Os desafios dos professores e das escolas nos contextos público e privado

O projeto político pedagógico é um compromisso social que se compromete com a formação do cidadão. Conheça a importância da escola nesse contexto

Texto Júlio Furtado | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Sem sombra de dúvida, o maior desafio da escola, seja ela pública ou privada, é comprometer todos os seus atores com o Projeto Político Pedagógico (PPP). Infelizmente, grande parte das escolas ainda tem um desafio anterior a esse que é construir coletivamente o seu Projeto. O Projeto Político Pedagógico é a identidade, é a “Constituição” da escola. Ele é político porque é um compromisso social, já que se compromete com a formação do cidadão para um tipo de sociedade que se deseja e é Pedagógico porque define as ações educativas e as características necessárias à escola para que ela cumpra seu propósito. Um PPP deve contemplar a missão da escola (ou marco referencial), que é a declaração explícita dos valores e aspirações da escola. A missão deve responder principalmente a duas perguntas: Em que educação essa escola acredita? Que aluno queremos formar? Deve contemplar também uma clara descrição da clientela, que envolve alunos e comunidade. Deve descrever a relação com as famílias, como será feita a gestão da disciplina e os recursos que serão utilizados, o estágio atual dos resultados do processo de aprendizagem e deve estabelecer metas e prazos de melhoria desses índices. O PPP precisa, também, estabelecer as diretrizes e expectativas pedagógicas e apresentar os planos de ação para o alcance das metas e objetivos. Sua construção é uma empreitada complexa que exige muita determinação e crença em sua funcionalidade. Uma vez construído, porém, o PPP torna-se o instrumento de agregação, alinhamento e desenvolvimento da escola. No contexto da escola pública, a construção e gestão do PPP ensejam grande mobilização de pessoas e de representações setoriais e sua redação deve garantir a qualidade social, não permitindo que nenhum grupo deixe de ser ouvido e levado em consideração. Na escola privada, ele em geral é fruto de detalhado estudo das crenças e necessidades da clientela e das possibilidades da instituição, “temperado” pelas crenças da escola sobre o que é uma educação de qualidade. Se por um lado os maiores esforços da escola pública se dão no sentido de mobilizar e comprometer as pessoas na tarefa de discussão e construção do PPP, na escola privada tal esforço se dá no sentido de evidenciá-lo e oficializá-lo para todos os grupos que compõem a escola (professores, pais, funcionários, alunos e comunidade).

 
Tal dificuldade se dá devido à grande proximidade que a escola privada tem com as “exigências do mercado”, um mercado que, na maioria das vezes, não tem claro conceito de um bom processo educativo. Se a escola pública consegue construir um projeto de forma participativa, a gestão do mesmo torna-se facilitada pela metodologia que o produziu. Manter o sentimento de “posse coletiva” do projeto é, em síntese, o principal foco do gestor da escola pública. No caso da escola privada, o PPP não é fruto da vontade coletiva, mas sim dos anseios e crenças dos mantenedores (embora respeitando o contexto em que se inserem e as expectativas da clientela). Esse fato faz com que a escola privada precise fazer um grande esforço para comprometer funcionários e professores com a proposta. Essa questão fica mais complexa, quando constatamos que grande parte das instituições privadas não envidam muitos esforços para convencer e conquistar, mas sim para impor o projeto de forma direta como algo pra “pegar ou largar”. As diferentes concepções de PPP geram diferentes formas de relação entre a escola e os professores, entre a escola e as famílias e entre a escola e os alunos. Da mesma forma, diferentes consequências são oriundas das diferentes estratégias de gestão do comprometimento desses grupos. Na instância pública, as famílias precisam ser mobilizadas a fazer parte da construção do Projeto Político Pedagógico. Em função da dificuldade de mobilização desse segmento, de representações “não representativas” do grupo de pais. Não são raras as escolas públicas que têm nesse segmento a maior dificuldade de mobilização, o que as leva a “cumprir tarefa”, convidando os pais mais próximos a participarem do processo para garantir o grupo representativo de todos os segmentos.

 

 

Na instância privada a dificuldade é basicamente a mesma, apenas é produzida por diferentes caminhos. As escolas não dão a importância devida à apresentação da proposta aos pais, frisando os valores e atitudes inegociáveis e a justificativa de procedimentos e rotinas. A consequência são conflitos no dia a dia causados por desalinhamentos de percepções. Igualmente às públicas, as escolas privadas têm dificuldade em mobilizar os pais para serem parceiros no processo de aprendizagem, com a especificidade de que os mesmos atribuem à escola tarefas e responsabilidades que não a compete sob a justificativa de que estão pagando pelo serviço.A dificuldade de comprometimento e mobilização dos professores com o PPP também é questão comum nas duas escolas. Enquanto na escola pública a dificuldade tem início na participação e na elaboração do documento, na privada, o maior impasse é levar os professores a comungarem de uma proposta da qual, muitas vezes divergem e que, num primeiro momento afirmam concordar tão somente para conquistar a vaga e sobreviver no Mercado de Trabalho. Na escola pública tal descompromisso igualmente se manifesta, no entanto, existe o argumento da não participação no processo de construção coletiva, o que em nada minimiza o impasse. As estratégias usadas pelas gestões para “forçar” tal comprometimento por parte dos professores estabelecem uma atmosfera de conflitos na qual as escolas mergulham até o pescoço e que passa a ser a causa da maior parte de seus problemas. Essa falha no processo de mobilização detona a crise da relação entre a escola e os professores e cria um quadro no qual os professores recebem grande parte da culpa e no final das contas a escola não cumpre o seu papel.

 

***Adaptado do artigo “Desafios da escola e dos professores nos contextos público e privado” 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 55