O professor e a psicologia

No processo de aprendizagem, todos os recursos sensoriais do indivíduo vão estar envolvidos

Texto Marcos Messias da Silva Justiniano | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

 

Mesmo no ambiente de sala de aula somos bombardeados pelos mais variados estímulos o tempo todo, como a fome, a sede, o sapato que aperta, as lembranças, os sons que vêm do lado externo, então, saber como fazer para prender a atenção do aluno, compreendendo que esta é seletiva, favorecerá o aprendizado. Sendo assim, as teorias psicológicas terão muito a contribuir e facilitar o processo educacional. A psicologia tem servido à educação e pode continuar servindo, considerando que, no conjunto das ciências que fundamentam o ensino, ela é vista por muitos como a principal subsidiária.

 
Podemos nos questionar como a Psicologia da Educação pode colaborar com o professor em sua atividade docente, mas não se pode esquecer que os alunos são indivíduos que possuem emoções, expectativas, angústias, desejos e percepções que, se levadas em consideração durante o processo de ensino, este poderá ser facilitado. De modo que, voltando ao questionamento, a Psicologia da Educação pode, sim, ajudar o professor em seu trabalho com pessoas.

 
É provável que todos os professores tenham algumas vezes feito a si próprios perguntas como: O que poderei fazer para que João se esforce mais em aritmética? Que fiz hoje para tornar a classe interessada? Tais questões são basicamente psicológicas, no sentido de que se referem a processos complexos do comportamento humano (FALCÃO, 2000). O domínio da matéria e de determinada área do conhecimento pode ser insuficiente para o êxito do trabalho docente. Um professor que entra em sala de aula seguro porque sabe o que vai ensinar precisa lembrar que ele necessita saber, também, como deve ensinar. Ele (o professor) já tem “o conhecimento”, e seus alunos estarão ali esperando para aprender, porém, em muitas ocasiões serão impedidos por uma infinidade de questões psicológicas que, se trabalhadas pelo professor, vão ser superadas.

 

RECURSOS SENSORIAIS DO ALUNO

 
Para Falcão (2000), a contribuição especial da Psicologia da Educação na formação do docente é preencher as lacunas na compreensão que o futuro professor tem dos processos educacionais e corrigir suas noções errôneas. De acordo com o autor, o docente perceberá possibilidades, relações e problemas que nunca vira antes. E, pelo fato de haver adquirido este novo discernimento, é provável que se torne um educador mais eficiente do que o seria se não tivesse estudado Psicologia Educacional. Numa sala de aula ou em um ambiente de ensino, o objetivo é que os alunos aprendam, mas não se pode entender todos como sendo iguais. A individualidade deve ser respeitada e apreciada no processo de ensino, cada um com suas preferências e diferenças. No processo educacional é necessário que se leve em consideração os recursos sensoriais do aluno, sua personalidade, as interações inerentes ao contexto e todos os processos psicológicos ocorridos durante a aprendizagem. Desta forma, as teorias da psicologia podem ser aplicadas na educação para facilitar a aprendizagem, bem como elas vêm a possibilitar um maior desenvolvimento intelectual, social e emocional.

 
COMO A PSICOLOGIA PODE CONTRIBUIR COM A EDUCAÇÃO

 
Muitas são as definições que encontraremos ao pesquisar o que é psicologia: estudo da mente, da personalidade, ciência do comportamento. A psicologia trata dos comportamentos humanos e seus processos mentais. As raízes da psicologia são encontradas nos grandes filósofos da Grécia Antiga. Sócrates, Platão e Aristóteles fizeram perguntas fundamentais sobre a saúde mental, que permanecem importantes para a compreensão da natureza da mente e dos processos mentais (ATKINSON et al. 2002). De acordo com Falcão (2000), os problemas levantados pela psicologia são antiquíssimos, diz-se que o lema da escola de Sócrates era: “Conhece-te a ti mesmo”. Considera-se que a psicologia como ciência começou em 1879, quando Wilhelm Wundt montou o primeiro laboratório de psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Wundt e seus colegas já se preocupavam com a pesquisa sobre os sentidos, bem como estudaram também a atenção, a emoção e a memória (ATKINSON et al. 2002).

 
Em Gamez (2013), temos que em um enfoque cognitivista da psicologia busca-se compreender de que forma as faculdades mentais, como a memória, a atenção, a linguagem, o raciocínio, a capacidade para resolução de problemas, são processados pela cognição humana. Diante disto, lembremo-nos que conceitos como a atenção, a memória, os sentidos, as interações com o ambiente e com o outro, além das emoções, fazem parte do processo educativo. Conteúdos referentes ao fenômeno psíquico aparecem em muitas outras disciplinas. A pedagogia, a didática, as metodologias de ensino estão repletas de conteúdos de natureza psicológica. Para Rodrigues (1973), a vastidão do conhecimento é de tal magnitude que se faz imperiosa a fragmentação em áreas de concentração. Ainda segundo este autor, haverá maior benefício se cada especialista concentrar-se em sua área específica, apelando para a atividade interdisciplinar, quando necessário. Ressalto a importância do ensino da Psicologia da Educação na formação docente, como área específica e de suporte para outras disciplinas indispensáveis na formação do professor.

 
Gamez (2013), afirma que a Psicologia da Educação é uma disciplina com suas próprias teorias, métodos de pesquisa, problemas e técnicas, que produzem conhecimentos relativos aos fenômenos psicológicos que derivam do processo educativo. “A Psicologia da Educação nasce na expectativa de consolidação de uma teoria educativa de fundamento científico que permitisse melhorar o ensino.” (COLL et al., 1999 apud GAMEZ, 2013). “A finalidade da Psicologia da Educação é oferecer o conhecimento da natureza humana aos estudiosos da teoria da educação.” (THORNDIKE, 1903 apud GAMEZ, 2013). “A finalidade da Psicologia da Educação é colocar os professores a par do estudo científico do desenvolvimento mental.” (JUDD, 1903 apud GAMEZ, 2013). “A finalidade da Psicologia da Educação é fornecer os fundamentos psicológicos dos fatores educativos na civilização e nas suas escolas.” (HARUS, 1898 apud GAMEZ, 2013).

 
CONCEITUAÇÃO DA APRENDIZAGEM

 
Faz-se necessário, também, que de forma sucinta conceituemos o que é aprendizagem. Falcão (2000) define aprendizagem dizendo que se trata de uma mudança relativamente duradoura do comportamento, por meio do treino, da experiência e observação. Sendo esta um processo pessoal, gradual, cumulativo, integrativo, dinâmico ou ativo e contínuo. Isto posto, ainda em Falcão (2000), a Psicologia do Desenvolvimento esclarece quanto à sucessão das fases da vida; a Psicologia da Personalidade aprofunda questões relativas ao modo de ser da pessoa, como se organiza e como funciona o chamado psiquismo; a Psicologia da Aprendizagem traz sua contribuição quanto ao modo como as pessoas aprendem, as condições necessárias para aprender e o que fazem com o que aprendem. Deste modo, parece claro que o processo de ensino está totalmente permeado por questões psicológicas: atenção, memória, prontidão, maturação, motivação e interações sociais. Sendo assim, o ensino da Psicologia da Educação na formação do professor é imprescindível para o seu eficiente desempenho posterior em sala de aula.

 
Carl Rogers, teórico da psicologia humanista citado na obra de DeAquino (2007), fala sobre aprendizagem: “Eu gostaria de falar sobre aprendizagem. Mas não daquilo sem vida, estéril, fútil, rapidamente esquecido, que é imposto na mente do pobre e desamparado indivíduo que é amarrado em sua cadeira pelos cabos de aço da complacência! Estou falando de aprendizagem — a insaciável curiosidade que motiva um rapaz adolescente a absorver tudo que ele puder ver ou escutar sobre motores a combustão, de forma a melhorar a eficiência e a velocidade de seu carro. Estou falando do aluno que diz: ‘Eu estou fazendo descobertas, captando conhecimento à minha volta e tornando aquilo que é captado parte integrante do meu eu.’ Estou falando de qualquer aprendizagem na qual a experiência de quem aprende progride da seguinte forma: ‘Não, não, não é isto que eu quero’; ‘Espere! Isto está mais próximo daquilo em que estou interessado, do que preciso’; ‘Ah, agora sim! Agora eu estou recebendo e assimilando o que eu preciso e o que eu quero saber!’” (ROGERS, 1993 apud DEAQUINO, 2007).

 
De acordo com DeAquino (2007), a aprendizagem refere-se à aquisição cognitiva, física e emocional, e ao processamento de habilidades e conhecimento, o quanto uma pessoa é capaz de compreender, manipular, aplicar e comunicar esse conhecimento e essas habilidades. Segundo Gamez (2013), um dos principais objetivos da Psicologia da Educação é o estudo dos processos de ensino e de aprendizagem, como ele ocorre, na escola, no trabalho ou em qualquer outro lugar onde seja propiciada. Para DeAquino (2007), há uma variedade de estilos de aprendizagem nos grupos de alunos e os educadores precisam estar conscientes dessa diversidade. Em Falcão (2000), encontramos que motivação é vida — o estudo das matérias escolares é apenas uma fatia da vida, ou esse estudo se integra na vida dos alunos ou não haverá interesse pela aula.

 
Morin (2004) lembra que muitos erros podem ocorrer na construção do conhecimento, dado os erros e ilusões de percepção e dos sentidos do ser humano. Os desejos, os medos, as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro. “É necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão (MORIN, 2004)”. DeAquino (2007) afirma que o maior problema enfrentado na educação superior é que a maioria dos educadores não reconhece a linguagem dos aprendizes. Não possuem a preocupação em entender as pessoas, o que leva à criação de estereótipos no ambiente educacional, denominando algumas pessoas como “despreparadas” ou “incapazes”, sujeitando-as a um único estilo de transmissão de conhecimento. O ensino da Psicologia da Educação na formação do docente pode contribuir para que os futuros professores tenham consciência da necessidade de entender os alunos como pessoas, levando em conta suas individualidades. Perrenoud (2000) fala da necessidade de o professor trabalhar a partir das representações dos alunos. O que possibilita um processo de empatia entre educador/aluno, em que o primeiro coloca-se no lugar de seus aprendizes, lembrando que o que parece evidente ao professor não o é aos seus alunos.

 
Muitas são as contribuições da Psicologia da Educação — em todos as áreas da psicologia podemos encontrar ferramentas que auxiliam o professor em seu trabalho. Ramos (1995) apud Gamez (2013) afirma que grande é a contribuição do pensamento behaviorista para a educação e que para os behavioristas é importante planejar o ensino com a definição clara dos objetivos a serem alcançados, bem como com a definição dos mecanismos de reforço que serão utilizados. A intervenção construtivista na prática docente, de acordo com Gamez (2013), ressignifica o papel do professor. Ele passa a conduzir o aluno a descobrir seus próprios esquemas mentais. As estratégias do professor devem estar centradas principalmente na iniciativa do aluno, valorizando o conhecimento que ele já traz e avançando com ele na descoberta de novas formas de trabalho (GAMEZ, 2013). Sendo assim, o papel mais importante do professor é criar um ambiente no qual o aluno possa construir conhecimentos. A Psicanálise também traz suas contribuições segundo Gamez (2013). O professor que conhece o conceito da transferência vai compreender atitudes agressivas ou amorosas de um aluno para com ele. De acordo com o autor, nem sempre essas atitudes são realmente pessoais, mas sim correspondem a um estilo de relacionamento que o aluno está repetindo, experimentadas em outras situações. Dependendo de como o professor agir nessas circunstâncias, ele pode abrir caminho à aprendizagem ou bloqueá-lo, despertando medo e ódio do conhecimento. Gamez (2013) trata também da identificação, que é um processo inconsciente que consiste em modelar-se segundo uma pessoa da vida real ou um herói da ficção; uma projeção, que pode ocorrer com o aluno para com o professor.

 

Freud, citado por Gamez (2013), refere- se à importância da relação professor- aluno no processo de aprendizagem: “É árduo decidir se o que nos afetou mais e foi de maior importância, foi nosso interesse pelas ciências que eram ensinadas ou pelas personalidades de nossos professores. É verdade, pelo menos, que esse segundo interesse constitui uma perpétua corrente oculta em todos nós e em muitos de nós, o caminho às ciências passava através de nossos professores.” Carmo (2010) afirma que a relação professor-aluno envolve mais do que aspectos emocionais, porém, nem sempre os professores são lembrados pela competência no saber, mas são lembrados pelo modo como tratavam seus alunos. Em sala de aula o professor é uma referência, e segundo Carmo (2013), desde o primeiro dia de aula, os alunos elaboram uma série de avaliações subjetivas em relação ao professor, observando como ele se veste, como fala, se é seguro, intransigente ou aberto ao diálogo, entre outras características.

 
CONSIDERAÇÕES FINAIS

 
A Psicologia da Educação pode assessorar o docente na compreensão de como as pessoas aprendem. Falcão (2000) afirma que o professor precisa de toda sua atenção para o que se está passando na mente do aluno ao aprender. Como professor, basta eu olhar para meus alunos como simples alunos, ou o processo de ensino terá mais êxito se vê-los como seres humanos cheios de expectativas, angústias, motivações e decepções? Como educador, preciso contribuir para que essas pessoas que chegam a mim possam se desenvolver e crescer como seres humanos. Verdadeiros professores dão significados aos seus ensinamentos e conduzem a pessoa com todas as suas dificuldades e habilidades a um nível mais elevado. Enquanto para outros é suficiente que seus alunos permaneçam “quietos”, ouvindo e obtenham boas notas em suas provas. Grande parte das dificuldades de aprendizagem dos alunos tem a ver com o fato de que o teor das matérias não possui grande significação para eles, sendo este um dos maiores desafios à capacidade do professor. O problema da aprendizagem é muito antes, o problema da vida (FALCÃO 2000).

 
Finalmente, creio ser relevante que o professor não somente se preocupe com os produtos cognitivos da aprendizagem de seus alunos, mas também com os produtos afetivos e motores. Segundo Falcão (2000), os produtos cognitivos são os que consistem de novas informações e novos conhecimentos, os produtos afetivos correspondem às preferências, sentimentos, atitudes e valores e os produtos motores são os hábitos e habilidades. A Psicologia da Educação contribuirá para que o professor pense na aprendizagem de modo global, não permitindo que o aluno seja visto como um mero receptáculo de informações.

 
Falcão (2000) cita um texto de Albert Enstein, contido em sua obra Como Vejo o Mundo, que nos convida a uma reflexão sobre a importância do professor na formação de pessoas:
“É tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer. Caros meninos, como estou feliz por vê-los hoje diante de mim, juventude alegre de um país ensolarado e fecundo. Pensem que todas as maravilhas, objetos de seus estudos, são a obra de muitas gerações, uma obra coletiva que exige de todos um esforço entusiasta e um labor difícil e impreterível. Tudo isto, nas mãos de vocês se torna uma herança. Vocês a recebem, respeitam-na, aumentam-na e mais tarde, irão transmiti-la fielmente à sua descendência. Deste modo somos mortais imortais, porque criamos juntos obras que nos sobrevivem. Se refletirem seriamente sobre isto, encontrarão um sentido para a vida e para seu progresso. E o julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras épocas será mais verdadeiro.” A Psicologia da Educação, por meio dos estudos sobre a aprendizagem e desenvolvimento, oferece subsídios teóricos e práticos que auxiliam substancialmente os profissionais envolvidos nas práticas educacionais (CARMO, 2010).

Revista Conhecimento Prático – Língua Portuguesa Ed. 65