Pedras nos caminhos da linguagem

A leitura (a literária é apenas uma) não é um mero recolher do sentido principal do texto, mas consiste, sobretudo, em descobrir os meios pelos quais tal linguagem foi produzida

Texto Roberto Sarmento Lima | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

 

 

Dentre tantas teorias que desejam dar conta do literário, há as que podem ainda ser levadas a sério e as que podem ser dispensadas por parecerem inconsistentes ou artificiosas demais. Tudo depende, leitor, de como se lida com a literatura, como se julga melhor entendê-la. Já disseram, sem relativizar o peso do que afirmam, que a arte imita o real (por essa teoria haveria uma espécie de submissão da escrita artística à realidade externa ao texto, tomada como modelo mas, aí, se existe mesmo essa estreita dependência, por que as obras em geral parecem superar o real do qual supostamente partem?).

Outros sustentam que a literatura tem uma especificidade tal na sua linguagem, um jeito todo próprio de dizer e se defender, que basta ouvir um aglomerado de frases soporíferas como “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, tinha uma pedra, no meio do caminho tinha uma pedra”, assim mesmo como está aí, para desconfiar de que se está em terreno literário. Afinal, ninguém, na chamada vida real, repetiria com essa insistência toda a mesma frase para dizer que no meio do caminho havia uma pedra, uma pedra de fato, daquelas que são capazes de nos fazer dar uma topada ou quebrar as molas do carro. A menos que o sujeito estivesse prestes a cair de sono ou sob o efeito de um forte sedativo que momentaneamente suspende a razão e a coordenação da fala.

Adianto que essas maneiras de ver o literário têm lá seu prestígio, mesmo que apresentem fragilidades (em outras palavras, não há teoria do literário que dê conta dos inúmeros fenômenos que surgem, quanto mais de todos eles). Na vida diária pode-se muito bem falar com expressividade e lançar mão de um vocabulário que fuja ao que é corrente e não estar no campo do literário. Pode-se também, com a palavra, tentar imitar o real a que se refere, fornecendo minúcias descritivas na hora de informar, e não haver, nisso tudo, nenhuma intenção estética. Tenho, para mim, que se pode recorrer a uma terceira via de interpretação desse fato, combinando-a até com as duas versões anteriores, para ver se se chega a algum lugar, com margem menor de erro ao buscar definir o papel literário na linguagem.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 55