossa língua, omitiu-se quanto ao estabelecimento de regras, mas usa abreviaturas nas exposições e esclarecimentos (p. XCVII e XCVIII) e reduções e siglas (p. 865).

Ao omitir-se, o VOLP passa-nos a ideia de que não há necessidade da criação de uma norma geral. Contudo, para abreviaturas, siglas e reduções (na página 865 há uma nota explicativa sobre as “Reduções mais correntes”, nome genérico das três modalidades), o VOLP expõe 12 páginas sobre as mais variadas reduções e abreviaturas, várias delas com seus plurais. Vejamos alguns desses plurais: Dr.as (doutoras), Drs. (doutores), Sr.as (senhoras), S.res (senhores, e essa deve ser especial, porque, na minha edição, aparece três vezes, em sequência, na p. 875!), págs ou págg (páginas) etc.

Como se vê, há certa indefinição e ausência de padrão. O melhor é seguir a orientação de Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas, no longo e elucidativo verbete sobre abreviaturas: “O que a abreviatura, contração ou sigla deve objetivar é a clareza; alcançada esta, não cabem objeções.”

Se nos ativermos ao racional, seria impossível pluralizar com naturalidade uma sigla do tipo sigloide (veja destaque no parágrafo abaixo), visto que para tanto o “s” deveria ser colocado após cada letra representativa. Assim, racionalmente, se quiséssemos pluralizar CPI, deveríamos fazer da seguinte maneira: CsPsI, ou seja, Comissões Parlamentares de Inquérito. E, ao proceder assim, também estaríamos praticando a teratia (de gr. téras, atos ‘monstro’ + ia), tal o monstrinho dado à luz!

Ora, as siglas ganharam estatuto de palavras normais tal sua capacidade de identificar um ser, como se fossem um mero substantivo. Assim, Petrobras, Bradesco (a esse tipo de sigla que forma uma palavra, o VOLP diz que especialistas estão chamando de siglema), INSS, PMDB (a essas, que não formam palavras, se está dando o nome de sigloide) e tantas outras identificam prontamente as instituições a que se referem. Por outro lado, algumas siglas (siglema ou sigloide) conseguem ser até o radical primitivo que forma palavras novas na língua: de PSDB tira-se peessedebista, peessedebismo, palavras derivadas.

Ao ganhar esse estatuto de palavra, inclusive de radical primitivo, não há como negar-lhes as flexões normais. Isso quer dizer que a CPI pode pluralizar-se normalmente em CPIs, uma OnG em OnGs. Deve-se, no entanto, colocar esse “s” minúsculo após a sigla e pronto. Nada de apóstrofo enfeitando a sigla e imitando, subservientemente, a moda inglesa de indicar posse: “Peter’s house” está perfeito no inglês, mas CPI’s não fica nada bem, nem tem a menor lógica em português. OnG’s também não existe. Assim são formas erradas mesmo!

Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas, no verbete próprio, chama a atenção para siglas que se consagraram de determinada forma e assim devem ser mantidas. É o caso de E.U.A. (Estados Unidos da América), como também de AA (autores) e as antigas SS.AA. (Suas Altezas) e SS.AA.II (Suas Altezas Imperiais).

UM ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO
A propósito da referência ao apóstrofo, fique claro que em português usamos os sinais diacríticos ou notações léxicas (acentos, til, apóstrofo, cedilha e hífen, que dão algum destaque e fazem “notar” algo numa dada palavra) como importantes auxiliares da escrita para indicação da correta pronúncia ou formação. Assim, colocamos o til no substantivo Butantã, porque em português não há palavra terminada em AN. Como então poderíamos indicar a nosso leitor que essa e outras palavras terminam com a vogal nasal AN? A única possibilidade é usar o sinal diacrítico ~ (que é um N deslocado para cima da vogal), sinal diacrítico nasalador.

As palavras terminadas em U e I, acompanhadas ou não do S, em geral têm, por natureza, nessas vogais sua tonicidade. Assim, bambu, tatu, saci, chassi ou chassis. Como indicar a nosso leitor que a palavra “taxi” não é “taxí”, pela natureza, mas sim “táxi”? Que “lápis” não é “lapís”? Só usando um recurso auxiliar da escrita, um sinal diacrítico chamado acento agudo, como fizemos.

O que se quer dizer é que essas notações léxicas, importantíssimas auxiliares da escrita, só podem ser usadas quando necessárias. É por isso que, por exemplo, o acento circunflexo, no recente Acordo Ortográfico, foi suprimido do hiato EE dos verbos dar, crer, ler e ver e do hiato OO. Com ou sem o circunflexo, a pronúncia é a mesma: dêem se fala deem; vôo se fala voo. Suprimiu-se também o acento agudo de palavras como feiura (feiúra) e baiuca (baiúca) porque, sem ou com ele, a pronúncia é absolutamente a mesma. Ou seja, esses acentos só enfeitavam e palavras não precisam de enfeites. O apóstrofo tem uma finalidade básica: indicar a supressão de vogais, como em “mãe-d’água”, e não deve ser usado, “macaqueadamente”, para enfeitar palavras.

PLURAL DE SÍMBOLOS, PESOS E MEDIDAS INTERNACIONAIS
Em cada época, alguma língua se destaca universalmente, pelo poderio econômico de alguma nação. Já foi o francês, agora é o inglês. E, a partir da universalização dessa língua, mas partindo-se basicamente de radicais gregos, são criados alguns símbolos que norteiam informações aceitas como tais. Assim, km (kilo (quilo) = mil; metro = unidade de medida) é mundialmente a forma gráfica de se expressar quilômetro; kg (grama = unidade de peso) representa quilograma, no Brasil palavra reduzida a quilo; m, metro; h, hora (período de tempo) etc.

A essas siglas e símbolos internacionais de pesos e medidas não se pode pospor-lhes nem ponto nem o “s” indicativo de plural. Assim 1 km ou 10 km. Mestre Cegalla, no seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, no verbete próprio, ensina que “Deve-se escrever: às 18h (e não às 18:00h), às 10h (e não às 10:00h), às 9h30 (ou às 9h30m). No plural grafa-se h (sem s nem ponto): às 5h, às 20h etc.” Alguns sugerem que se escreva, por exemplo, 10h35min, mas aí já seria exagero, uma vez que, mesmo o “m” sendo símbolo internacional de metro, podemos usá-lo, contextualizadamente, representando minuto, como nos exemplos acima. O que vale aqui é o bom-senso. Napoleão Mendes de Almeida sugere mesmo que se use a forma inglesa de indicar horas separando essas dos minutos e os segundos desses pelos dois pontos: 11:32:15. Objetividade e aproveitamento do que é útil não fazem mal a ninguém. O péssimo e subserviente é usar o que não se precisa!

Também, os demais símbolos internacionais, químicos, geográficos ou marcas de empresas e instituições nunca devem ser pluralizados. K (potássio), KLM (empresa de aviação), W (oeste) etc.

PLURAIS ESQUISITOS DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS
“Os gols brasileiros são os mais belos do futebol mundial”, “Os golos portugueses nada devem aos gols brasileiros”. A norma diz que os nomes estrangeiros devem conformar-se com as regras de nossa língua. Porém, como vimos no exemplo brasileiro acima, isso nem sempre acontece. O “goal” inglês gerou um esquisito singular e um exótico plural no Brasil e ambos, para nosso ouvido, mais estranhos ainda em Portugal, embora talvez com mais lógica do que os nossos: lá eles adaptaram a palavra inglesa para “golo” e aqui ficamos com a forma “gol”, cujo plural deveria ser, portanto, “gois”.

Na língua, há pouquíssimas palavras com final ol, mas, com exceção de gol, todas com timbre aberto: sol, mol (massa molecular), hol (aportuguesamento de hall, registrado no VOLP), rol (relação, catálogo, enumeração), dol (tambor grande, zabumba), palavras cujo plural é “óis” – mol também pode fazer moles. Melhor ficar com “gols” mesmo, forma já consagrada.

Se não se quer adaptar a palavra à nossa língua e ela for usada num texto, a norma diz que o plural dessa palavra estrangeira deve seguir as regras da língua dela. Assim, se, por algum motivo, tivermos de usar a palavra “lady”, ao pluralizá-la diremos “ladies”, como é no inglês.

Um esquisitíssimo plural muito usado no Brasil é o da palavra “campus”, latina, mas que nos veio pelo inglês. Aqui adotamos o plural “campi” para qualquer situação, mas esse plural, como se trata de vocábulo estrangeiro, latino, só é correto se a palavra contrair a função de sujeito. Assim, diríamos bem dito “Os campi da USP estão espalhados por várias cidades”, porque a expressão “campi” é o núcleo do sujeito dessa oração. Mas estaríamos errando se disséssemos “Visitaremos vários campi da USP na próxima semana”, porque nessa frase a palavra “campi” é o núcleo do objeto direto, e no latim, com essa função, o plural é outro: “campos”.

Portanto, foge à regra, mas sua correção parece ser uma luta vã: primeiro porque o VOLP não adotou essa palavra e a coloca apenas entre as estrangeiras; segundo porque os quatro dicionários que consultei (Aulete, Aurélio, Houaiss e o Escolar da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras) dizem que o plural é “campi”. Assim, ao que tudo indica, perpetuaremos um erro que seria facilmente corrigível, como fizemos com tantas palavras parecidas. Principalmente por ser latina, que é nossa língua (português é latim transformado, tanto quanto italiano, francês, castelhano…), bastaria aportuguesá-la e dar-lhe o acento, câmpus, como procedemos com outras palavras latinas terminadas em US e já incorporadas ao nosso idioma: ônibus (latina que veio pelo francês, significa “para todos”), ônus (peso, encargo, daí onerar), húmus (chão, solo, daí exumar) etc. Aí, como ocorre com essas, o plural natural seria indicado pelos determinantes e a palavra manteria a mesma forma do singular: “os câmpus”, “três câmpus”.

PLURAIS EXÓTICOS NAS CONCORDÂNCIAS VERBAL E NOMINAL
Nossa bela língua portuguesa não tem o pragmatismo da objetiva língua inglesa. Aqui nos deparamos com complexos casos de concordância, casos que enriquecem a língua e nada que um bom aprendizado escolar não tire a limpo com facilidade. Obstáculos existem para serem superados, e não abandonados à perpetuidade. Alguns casos de concordância verbal e nominal apresentam dificuldade. Vejamos:

a) MILHAR, MILHÃO e BILHÃO* :
“Aquelas duas milhares de casas serão derrubadas brevemente.” é uma frase absolutamente errada, pois se partiu do princípio de que o núcleo do seu sujeito é “casas” e que “milhares” é um numeral. O produtor dela fez a concordância com o substantivo “casas” (a expressão de casas é partitivo, isto é, distingue esse “milhares” de outros, e sintaticamente é um simples adjunto adnominal). Nada disso! O núcleo é “milhares”, que é substantivo coletivo, e com ele devem concordar em gênero e número os dois determinantes que o acompanham. Corrigindo: “Aqueles dois milhares”. Corrigida, a frase fica: “Aqueles dois milhares de casas… brevemente”. Um político famoso assim se expressou: “Creio dar uma solução para as milhares de moradias que precisam ser retiradas das encostas cariocas.”(Sérgio Cabral, governador do Rio, 11-4-10). Ele ainda não fez isso, e políticos erram também no uso da língua!

Como muitas pessoas ainda não perceberam que, em determinada situação, “milhão” é apenas substantivo coletivo, somos obrigados a ouvir e a lamentar frases como “Quase a metade das 16 milhões de armas no Brasil são ilegais” ou “A presidente eleita Dilma tem trezentas e sessenta milhões de razões para se preocupar”, ambas numa conceituada emissora de rádio de São Paulo, em dezembro de 2010, em que os locutores fizeram os determinantes concordarem com os partitivos (de armas e de razões) e não com o substantivo núcleo, “milhões” nos dois casos. É um solecismo que machuca o ouvido! E até os olhos!

“Um milhão de abandonados perambula pelas ruas das cidades do Leste europeu.” Nessa oração, como o núcleo do sujeito é o substantivo coletivo milhão, nada impede que se faça a concordância do verbo no singular, como fez o produtor da frase. Porém, pela ideia de plural que há na expressão toda, por concordância irregular e/ou ideológica, pode-se fazer a concordância no plural também: “Um milhão de abandonados perambulam pelas ruas das cidades do Leste europeu”.

O que falamos sobre milhão vale para bilhão, trilhão… sempre que eles pedirem um partitivo, o qual virá ligado a eles pela preposição DE.

b) SÓ e BASTANTE:
“Atualmente, há bastante alunos nas salas de aula das escolas públicas”. Outro problema de concordância é com a palavra “bastante”. Quando ela se refere a substantivo, como no exemplo dado, é pronome indefinido, adjetivo, e como tal deve variar em número. Corrigida, essa frase fica assim: “Atualmente, há bastantes alunos nas salas de aula das escolas públicas”.

“Eles não gostam de ficar só”. Outro erro. A palavra só, quando equivale a SOZINHO, varia em número e deve concordar com a pessoa a que se refere. Portanto, corrigida, essa oração fica “Eles
não gostam de ficar sós”. Nesse caso, é possível que se opte pela expressão fixa A SÓS: “Eles não gostam de ficar a sós”, tão correta quanto “Ele não gosta de ficar a sós”.

c) MEIO e TODO – PLURAL E FEMININO POR ATRAÇÃO:
Difícil é ver a palavra MEIO no plural quando as pessoas “erram” seu emprego, dando-lhe um feminino que não teria cabimento pela lógica fria da concordância, mas… Em frases como “Ela estava meia nervosa naquele momento” ou “A garota ficou meia desesperada com sua perda”, a grita dos puristas é geral. E dizem até, em tom de galhofa, que em “A garota ficou meia desesperada”, sua mente fica metade normal, metade angustiada.

O melhor ensinamento aqui é o tradicional: MEIO, quando equivale a mais ou menos e se refere a adjetivos, como nos dois exemplos (nervosa e desesperada), é advérbio e como tal não varia nem em gênero nem em número. Isso fica facilmente constatável se pluralizarmos os sujeitos. Aí verificaremos que hodiernamente nos soa estranho pluralizar a palavra MEIO nessas frases: “Elas estavam meias nervosas naquele momento” e “As garotas ficaram meias desesperadas com isso!

No entanto, e só à guisa de comentário, ninguém acha estranha uma frase como “A roupa da garota ficou toda amarrotada”. Ora, nessa frase, a palavra TODA também é advérbio (intensifica “amarrotada”) e não deveria variar em gênero ou número. E pior ainda é que a forma rigorosamente “correta”, ou seja, com a palavra TODA invariável, por ser advérbio, causa estranhamento a todos: “A roupa da garota ficou TODO amarrotada”.

Bem, nós, os usuários da língua, somos mortais e devemos nos ater ao feijão com arroz. Somos diferentes de um imortal como Machado de Assis, que usou bela e brilhantemente a seguinte frase: “Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste.”, p. 555, MPBC, Ed. José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro, 1962, Vol. I)

E, pasmem, senhores professores, há outros grandes imortais que fizeram concordância da palavra MEIO como advérbio até no plural, todos citados pelo Cônego F. M. Bueno de Sequeira no indispensável livro A Ação da Analogia no Português, da editora Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1954:

“Outros meios mortos se afogavam”. (Camões, Os Lusíadas, 3:113, p. 101)
“Cadáveres meios enterrados nas ruínas”. (Camilo, O judeu, 1.167, p. 101)
“Estes homens rudes combatiam meios nus”. (Herculano, Eurico, p. 94, p. 101)
“… um barrete entre dois punhais com umas letras em baixo meias apagadas”. (Heitor Pinto, Diálogos das causas, ap. Nov. Est., 264, p. 101)
O que ocorre aqui é a chamada concordância por atração. Os adjetivos (mortos, enterrados, nus e apagadas) atraíram os respectivos advérbios fazendo-os flexionar-se no plural. E não é preciso ficar buscando justificativas de que os cadáveres poderiam estar enterrados pela metade, que os homens combatiam vestidos da cintura para baixo ou para cima, que os outros estavam meio mortos e finalmente morreram ao se afogar ou que as letras estavam apagadas pela metade. Não é isso. É mera concordância por atração mesmo!

O mesmo Cônego cita atrações para o feminino com os advérbios TODO e MEIO:

“A santa mulher chega ao marido toda envergonhada…” (Castilho, Colóquios aldeões, 194, p. 100)
“… sabemos que não há fado mais que a Divina Providência, sempre livre e toda poderosa.” (Vieira, 9:193, p. 101)
“Velha decrépita e meia morta.” (Garrett, Viagens, 237, p. 101)

 

Repito bem repetido, no entanto: somos mortais e devemos nos ater ao feijão com arroz da norma-padrão e não colocar no feminino nem pluralizar a palavra MEIO quando ela é advérbio. Mas não precisamos torcer o nariz com seu uso no feminino! Já com a palavra TODO não há nenhum empecilho quanto ao feminino, pois no plural me parece que soa um pouco estranho também: “As roupas da garota ficaram todas amarrotadas”. Repare: não são todas as roupas da garota que ficaram amarrotadas, mas as roupas da garota (as que ela estava usando) é que ficaram todas (totalmente) amarrotadas. Soa bem?

PLURAL DE LETRAS E NÚMEROS
Como substantivos que são, os nomes das letras e dos números admitem plural normalmente. Porém, vejamos as possibilidades e as controvérsias.
As letras, que tanto podem ser representadas da forma que aparecem no alfabeto (a, b, c, d,…) como pela sugestão do som de sua leitura (esse, tê, zê, erre…), apresentam duas possibilidades de plural: dobrando-as: “O rapaz atirou tudo na cara do inimigo, com todos os ss e rr”, “Vamos finalmente colocar os pingos nos ii”, ou colocando-se o “s” após elas (quando escritas com a representação do seu som) como diante de um substantivo qualquer: “O rapaz atirou tudo na cara do inimigo, com todos os esses e erres.”

Sempre há controvérsias: há preferência da maioria dos autores por essa segunda forma, mas ambas são corretas.

Quanto aos números, cujos nomes também são substantivos, pluralizam-se normalmente. Assim, diremos corretamente: “As dificuldades dos oitentas não foram superadas até hoje” ou “Aqui há dois cincos, três noves e oito quinzes”.

É claro e notório que, se o número terminar em S ou Z, aí não há como pluralizar: “Havia ali oito seis, cinco dois e sete dez”.

PLURAL COM PORCENTAGENS
Aqui, o que temos é problema de concordância verbal. Com quem o verbo concorda quando no sujeito há porcentagem? Sigamos os ensinamentos de Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, no seu Questões Práticas da Língua Portuguesa 700 Respostas. Diz ele, a partir dos seguintes exemplos:

“Quarenta por cento da vitória se devem a Pelé.
Quarenta por cento da vitória se deve a Pelé.
Esses dez por cento da arrecadação foram aplicados em Educação.

 

Com número percentual a concordância pode ser com o número ou com a expressão que a ele se segue (o que normalmente se recomenda devido à eufonia). Quando, no entanto, o número percentual é determinado, a única concordância possível é com o próprio número.” (p. 95, Ed. Consultor, Rio de Janeiro, 1992)

Aqui há muita controvérsia e indefinições. Alguns acham que a concordância deve ocorrer com o partitivo, como em “Trinta por cento do júri popular votou contra.”, mas também se aceita a concordância com o numeral, aí ficaria “Trinta por cento do júri popular votaram contra”.

Quando vários autores divergem ou aceitam duas possibilidades, não temos com que nos preocupar. Pessoalmente, não vejo lógica no segundo exemplo de Arnaldo Niskier ou no exemplo do “júri” acima, pois não é a vitória toda que se deve a Pelé mas apenas 40% dela, e não foi todo o “júri popular” que votou contra, mas só 30% dele. Sugiro sempre aos usuários da língua que, em casos como esses, optem pela concordância com a porcentagem e não com o partitivo. Mas… há livre-arbítrio para decisões!

Não há divergência, no entanto, quando o numeral vem modificado por determinantes. Aí a concordância é obrigatória no plural: “Os 30% de aumento na passagem de ônibus em São Paulo constituem uma traição ao povo” ou ainda em “Esses 10% de analfabetos estão fadados à subvida”.

PLURAL POR COMPENSAÇÃO OU CUMULATIVO
À semelhança do que se faz com a chamada etimologia popular, segundo a qual se estabelece, sem critérios científicos, a origem de determinadas palavras, como ocorre com forró, cuja formação se alega vir da expressão inglesa for all, ou que enfezado vem de fezes, o povo também cria alguns plurais exóticos.

Esclareçamos que, de fato, forró é redução de forrobodó, baile popular, arrasta-pé, e enfezado tem etimologia desconhecida para vários etimologistas (Antenor Nascentes, José Pedro Machado, Antônio G. da Cunha), embora Houaiss diga que vem do “lat. infensátum > infensado ‘encarniçado contra, hostil’” part pas. do “lat. infenso, as, ávi, átum, áre ‘encarniçar-se contra, ser hostil a’, numa evolução semelhante à de defesa/devesa, citada em -fend-; admitir essa nova base etim. implica acolher enfesado como a grafia que se justifica, em lugar da grafia enfezado, historicamente equivocada; ver -fend-”.

Voltemos ao plural de compensação. Antigamente, ananás já era plural do singular ananá. Por erro, o povo começou a achar que o singular fosse ananás e deu-lhe o plural de compensação ananases. Silveira Bueno, na Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Saraiva, 7.ª ed., 1968, São Paulo, cita exemplos colhidos por alguns autores: peses – plural do plural pés; voceses – plural do plural vocês; poses – plural do plural pós; javalises – plural do plural javalis, ilhoses – plural de ilhós, que já era plural de ilhó, hoje desusado etc.

Fenômeno semelhante ocorreu com o topônimo Cataguases, cidade mineira (é assim que se escreve e não com Z, cataguá era um povo indígena que habitava a região de Minas Gerais onde se localiza essa cidade). O plural era cataguás, mas o povo começou a achar que essa forma era o próprio nome e acrescentou-lhe outro plural com o sufixo ES. Plural sobre plural, plural cumulativo.
Esse fenômeno, talvez felizmente, não é de uso generalizado.

PLURAL (?) DISTRIBUTIVO
Em “Nossos corações batiam descompassados”, “Eles vestiram as camisas e saíram rapidamente”, “As crianças coçavam os narizes simultaneamente” ou ainda com esses exemplos citados por Napoleão Mendes de Almeida “As autoridades não desmentiram nem confirmaram tal versão, limitando-se a dizer que as investigações para determinar as identidades dos mortos prosseguem” e “pessoas de notáveis personalidades”, há algo comum: todas estão erradas.

Em português, nesse tipo de caso, ou seja, quando há coisa possuída referente a vários seres, principalmente quando faz menção a elementos do corpo ou do espírito, mas também quando se refere
a elementos de uso individual, a coisa possuída não pode pluralizar. Assim, todas as orações acima ficariam corretas da seguinte maneira:

“Nosso coração batia descompassado.”, ou seja, o coração de cada um (pois cada um só tem um coração) batia descompassado;
“Eles vestiram a camisa e saíram rapidamente.”, ou seja, cada um vestiu a sua camisa, uso individual;
“As crianças coçavam o nariz simultaneamente”, ou seja, cada uma coçava o seu próprio nariz, visto que ninguém tem dois narizes;
“As autoridades não desmentiram nem confirmaram tal versão, limitando-se a dizer que as investigações para determinar a identidade dos mortos prosseguem”, ou seja, cada morto só tem uma identidade, exceto, é claro, se houve alguma fraude;
“pessoas de notável personalidade” (referente ao espírito).

 

Prefiro dizer que há, nesses casos, um singular distributivo e não um plural. Tenho lido coisas assim: “Essa tragédia marcou as vidas de todos os familiares”. Cada familiar só tem uma vida e, por mais que pareça estranho a muitos, a frase correta e obrigatória é “Essa tragédia marcou a vida de todos os familiares”, porque, ao se colocar a coisa possuída no plural, no caso, “as vidas”, passa-se ao leitor a informação de que os familiares, à semelhança dos gatos, têm mais de uma vida. Deixemos de lado aqui qualquer discussão sobre reencarnação. Estamos apenas nos referindo à língua. Para encerrar este tópico, vejamos como Lia Luft, no ótimo artigo “Educação: ela nos interessa?”, na Veja de 22/12/2010, edição 2.196, p. 26, ao analisar a situação da educação brasileira, coloca um plural, ou melhor, um singular distributivo: “Não seria preciso a opinião de bons institutos internacionais ou nacionais, está debaixo do nosso nariz, e cheira muito mal: nossa educação está abaixo de qualquer crítica”. Ela não disse: “está debaixo dos nossos narizes”, como muitos, erradamente, escreveriam.

OUTROS PLURAIS
Há vários outros plurais, dos quais falaremos mais rapidamente. Vejamos alguns: MEGA, GIGA, EXTRA, TELE, VICE e assemelhados:

MEGA – há uma palavra assim registrada no VOLP como s.f. O Aulete traz mega como palavra formada pela redução de megabyt, só que s.m. Mega é redução de méga(lo), grande (daí megassena, por exemplo), e se transformou internacionalmente, desde 1960, num indicador que aumenta um milhão de vezes determinada unidade e tem sido mais comumemente a redução de megabite, pode ser também de megagrama, megaton, megampere etc. Houaiss diz: “do SI, simbolizado por M, adaptação do gr. megal(o)-, ver, ‘grande’, adotado na 11ª Conferência Internacional de Pesos e Medidas (resolução nº 12), em 1960, equivalente ao multiplicador 106, ou seja, um milhão (de vezes a unidade indicada, p.ex., megagrama = um milhão de gramas)”.

Destaque-se que MEGA, embora seja medida internacional, não é uma sigla, mas sim um radical grego (redução de mégalo) e não deve, portanto, seguir a orientação para as siglas internacionais de pesos e medidas quanto a plural.

GIGA – (há um substantivo giga que significa “canastra”, “selha”, uma espécie de vaso) é redução de gigabaite ou gigabite (o VOLP acolhe as duas palavras). Sobre o radical giga, o Houaiss diz: “do
SI, simbolizado por G, adaptação arbitrária do gr. gígas,gígantos ‘gigante’ [ver gigant(o)-], adotado na 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas (resolução nº 12), em 1960, equivalente a um multiplicador 109, ou seja, mil milhões de vezes a unidade indicada, p.ex. gigagrama = mil milhões de gramas, na nomenclatura moderna da numeração, correspondente à tradicional, não recomendada, de um bilião -cf. regra dos 6N); gigaare, gigabel, gigabit, gigaciclo, gigagrama, gigalitro, gigalux, gigâmetro, gigatonelada, gigastilb etc.”

EXTRA é redução da palavra extraordinário.

TELE é redução de telecomunicação e até de companhias de telecomunicação etc.

VICE é redução de vice-presidente, vice-governador, vice-prefeito etc. e significa vez, alternância. Já gerou visconde, viso-rei etc.

QUILO é redução de quilograma;

FOTO é redução de fotografia;

CINEMA é redução de cinematógrafo;

PNEU e redução de pneumático. Ora, se podemos dizer, quilos, cinemas, fotos, pneus, por que negar essa benesse a GIGA, MEGA, EXTRA, TELE e VICE? Assim, horas extras; notas extras (essas já bem aceitas); pen drive de 8 gigas; programa com 10 megas; os vices têm sido os titulares ultimamente etc. O senador Álvaro Dias, referindo-se a um projeto seu para eliminar a cobrança mensal de assinatura dos telefones fixos, disse, na Rádio Bandeirantes, dia 16/12/2010, no Jornal Primeira Hora: “O cidadão brasileiro está pagando por um serviço que ele não recebe, e as teles é que estão ganhando com isso.” Não vejo nenhum problema em pluralizar todas as formas reduzidas. Porém, uma palavra como PSEUDO, que nunca é usada sem o radical por ela qualificado, não pode ter feminino, plural ou qualquer variação. E é claro que, quando a redução é de nome próprio, como INTER, redução de Internacional de Porto Alegre ou Internazionale de Milão, equipes que disputaram o Mundial de Clubes de 2010, não é possível fazer qualquer variação. Impossível falar ou escrever Ínteres! Melhor repetir: “o Inter de Porto Alegre e a Inter de Milão participaram da mesma competição”.

QUALQUER – é a única palavra de nossa língua cuja flexão indicativa de plural ocorre no meio: quaisquer.

R, S e Z – as palavras assim terminadas que aceitam plural o fazem com o acréscimo da desinência ES: repórteres, ananases, vezes; gizes (curiosa essa palavra, da mesma família de gesso, e deveria ser gis, sem flexão de plural, porém por algum motivo o S transformou-se em Z e achou um plural), narizes etc. Em relação aos substantivos terminados em EZ, o problema é que na maioria deles são abstratos, de difícil aceitação de plural. Mas há, por exemplo, gravidezes. Como esse assunto seria longo, o melhor é consultar uma boa gramática e ver as possibilidades.

X – as palavras terminadas em X apresentam modernamente pouca dificuldade. Antigamente, eram usadas palavras com essa terminação com o som de S: calix (cális), apêndix (apêndis), hoje ainda dicionarizadas. O plural dessas palavras era CÁLICES e APÊNDICES, o que levou o povo a achar que o singular era cálice e apêndice, formando essas novas palavras. A maioria das palavras terminadas em X faz soar esse X como CS. Aí não vão para o plural: os tórax, as xérox, os ônix etc.

METAFONIA OU APOFONIA
Esse fenômeno refere-se, basicamente, às palavras que mudam o timbre fechado do singular (Ô) para aberto (Ó) no plural (os acentos que colocamos nas palavras dos exemplos servem apenas para indicar a pronúncia, não existem de fato nelas): pôrto – pórtos; pôvo – póvos etc. Há uma regrinha prática (embora com várias exceções) para se saber se há metafonia ou não. Siga-se o timbre da palavra feminina correspondente: bobo – bôba – bôbos; moço – môça – môços; porco – pórca – pórcos; novo – nóva – nóvos. O problema é que há palavras cujo plural aberto não conseguimos aceitar, mesmo tendo seu feminino timbre aberto: sogro – sógra – sôgros (em Portugal, alguns dizem sógros); choco – chóca – chôcos etc.

Se a palavra tiver o “o” seguido de nasal, não se abre no plural: colono – colônos; gomo – gômos.

DIMINUTIVOS E AUMENTATIVOS
No caso de diminutivos e aumentativos, para se formar o plural, basta colocar a palavra primitiva no plural, suprimir-se o “s” e acrescentar o sufixo já com a flexão de plural: limões – limõe + zinhos; pães – pãe + zinhos; pãe + zões. Por força de uso, algumas palavras passaram a aceitar dois plurais: bares – bare + zinhos ou barzinhos; colheres – colhere + zinhas ou colherinhas etc.

PALAVRAS USADAS SÓ (?) NO PLURAL
Algumas palavras ainda hoje são usadas predominantemente no plural: pêsames (mas há no singular também), condolências (há no singular também), exéquias (significa seguir até o fim), férias (o singular é usado basicamente como rendimento do dia ou dia de repouso); anais, belas-artes, óculos etc.

Com a certeza de que não se esgotou o vasto assunto (não se falou de plural de modéstia ou majestático, de plural de abstratos etc.), encerro este artigo transcrevendo uma preocupação do grande mestre Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas, fechando o verbete Plural distributivo, ao se referir à nossa estranha capacidade de aceitar sem reflexão muitas coisas que têm vindo do inglês, alertando que nossa vontade superará tal imitação e subserviência : “(…) quando eliminar erros for entre nós mais fácil do que introduzi-los, ou por outra, quando deturpar a língua for mais difícil do que preservá-la”.

*Professor Leo Ricino é mestre em Comunicação e Letras, instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young, professor na Fecap e ministra cursos no Sinpro – Sindicato dos Professores de São Paulo.