O Despertar das Potencialidades – Entrevista com Bianca Acampora

Conversamos com Bianca Acampora, doutora em Ciências da Educação, mestre em Cognição e Linguagem, pedagoga, psicopedagoga e assessora pedagógica, sobre o potencial dos alunos

Texto Redação | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Reprodução

 

 

Na sua opinião as escolas estão, de um modo geral, capacitadas para desenvolverem as potencialidades dos alunos? O que deve ser feito para que haja esse desenvolvimento?
As escolas atuais estão muito focadas no cognitivo. É importante trabalhar também as habilidades socioemocionais, pois de nada adianta pessoas altamente inteligentes que não sabem conviver, ganhar, perder, tolerar frustração e ter iniciativa. A escola para tal, pode oferecer aos alunos atividades diversificadas, envolvendo expressões artísticas, atividades físicas, oficinas de empreendedorismo, atividades em grupo, ofertando aulas que tenham situações em que os alunos possam resolver problemas. Tais atividades estimulam os dois hemisférios cerebrais e
nas funções executivas, auxiliando o aluno a monitorar, avaliar e autorregular suas emoções, ajudando na aprendizagem.

 

Existem indivíduos que não conseguem aprender?
Não existem. Os estudos mais atuais da Neurociência na aprendizagem indica que todos podem aprender, entretanto, se o indivíduo possui uma déficit cognitivo, uma paralisia cerebral, sua aprendizagem possui um ritmo diferente e ele poderá aprender mais lentamente e com dificuldades para cálculos avançados, por exemplo. Aprender é uma questão de foco, organização e ritmo neural. Desta forma, não existem pessoas que não aprendem. O que existe são cérebros com ritmos neuronais, desejos e experiências diferentes e que recebem os mesmos estímulos/ informações/ conteúdos ao mesmo tempo e coletivamente na sala de aula.

 

Já foi comprovado que o cérebro modifica ao longo da existência, então, como estimulá-lo para um ganho de aprendizagem?O ser humano nasce com aproximadamente 88 bilhões de neurônios e cada neurônio tem uma capacidade de produzir milhões de novas conexões, quando estimulados desenvolvem uma capacidade denominada plasticidade neural/ cerebral, ou seja, quando o funcionamento do sistema motor e perceptivo sofre estímulos baseados em mudanças no ambiente, através da conexão e (re)conexão das sinapses nervosas. No âmbito da aprendizagem deve-se possibilitar aprendizagens significativas, onde o aluno possa experimentar, vivenciar, trocar experiências, e lembrar do conteúdo do que foi tratado, nas formas diferentes das tradicionais, ou seja no quadro e no livro. O professor deve inovar nos diferentes conteúdos, pois o cérebro faz novas conexões e fortalece as já existentes quando vivencia, experimenta e lembra, principalmente se for de forma prazerosa.

 

Como a neurociência pode contribuirpara orientar a pesquisa educacional?
A Neurociência integrada à Educação possibilita ao professor tornar-se um mediador do como ensinar com qualidade, por meio de recursos neuropedagógicos que estimulem o aluno a pensar sobre o pensar, a criatividade, a metacognição, as relações sociais e afetivas. Dessa forma, o professor pode promover os estímulos corretos no momento certo para que o aluno possa integrar,
associar e entender os conteúdos e as informações trabalhados com o mundo em que vive. De acordo com a Neurociência, aprender é um processo fisiológico e envolve o bom funcionamento de todo o organismo, onde emoção e cognição caminham de forma integrada e conectada; dessa forma, a sala de aula precisa ser um ambiente agradável e o aprendizado, prazeroso Os professores devem propor desafios em vez de ameaças. A atenção da criança dificilmente se mantém por mais que os primeiros 10 minutos da aula, por isso, se propõe aulas mais curtas que os tradicionais 50 minutos, com pausas e exercícios diferentes, para ajudar a memorização. Muitas avaliações sobre muito conteúdo, num curto espaço do tempo, dificultam a memorização, então, uma semana de provas faz mal ao aprendizado de longo prazo. É melhor espalhar avaliações ao longo do tempo. As aulas devem começar mais tarde, especialmente no ensino médio, pois os adolescentes acordam mais tarde que as crianças. Estar desperto ajuda muito no aprendizado. O professor deve estimular no aluno a percepção, a atenção e a memória, pois estes três elementos juntos fazem acontecer a aprendizagem, ninguém memoriza o que não prestou atenção. Então, atividades diversificadas, que despertem a atenção do aluno, serão memorizadas e apreendidas.

 

Revista Conhecimento Prático: Língua Portuguesa Ed. 64