Palavras: Uma questão de estilo

A construção de um bom texto depende da criatividade de quem o escreve. Veja como o uso das palavras exercem um papel importante nesse contexto

Texto Maurício Silva | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

João Ribeiro, eminente gramático e profundo conhecedor da língua portuguesa, disse certa vez, em entrevista que deu ao jornalista carioca João do Rio (O Momento Literário), que o estilo seria, antes de tudo, “a idéia precisa e exata na sua forma exata e precisa”. De fato, não são pouco os que acreditam que o estilo depende, basicamente, da conjunção precisa entre forma e fundo, ideia em si mesma legítima, embora se saiba que até mesmo o que se considera erro, lacuna, falha ou desvio pode ser, no limite, considerado… uma questão de estilo. Falar em estilo na língua portuguesa remete- nos, imediatamente, a certa escala de valores que não apenas as frases, as orações e os períodos contêm, mas que também as palavras, isoladamente ou não, possuem. Assim, da mesma maneira que temos, no que compete à gramática da língua, as categorias essenciais (substantivos, verbos, adjetivos), auxiliares (artigos, preposições) e determinantes (advérbios, numerais), nas quais os vocábulos se subdividem, em termos de estilo essas categorias são também fundamentais para que possamos apreender a língua não em sua estrutura morfossintática, mas em sua configuração estilística. Uma frase como “Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma cousa”, retirada do romance Memorial de Aires, Machado de Assis, é reveladora não apenas pelo sentido que ela tem para a economia do romance, mas também em razão do peso que os verbos possuem no período, ora pelo jogo de oposições entre singular e plural (pensava / pensavam); ora pela dicotomia entre afirmação e negação (pensavam / não pensavam); ora pela mediação, entre os dois vocábulos, realizada pelo verbo percebeu (pensava / percebeu / pensavam); ora ainda pelo contraste entre dois tempos verbais, o pretérito imperfeito (pensava / pensavam) e o perfeito (percebeu). Tudo isso se torna significativo, literariamente falando, para a narrativa e, mais do que um traço morfossintático, é um traço estilístico marcante. escala de valores a que aqui nos referimos pode, ainda, ter uma natureza sinestésica, estando ligada a determinados sentidos humanos. Por exemplo, é muito comum associarmos determinadas palavras a determinados sentidos, criando assim – no âmbito da percepção estilística – imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas ou gustativas.

 

Trata-se, sem dúvida, de uma descrição em que há um nítido apelo ao sentido auditivo e visual, efeito estilístico conseguido basicamente pelo emprego de determinados vocábulos que, aliados à sua sonoridade singular, resultam numa mais precisa imagem do que se quer descrever. Talvez seja esse o sentido a que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em seu Ecco Homo, se referia quando afirmou que “bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior”. De fato, há mesmo muito o que dizer em relação à significação das palavras e sua importância para o estilo. Pode-se pensar, por exemplo, nos significados que alguns vocábulos adquirem em determinados contextos e/ou relacionados a determinadas intencionalidades comunicativas. Trata-se da propriedade que as palavras possuem de serem polissêmicas, adquirindo ora um sentido denotativo (concreto), ora um sentido conotativo (abstrato). Assim, uma mesma palavra, dependendo do efeito estilístico que se busca alcançar, pode ter um significado objetivo (touro = animal) ou subjetivo (touro = valente), real (branco = cor) ou simbólico (branco = paz), referencial (cabeça = órgão) ou metafórico (cabeça = chefe). Há que se atentar para o fato de que, nesse universo dos vocábulos polissêmicos, uma mesma palavra pode ter mais de um sentido concreto (manga = fruta e manga = parte de vestuário) ou mais de um sentido figurado (céu, na expressão céu da boca e na expressão ir para o céu).

 

***Adaptado do artigo “Palavras e palavras: Uma questão de estilo” 

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 57