Nossa língua não é machista

Uma visão do básico sobre gênero na língua portuguesa.

Por Leo Ricino* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A variação de gênero em nossa língua advém da necessidade de se indicar o sexo natural dos seres e o gênero neutro gramatical das coisas. Como não existe oficialmente o gênero neutro em português, os substantivos são distribuídos em masculinos e femininos. No reino animal (o dos seres, incluindo os homens), não há dúvida sobre o que é masculino ou feminino, embora haja os substantivos epicenos, que se referem a animais, cujo sexo, por alguma dificuldade (visual, perigo, distância), é indicado pelas palavras macho e fêmea, mas o gênero é sempre definido.

 

Em relação às coisas, o gênero é meramente gramatical, aleatório e convencional, e, por isso, não há necessidade de ser comprovado pelo sexo. Nesse caso, como o “sexo” é aleatório, o gênero também o será e dependerá até de cada língua e de cada época. Assim, em castelhano, por exemplo, nariz e sangue são femininos, assim como mar e dente em francês. Em português, nariz, sangue, dente e mar são masculinos.

 

 

Consagração pelo uso

Drummond disse que lutar contra as palavras é luta vã. Parafraseando-o, dizemos que lutar contra tendências também o é. Quem conseguirá manter a palavra grama, unidade de massa que corresponde à milésima parte do quilograma e cujo símbolo universal é g, como masculina? A influência da outra grama, a relva, tem sido avassaladora e o povo pede mesmo trezentas gramas de presunto e pronto! O VOLP e os dicionários mantêm a palavra como masculina, mas a língua do povo já se encarregou de mudar-lhe o gênero e o…‘sexo’, travestindo-a para a graça feminina. Outra palavrinha que o povo não engole como masculina é dó, no sentido de pena. A maioria a emprega como feminina, contra todos os dicionários e o VOLP, que insistem em dizê-la masculina. Por falar em VOLP, a quinta (e mais recente) edição traz o adjetivo diabético só como se fosse substantivo. Mais um dos vários erros na publicação.

 

Tempos atrás, diabete já foi masculino. Hoje, os dicionários Houaiss e Aurélio já a tratam como substantivo de dois gêneros e dois números, embora nenhum dos dois dicionaristas tenha dado exemplo da variação numérica desse termo. E mais ainda, a forma diabete está desaparecendo, para ceder a diabetes. O Aulete apresenta-a apenas como substantivo masculino e feminino.

 

O bom é que, uma vez aceita a forma, ninguém fica questionando muito por que essa palavra é masculina e aquela é feminina. Nem é possível estabelecer que palavras terminadas em A são femininas e palavras terminadas em O são masculinas. Assim, a matemática, a pintura, a dança, a cultura. Mas… o telefonema, o guarda, o eczema, o formicida, o fantasma (já foi usado no feminino também), o pirata, o agiota, o dia, o mapa (feminino até o século XVI) etc. Já em O, temos o oceano, o manto, o olho, o ovo, o galo, mas a tribo, que, para os seiscentistas, era tão correto quanto o tribo.

 

Nomes terminados em –e são relutantes e se dividem democraticamente entre masculinos e femininos: o pente, o mestre, o dente, o telefone, o chicote, o cacete, o canivete, o guindaste, mas a grade, a mente, a hélice, a laringe, a faringe, a neve, a noite, a tese, a árvore, a catástrofe (antigamente era masculino), etc.

 

Uma língua democrática

Posto tudo isso, podemos afirmar que, dentre outras coisas, nossa língua portuguesa apresenta um grande ponto a seu favor: não é machista. Ela é suave, vocálica (não há sílaba onde um fonema vogal não esteja representado na escrita, razão por que palavras como “pneu” só tem uma sílaba e “feldspato” tem três), analítica, com casos de flexões curiosos; nela o emprego verbal da segunda pessoa, singular ou plural, está rareando cada vez mais no Brasil e tantas outras coisas naturais na história de um idioma. Mas… machista ela nunca foi.

 

Ao contrário, há casos em que temos a possibilidade feminina e a forma masculina é absolutamente neutra. Com certeza, nunca houve uma mulher exercendo a função de papa, mas a língua, antecipando-se ao possível fato, oferta o seu feminino: papisa. E assim com outros femininos exóticos: profetisa, episcopisa (de bispo), pitonisa (de píton), sacerdotisa (de sacerdote), diaconisa (de diácono) etc.

 

É claro que a língua evolui com o todo da sociedade. Houve época em que muitas funções eram exercidas exclusivamente por homens e sua forma se consagrou, mas as mulheres de há muito vêm galgando degraus e mais degraus na escada social e exercem hoje tantas funções quanto os homens. Se a língua é um sistema social e se a sociedade é composta por homens e mulheres, por que a língua reservaria só aos homens as funções e os nomes das funções?

 

Por isso: oficiala de justiça, generala, presidenta, profetisa, mestra, doutora, professora, editora, música (musicista) estão aí à disposição do usuário. O que há de aberração nessas corretas e simpáticas formas do nosso feminino? Absolutamente nenhuma. Professor, mostre isso a seus alunos. Discuta com eles essas formas diferentes e nobres do feminino.

 

Lembre-os: o problema do gênero na língua é complexo, mas essa complexidade passa despercebida pela maioria dos usuários.

 

Quando há sexo, é fácil estabelecer o gênero. Mas, quando a coisa ou ser nomeado não tem sexo, como estabelecer seu gênero? Nesse caso, é aleatório, por convenção e meramente gramatical. O uso consagra o costume. Ou vice-versa. Assim, é a caneta, a janela, a mesa, a parede, a garrafa, tanto quanto o lápis, o livro, o computador, o tronco, etc. Tudo aleatório e gramaticalmente consagrado. Porém, nada definitivo.

 

Nossa língua apresenta formas masculinas e formas femininas: homem x mulher; cavalo x égua, etc. Porém, há casos em que a mesma forma atende aos dois gêneros: o dentista, a dentista; o pianista, a pianista; o socialista, a socialista, etc. Como essas formas se referem a pessoas, dizemo-las substantivos comuns de dois gêneros. Também se referindo a pessoas, há caso em que a forma é única e genericamente invariável: a criança (menino ou menina), a pessoa (homem ou mulher), o cônjuge (marido ou esposa), etc. Esses substantivos são os sobrecomuns.

 

Conforme todos se lembram, há ainda uma forma semelhante à do parágrafo anterior, porém referindo-se aos animais: o jacaré é substantivo masculino referindo-se ao macho ou à fêmea, cujo sexo será indicado por essas palavras. A cobra é substantivo feminino referindo-se ao macho ou à fêmea, etc. Esses são os epicenos.

 

 

Casos especiais

Aqui, professor, vamos ver alguns casos curiosos e comprobatórios de como a língua portuguesa não é machista. Há palavras que até hoje lutam por uma definição genérica e, enquanto não há essa definição, são usadas ora como masculinas, ora como femininas. É o caso da palavra personagem. A palavra pijama já vem como masculina no Houaiss e no Aulete, mas como masculina e feminina no Aurélio. E há palavras cuja definição genérica está longe de atingir seu fim:

 

Porto x porta: ambas dizem a mesma coisa, possibilidade de entrada e saída. O povo optou por porta ser a entrada e a saída da casa, do escritório, do apartamento, enquanto porto passou a ser a entrada e a saída de grandes e pequenas coisas via marítima. Serviu para formar aeroporto, heliporto (diferente de heliponto, que é um ponto ou local onde um helicóptero pode pousar).

Jarro x jarra: têm nos dicionários as mesmas definições:

“Jarro: 1. Vaso alto e bojudo, com asa e bico, próprio para água, e us., em geral, para deitar água às mãos ou na bacia onde se lavam as mãos; jarra.” – diz o Aurélio.

Barco x barca: também há muita indefinição nos dicionários, e fica-se sem saber quando é um barco, quando é uma barca. O Houaiss, referindo-se a barco, diz:

“1.1 qualquer embarcação miúda, com ou sem coberta”.

E, referindo-se a barca, diz:

“2 Rubrica: termo de marinha, embarcação miúda a vela, de apenas um mastro.”

3 Rubrica: termo de marinha. Diacronismo: antigo. embarcação a vela, que possui três mastros e gurupés; brigue-barca”

Ou seja, barco é “embarcação miúda” e barca também, só que a vela.

Copo x copa: o povo acabou dando à copa o sentido de “Compartimento da casa onde se lavam e se guardam as louças e talheres de uso diário, certos gêneros alimentícios, etc. e onde, em geral, há mesa de refeições” (Aurélio). Mas copa também é copo, como temos na primeira definição da palavra copa no mesmo dicionário: “1. Ant. Vaso covo; taça, copo.”

Saco x saca: também há grande indefinição genérica. O Houaiss nos diz que saca é “1 saco (‘receptáculo’) largo e comprido us. no comércio e tb. como medida”. Já para definir saca, diz: “1 receptáculo depano, papel, couro, borracha ou material plástico, aberto apenas por cima”.

E para encerrar, mais um desses casos curiosos e para o qual a força popular deu a solução:

Poço x poça: Aliás, caro colega, essa indefinição genérica inicial é que faz com que a pronúncia da forma feminina seja tão fechada quanto a do masculino: “pôça”. Para os que tinham dúvida se era “pôça d’água” ou “póça d’água” tem aí o motivo por que a forma fechada é a lógica.

O povo, na sua sabedoria, deu a definição para as duas palavras. A forma masculina, poço, ficou para a depressão profunda, vertical; a forma feminina, poça, fica para a depressão superficial, a água se espalha horizontalmente. E conseguimos conviver harmoniosamente com essas definições.

 

 

 

Um caso especialíssimo

Merece atenção especial o caso de poeta e poetisa. Uma revista da nossa área trouxe recentemente a seguinte chamada de capa: “A poeta Cora Coralina no Museu da Língua Portuguesa”.

 

Talvez os femininos mais exóticos e mais doces de nossa língua sejam os formados com o sonoro, sibilante e deslizante sufixo ISA: profeta faz profetisa; píton faz pitonisa; sacerdote faz sacerdotisa, diácono faz diaconisa; papa faz papisa; bispo faz episcopisa (apesar de, nas várias seitas, tanto insistirem em chamá-las de bispas que o VOLP teve de acatar essa forma).

 

O VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, em sua 5.ª edição, atualizada com o recente acordo ortográfico, só registra poeta como substantivo masculino e poetisa como substantivo feminino. Ou seja, para a Academia Brasileira de Letras, órgão responsável pela elaboração do VOLP, que é o conjunto oficial das palavras de nossa língua, há uma forma para o masculino e outra para o feminino. Os dicionários que consultei, o Aurélio, o Houaiss e o Aulete, todos trazem da mesma forma.

 

Então, por que Cora Coralina, Cecília Meireles, Adélia Prado, Hilda Hislt e novatas (ou menos conhecidas) como Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Mariana Ianelli, Cláudia Roquete-Pinto, Viviane Mosé e Goimar Dantas, autoras de primeiro quilate, têm de ser chamadas de “poeta”? Alguém cismou que “poetisa” é uma forma jocosa e a subserviência se encarregou de quase banir a palavra do nosso vocabulário, sem uma análise, sem reflexão. Não se usou mais e pronto!

 

Um poeta é um poeta; uma poetisa é uma poetisa. E ambos produzem textos poéticos, em versos ou em prosa. Será que a mulher terá de se travestir de homem toda vez que assumir um papel do Homem? Ora, nesse sentido, mulher também é Homem. Sábio o latim que tinha vir e mulher, enquanto Homem era ontológico. Será que a mulher será oficial de justiça, engenheiro, doutor, médico, presidente, parente? Por que aceitamos doutora e torcemos o nariz para oficiala de justiça, presidenta, mestra, etc.?

 

PRESIDENTE ou PRESIDENTA?

Por falar nisso, tivemos presidente ou presidenta? Não, não se está realmente indagando sobre o futuro do País não! É apenas um questionamento sobre se existe a forma PRESIDENTA. O VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), que é o registro oficial do vocabulário do Brasil, traz PRESIDENTA como possibilidade, ao lado de PRESIDENTE, para indicar uma mulher exercendo o cargo. Curiosamente, o VOLP também registra, CLIENTA, ao lado de CLIENTE, para a mulher.

 

Vamos ver se há alguma lógica nisso. Olhando a origem das palavras, PRESIDENTE vem de praesìdens,éntis, e cliente vem cliens,entis. Como se pode ver, é o mesmo processo e, portanto, justo que, se há PRESIDENTA, por que não haveria CLIENTA?

 

Mas aí fomos atrás de outras palavras que apresentam o mesmo processo de evolução do latim para o português e encontramos residente, residens,entis, vidente, vìdens,éntis, docente, docens,entis, doente, dolens,éntis, discente, discens,entis. Como se pode ver, todas com a mesma terminação e, portanto, com o mesmo processo de passagem do latim para o português. Porém, para nenhuma delas há registro oficial do feminino em A, como ocorre com CLIENTA e PRESIDENTA.

 

Em favor do VOLP, vamos afirmar que presidente e cliente eles consideram substantivos e as demais palavras acima (vidente, docente, doente, discente) eles consideram adjetivo. O problema é que tanto o substantivo quanto o adjetivo variam em gênero.

 

De qualquer forma, sou pelo feminino próprio. Se há possibilidade de a mulher ser a presidenta, ela que se adote como presidenta e não como a presidente. Assim também os deliciosos femininos de profissões ou ações antes só masculinas: generala, coronela, capitana, espiscopisa (agora já há a forma bispa também), papisa, poetisa, profetisa, pitonisa (o masculino é píton), sacerdotisa, diaconisa, etc.

 

Pessoalmente acho sonoro e eufônico presidenta, não presidente, poetisa, e não poeta para mulher. Assim como acho sonoro e simpático que a mulher seja mestra, maestrina e até oficiala, mas essa última não está registrada no VOLP. De qualquer forma, está na hora de acabar com esse melindre, e a mulher assumir que atua como Homem e em absoluta igualdade de condição com os homens. E deve bradar: “Sou poetisa, sim, senhor!”, “Sou a presidenta da companhia tal, do Brasil!”, “Sou generala do Exército!”, “Sou a chefa desse escritório!” etc. etc.

 

Discuta com seus alunos que, se a mulher não assumir isso, mais difícil  ca o campo ainda extenso a ser conquistado por elas.

 

 

SUBSTANTIVOS EPICENOS

Epicenos ou “promíscuos” são os substantivos que, referindo-se aos animais, apresentam uma forma genérica fi xa e designam o sexo com as palavras macho ou fêmea. Confira alguns na lista abaixo:

– Águia – Avestruz – Baleia
– Barata – Besouro – Borboleta
– Cobra – Condor – Crocodilo
– Gavião – Girafa – Jacaré
– Mosca – Minhoca – Onça
– Polvo – Pulga – Rouxinol
– Sabiá – Sardinha – Tainha
– Tatu – Tigre

ALÔ, PROFESSOR!

Ao discutir sobre gênero, o professor de português pode mostrar a seus alunos que, na passagem do latim para o português, houve mudança de gênero. Os substantivos, diz-nos Ismael de Lima Coutinho, cor, dor, parede, ponte, ordem, honra, fonte, couve, por exemplo, eram masculinos no latim. Já paul (pântano), pórtico, vale, pez (resina) eram femininos e viraram masculinos. E a forma “senhor” já foi comum de dois gêneros no início de nossa língua: os trovadores diziam “mia senhor”.

 

*Leo Ricino é mestre em Comunicação e Letras, Instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young e professor na Fecap.

Foto: Revista Conhecimento Prático – Língua Portuguesa Ed. 23