O papel do erro no processo de aprendizagem

Veja como o erro exerce uma função importante no processo de aprendizagem das crianças

Texto Sandra Bozza | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

No final do primeiro semestre do corrente ano, a afirmação do educador inglês Guy Claxton, professor da King’s College, trouxe à baila uma interessante e necessária discussão, que há mais de três décadas vem se tornando notória em nosso país. Trata-se do papel do erro no processo de aprendizagem e, mais especificamente, na construção de conhecimentos dentro e fora da Escola. Ele afirma que escola não deveria ser um local onde se ensina a encontrar as respostas certas e sim um espaço onde se possibilite refletir sobre situações e problemas que vão além dos muros da escola, enfatizando a necessidade de se reduzir o fosso entre o que é a aprendizagem no mundo real e a maneira como ela está configurada na escola. Essa reflexão é fundamental exatamente porque nos permite perceber a diferença de conceitos importantes sobre o ensinar e o aprender. Quando o foco do processo está no ensinar, a tendência é que se “demonstre” como é ou como funciona determinado conteúdo e que se espere do aluno a reprodução do que foi demonstrado. Ou seja, existem respostas e caminhos certos almejados por quem ensina e, nesse processo, se desconsidera o que não lhe for pertinente: o erro é desconsiderado.

 

Todavia, quando a questão central é o desenvolvimento e o foco passa, então, a ser a aprendizagem, o que importa não é apenas o produto, mas, sobretudo, o processo. Em outras palavras: para que o aluno avance, há que se compreender os caminhos percorridos para que ele seja subsidiado adequadamente e haja progressão de aprendizagens. Assim, tomar uma posição com relação ao erro dependerá sempre da concepção de aprendizagem que subjaz a cada prática pedagógica. Quando questionada a respeito do uso da borracha ou sobre o erro, a pedagoga Carla Martins, diretora do Centro Municipal de Educação Infantil Borda Viva, São José dos Pinhais PR, afirma: “Acredito que o foco da reflexão não deveria estar no abolir a borracha e sim no uso inadequado da mesma. Se a função é punitiva, intimidadora e desvaloriza o processo de construção de conhecimento do aluno até o ‘acerto’, há uma concepção onde o erro não é considerado como momento de retomada e parte do processo. Assim sendo, muito mais importante do que jogar a borracha fora, seria trabalharmos, alicerçados à luz de estudos teóricos e pesquisas, na mudança desse paradigma errôneo.” Ela assenta seu entendimento na visão sócio-histórica de aprendizagem que enfatiza o aprender e, consequentemente, o desenvolvimento como um conjunto de interações em que não se consegue ensinar. Antes, o que se pretende com as práticas em sala de aula é que os sujeitos se construam na interação com o outro e com o objeto do conhecimento. Dizendo um pouco diferente: no caminho da aprendizagem (e não do ensino) não há o certo antecipadamente. Há o processo, em que se vai construindo algo que não está predeterminado e, ao mesmo tempo, que será determinado pelo processo.

 

Nessa perspectiva, os erros devem ser entendidos como instrumentos de regulação desse processo, na proporção em que permitem revelar as competências cognitivas e relacionais da criança com relação à tarefa proposta e a inadequação de métodos e das estratégias utilizadas pelos professores. O erro é uma oportunidade de autoconhecimento, assim como o fracasso. Quando se tem muito medo de errar, evita-se tentar para não se cometer erro. Não se aposta na incerteza, o que acaba afetando o desenvolvimento pela falta de desafios e inibe a possibilidade de novas conquistas. Isabel Parolin, psicopedagoga e pesquisadora na área de aprendizagem, defende preferir “a borracha a outros disfarces para algo tão comum em todo o processo de conhecer, que é errar! Ela, a borracha, é a bandeira a me alertar que é possível errar, pois está ali para viabilizar a correção de enganos. Apesar de entender que o processo é importante, que a visualização do erro nos ajuda a entender os acertos, a possibilidade de apagar e começar de novo é garantia de poder se autorregular…

 

Se eu errar, eu apago!” Independente do uso da borracha, o que se vai evidenciando nesse espaço reflexivo é a importância da postura dos adultos perante o erro na vida das crianças e a importância que este representa para alicerçar o desenvolvimento em todas as suas instâncias. O erro é concebido como uma alavanca para aprendizagem, por esse motivo, não se pode prescindir dele! Segundo John Holt, “As crianças que ficam preocupadas em errar (porque pais e professor são preocupados com isso) podem ser particularmente propensas a culpar-se por qualquer confusão que façam.” Essas crianças tendem a se fechar para novas experiências em uma tentativa de permanecer confortáveis como e onde se encontram. Por isso, mesmo não sendo o que teriam vontade, apenas reproduzem o que sabem estar correto, para não desafiar a ordem imposta com uma ação não desejada. Por outro lado, quando os pares educativos (sejam professores, famílias e colegas) encaram o erro de forma construtiva, dificilmente os alunos se sentem mal ou se inibem ao demonstrar o que sentem e o que sabem em nova situação de aprendizagem e de vida.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 56