O currículo por competências

O objetivo do currículo por competências é o uso do conhecimento para enfrentar as situações de ordem pessoal, educacional, profissional, pública e científica. Saiba mais

Texto Lenaldo da Silva | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Recentemente, assistimos ao aparecimento de uma nova proposta a acrescentar às duas, “currículo por conteúdos” e “currículo por aprendizagens”. Essa, uma nova proposta que cada vez toma mais força, deu lugar à expressão: “currículo por competências” ou “currículo apoiado em competências”. Essa expressão que era desconhecida até então no mundo educacional regrado, é agora muito utilizada e faz parte de muitos dos atuais discursos, sobretudo, teóricos e oficiais acerca do currículo. Que contribui essa nova maneira de organizar o currículo? Do que se trata realmente? Tais indagações nos remetem a refletir até que ponto essas novas expressões contribuem com novas ideias e, sobretudo, oferecem soluções operacionais aos problemas que o currículo tem na prática, no sistema educativo. Quando nos referimos ao currículo, é claro que estamos fazendo referência à acepção de perícia, aptidão, competência ou capacidade para fazer algo. Portanto, convém esclarecer que não estamos falando da competência como atribuição, como legitimidade para fazer algo, mas sim como perícia, como habilidade ou possibilidade de fazer algo de maneira adequada. Entendemos que a competência se associa à perícia e que, por isso, a pessoa competente é uma pessoa perita, não somente uma pessoa que tem conhecimento, mas que sabe aplicá-lo. Ficaria, portanto, estabelecido que a competência deve estar associada ao uso ou utilização do conhecimento em um determinado contexto para enfrentar situação problemática. Defendemos a tese de que o currículo baseado em competências significa, precisamente, que os conhecimentos em que são aplicáveis nesses contextos para realizações com sentido nesses contextos. Ou dito de outra maneira, que é esse o critério fundamental a seguir na hora de tomar qualquer decisão que afete as questões estruturais: conteúdos, atividades, avaliação etc.

 

Enfatizamos que um currículo por competências apresenta como finalidade própria o uso do conhecimento para enfrentar as situações de ordem pessoal, educacional, profissional, pública e científica. E que, em consequência, as possíveis aprendizagens que não tiverem relevância nesses contextos deixariam de ser interessantes, a partir de uma visão de currículo por competências. Consideramos uma das condições indispensáveis para o alcance da tão sonhada educação de qualidade, as aprendizagens significativas e o seu uso. Devem ser propostas e discutidas junto aos aprendizes questões que interessem e que estejam de acordo com uma concepção emancipatória de educação. Já que a educação é um meio de preparação do indivíduo para a vida, para tornar-se cidadão, como colocar essa premissa em prática com, em sua grande maioria, sistemas de ensino adotando uma postura unilateral, sem aderir às mudanças implementadas pelo mundo moderno? É preciso contribuir para que a escola desempenhe, verdadeiramente, o seu papel social de produtora de conhecimentos e de difusora cultural.

 

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica preconizam propostas curriculares que contemplam a transversalidade temática e a adequação às qualidades socioculturais. É apontada, dessa forma, a necessidade de um currículo em que flexibilidade, abertura, autonomia e adequação sejam primordiais. Defender que se devem aprender coisas sem se perguntar por seu uso e pelo interesse associado é abrir o currículo a um amontoado indeterminável de aprendizagens sem critério claro sobre as prioridades a estabelecer. É preciso levar em conta que um dos problemas mais importantes que se teria de enfrentar no momento de construir o currículo é a relação dos conteúdos, a introdução de disciplinas que, contribuam realmente para o  desenvolvimento sócio-político e cultural dos educandos e aprendizagens associadas. Esta seleção deve ser cuidadosa e estar estabelecida sobre critérios claros porque tem de ser justificada socialmente. Pense-se que, além disso, os conhecimentos são avaliados e, como conseqüência dessa avaliação, os estudantes serão orientados e/ou classificados socialmente. Não se pode aprender tudo, nem de tudo. O uso e relevância social do que se deve aprender são, sem dúvida, fundamentais. Podemos, portanto, concluir que separar o conhecimento dos contextos de uso para os quais previsivelmente é útil equivale a deixar o currículo sem o norte nem guia na hora de selecionar os conhecimentos relevantes. Na realidade, e infelizmente, isso não costuma ser dessa forma em nossos sistemas educativos.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 53