O ensino por competências no modelo atual da educação

Na sociedade contemporânea, as rápidas transformações no mundo do trabalho, o avanço tecnológico e os meios de informação e comunicação incidem fortemente sobre a escola, exigindo do professor uma postura reflexiva e investigativa. Confira!

Texto Aline Fernanda Camargo Sampaio | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

O ensino por competências se tornou palavra de ordem na educação do Brasil e em diversos países onde se discute o tema. O objetivo dessa abordagem é ensinar aos alunos o que eles precisam aprender para se tornarem cidadãos conscientes, que saibam decidir, analisar e planejar, participando ativamente da sociedade em que vivem. Assim, para se desenvolver um ensino por competências, é imprescindível que os professores façam uma revisão de suas concepções, métodos e práticas pedagógicas, trabalhando por resolução de tarefas-problemas, propondo desafios que incitem os alunos a mobilizar seus conhecimentos. Nesse sentido, Denyer et alii (2007, p. 121) explicam: “Reflexionar sobre la enseñanza para volver a centrarla en la adquisición de competencias por medio de tareas-problemas que las competencias deberán concebir y ayudar a resolver implica, de parte de no pocos docentes, una revisión fundamental de sus concepciones y de sus métodos, un cambio radical de sus prácticas pedagógicas y una inversión económica considerable.” Fato é que, ao se trabalhar na visão e nas atribuições das competências, busca-se um equilíbrio entre a teoria e a prática, em que os alunos possam não somente conhecer, mas compreender o mundo e agir sobre ele.

 
O professor deve ser capaz de identificar e de valorizar suas próprias competências, conforme assegura Perrenoud (2001, p. 15): “Competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos, como saberes, habilidades e informações, para solucionar problemas com pertinência e eficácia.” Sob esse aspecto, vale salientar uma das ideias propostas por Piaget (1981), o qual defende uma educação voltada para a formação de pessoas capazes de criar coisas novas, e não simplesmente de repetir o que as outras gerações fizeram. Para compreender as competências é necessário, inicialmente, entender a questão da fragmentação disciplinar que hoje impera no meio educacional. Esse fenômeno se refere à quantidade de disciplinas básicas que se expandiram, gerando “disciplinas dentro de disciplinas”. Pode-se citar como exemplo, a disciplina de Língua Portuguesa, comumente dividida em três componentes curriculares: gramática, literatura e redação, o que propicia uma dispersão de conteúdo para o aluno, uma vez que é ministrada, em geral, por diferentes professores. Na realidade, o problema não está em trabalhar esses conteúdos, mas sim, na forma como são abordados. Cada docente não pode isolar-se em uma dessas disciplinas, pois deve necessariamente interagir com os demais professores não só no planejamento, mas em toda a prática pedagógica. Entretanto, percebe-se que tal interação, muitas vezes, não ocorre, em virtude da falta de diálogo entre os profissionais da área. Como resultado desse processo de fragmentação disciplinar, tem-se um desempenho insatisfatório em leitura e produção escrita, apresentado por grande parte dos alunos egressos do Ensino Fundamental, como apontam diversas pesquisas.

 
O Brasil, nos exames do Programa Internacional de Avaliação de alunos (PISA) de 2000, 2003 e 2006 ocupou as últimas posições no que tange ao uso da língua materna. Também o Índice Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), divulgado em 2012, pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, revela que apenas 26% dos brasileiros, com idade entre 15 e 64 anos, são considerados leitores proficientes, isto é, têm o pleno domínio da leitura e da escrita. Entre os 74% restantes, as habilidades de leitura e escrita são rudimentares ou básicas, limitando-se à compreensão de títulos, frases e textos curtos. Desses 74% de brasileiros, 27% são considerados analfabetos funcionais, ou seja, mesmo sendo capazes de ler e escrever um enunciado simples, como um bilhete, ainda não têm as habilidades de leitura, escrita e cálculo necessárias para participar da vida social em suas diversas dimensões: no âmbito comunitário,
no universo do trabalho e na política.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 62