O uso das palavras estrangeiras na Língua Portuguesa

A constatação de que palavras estrangeiras estão sendo utilizadas em escala cada vez maior no português do Brasil gera um campo bastante interessante para discussões sobre a nossa língua e, consequentemente, nossa cultura. Confira!

Texto Flavio Biasutti Valadares | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

Os anglicismos, palavras de origem inglesa, estão em toda parte pelo Brasil: em jornais, revistas, propagandas, na TV, em livros, enfim. Mas é bom lembrarmos que nossa língua sempre foi acolhedora de palavras novas, incluindo as importadas. Se antes era o francês, agora é o inglês! Em 1999, surgiu com bastante veemência uma proposta de proibição de usos de palavras estrangeiras no Brasil, legitimada pelo Projeto de Lei do deputado federal Aldo Rebelo, que dispõe sobre a promoção, a defesa e o uso da língua portuguesa e outras providências. O referido deputado alegou que a língua portuguesa estava sendo invadida por expressões estrangeiras, principalmente de origem inglesa, e que isso era prejudicial à nação, uma vez que induzia a população à não utilização de nosso idioma nacional.

Evidentemente, as reações dos linguistas ao Projeto de Lei foram bastante incisivas, uma vez que não haveria qualquer perigo para a língua por ela receber empréstimos estrangeiros. Os representantes da Associação Brasileira de Linguística ABRALIN, da Associação de Linguística Aplicada no Brasil ALAB e da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística ANPOLL encaminharam um requerimento ao Presidente da Comissão de Educação do Senado Federal no qual se posicionavam quanto ao Projeto em ques tão. Eles alegaram que realmente o Brasil precisa investir numa política linguística nacional, mas ratificaram a pouca contribuição que o Projeto de Lei nº 1676/99 apresentava para isso. É importante trazermos também que mesmo os gramáticos não veem relevância neste tipo de intervenção linguística.

Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em 16 de julho de 2002, no Caderno B, páginas B1 e B2 o gramático Evanildo Bechara aponta, entre outras coisas, que “a língua não é o que os dicionários ou gramáticas registram. O grande juiz da linguagem é o uso”. O renomado gramático tece a seguinte consideração, quando perguntado pelo entrevistador sobre o aumento no uso de estrangeirismos hoje em dia: “Estrangeirismo não é gramática. Estrangeirismo é léxico. É a janela da língua com o mundo. É através dele que entram as novidades do contato de uma língua com outra língua.  A entrada de uma palavra não prejudica a língua…”. Passada mais de uma década, constatamos que o perigo não existe mesmo!

Convivemos perfeitamente com as palavras estrangeiras justamente porque só utilizamos aquelas de que necessitamos para nossa comunicação; fosse assim, teríamos de usar todas as palavras ditas nacionais… Voltando ao Projeto de Lei, o posicionamento teórico adotado pelos linguistas abarca a ideia de que os vários equívocos constantes no Projeto, entre os quais a noção de unidade linguística e a interferência negativa e restritiva nos processos normais de expansão do vocabulário do português brasileiro por desconhecer a dinâmica linguístico-cultural das sociedades humanas, trarão grandes prejuízos à cultura linguística do país. Entendemos que o risco apontado pelo deputado não condiz com a realidade da língua, visto que qualquer língua recebe empréstimos de outras, e a população, ou seja, os falantes utilizam aquilo que seja importante para o seu uso.

Desse modo, se palavras estrangeiras são relevantes para o uso de uma pessoa, ela aprende, ainda que não saiba a língua da qual está importando determinada palavra. Atualmente, podemos afirmar que a grande maioria dos termos importados é de anglicismos. A tecnologia tem nos fornecido a maior parte destes termos. Nesse sentido, o sistema fonológico não é alterado, mas, sim, adaptado pelos falantes que importam a palavra estrangeira. Por exemplo, não existem palavras na língua portuguesa com a sequência fônica-th , mas o empréstimo feito brother, via uso em forma de gíria, sofreu a alteração para “broder”, na oralidade. Isso se comprova pelo uso do diminutivo “brodinho” em que o “th” original deu lugar ao “d”, ou seja, explica a não ameaça de um empréstimo estrangeiro: todo falante, do menos escolarizado ao mais, sabe como funciona a sua própria língua e não permite alterações que a comprometam.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 51