Os sons que pronunciamos na língua que falamos

Mesmo considerada por alguns professores como a “vilã” no ensino de Língua Portuguesa, a Fonética ajuda a explicar muitos comportamentos registrados na fala espontânea. Venha saber como!

Texto Edmilson José de Sá | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

 

Qualquer estudante de língua portuguesa já deve ter escutado de seu professor durante as séries iniciais a regra a seguinte explicação: “Usa-se a consoante ‘m’ antes de ‘p’ e ‘b’ na escrita das palavras ‘campo’ e ‘sombra’”. Porém, muitos ainda não pararam para pensar numa explicação plausível para tal questão e encerram o assunto como um simples fenômeno de ser decorado e não aprendido e justificado pela própria ciência que examina a linguagem, a linguística. Dentro desse campo, surgem aspectos que permitem ao estudioso uma análise mais apurada do fenômeno em tela como a fonética e a fonologia. O aspecto fonético trata da descrição dos sons da língua, dividindo-os em classes a depender do lugar e do modo como eles se articulam na boca durante a fala. Já o aspecto fonológico permite a análise desses sons conforme alguns processos distintos, construídos a partir da evolução das escolas linguísticas, cujo objetivo maior competia a tarefa de formular explicações sobre o mecanismo subjacente à linguagem. Aí vem a questão principal que norteia este texto: Como se descrevem os sons da língua?

 

O APARELHO FONADOR
Para começar, é necessário considerar que tal descrição ocorre do ponto de vista fisiológico e articulatório, por isso vale a pena conhecer o aparelho que permite a produção dos sons. O aparelho, denominado de fonador, abrange três sistemas do corpo humano, já que não existe um órgão em particular que seja responsável pela articulação dos sons, mas por outras atividades que comumente são desenvolvidas pelo homem. A figura a seguir (acima) apresenta a descrição dos órgãos dos sistemas articulatório, fonatório e respiratório, necessários à produção dos sons da fala.

No corpo humano, o conjunto de órgãos de que faz parte o sistema articulatório (faringe, língua, nariz, palato, dentes, lábios). O sistema fonatório é constituído pela laringe, seguido do esôfago, enquanto o sistema respiratório abrange a traqueia, os pulmões e o diafragma. A partir da saída de ar advinda do diafragma, percorre-se um breve caminho até esse ar produzir um determinado som, algo comum a todos os animais, sendo que cada um transforma o som no elemento de comunicação que lhe é peculiar: o miado no caso do gato, o latido no caso do cão e os sons de letras no caso do homem. É através da saída de ar livremente que são emitidos os sons chamados de vogais, ou seja, não há interferência, nem fricção de nenhum órgão do sistema articulatório que causa impedimento na emissão do som. Quando ocorrem obstruções que inibem a passagem total de ar, havendo ou não fricção nos órgãos, surgem os sons chamados de consoantes.

 

OS SONS DAS VOGAIS
Conforme foi mencionado, a produção das vogais ocorre quando não há obstrução nem fricção no sistema articulatório durante a passagem do ar. Para descrever os sons das vogais, portanto, é necessário se valer da altura da língua e da posição do corpo da língua. Usando a histórica foto de Einstein, é possível ilustrar a descrição dos sons das vogais da seguinte maneira:
Pela figura de Einstein, compreende-se, agora, que a descrição dos sons das vogais proposta pelo médico alemão Christoph Friedrich Hellwag (1754 – 1835) no ano de 1781, conhecida por ‘Triângulo de Hellwag’, na verdade, segue o formato da língua humana, a partir da qual as vogais se organizam conforme a sua posição na boca. Quanto à altura da língua, as vogais podem ser altas, médias e baixas. As vogais altas são /i/ e /u/, o que justifica o fato de elas serem as únicas nomeadas de semivogais quando seguidas de outras vogais, resultando num ditongo. As vogais médias são /e/ e /o/ e seguem essa nomenclatura, porque, ao manter a língua em repouso, é possível pronunciá-las tanto de modo mais alto e mais fechado, quanto de modo mais baixo e mais aberto. Tomando como exemplo as vogais destacadas nas palavras ‘m/e/do’ e ‘c/o/rpo’, pode-se classificá-las como ‘médias altas’. Porém, no caso de ‘p/e/rto’ e ‘p/o/rta’, as vogais são destacadas são chamadas de ‘médias baixas’. Graças a esse processo, segundo teoria proposta por Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1904 – 1970), é plausível compreender o porquê da existência da variação na pronúncia de ‘menino’, como m[e]nino, m[ɛ]nino e m[i]nino e de ‘bonito’, como b[o]nito, b[ç] nito e b[u]nito, pois as vogais médias em posição pretônica favorecem a variação. A vogal /a/ torna-se a única com classificação central, mas é chamada de baixa, pela posição da língua nessa localização. Os segmentos vocálicos também podem variar conforme a posição do véu palatino. Se houver produção de som com o véu palatino levantado, obstruindo a passagem de ar para a cavidade nasal, o som será oral. No entanto, o abaixamento do mesmo véu, ao permitir a existência de uma ressonância na cavidade nasal, o som passa a ter essa classificação.

 

OS SONS DAS CONSOANTES
Lembrando que os segmentos consonantais são produzidos quando há algum tipo de obstrução nas cavidades supraglotais a ponto de a passagem de ar ser parcial ou totalmente obstruída, além da condição de haver ou não fricção, convém, nesse instante, conhecer a distribuição desses segmentos segundo o lugar e o modo de articulação.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 55