Mauricio de Sousa: uma vida dedicada aos quadrinhos

Por Worney Almeida de Souza

O quadrinhista Mauricio de Sousa hoje é um empresário de sucesso. Com a Turma da Mônica, construiu um grande complexo artístico, que inclui publicações, desenhos animados, teatro, parques temáticos e uma infinidade de produtos. Mauricio de Sousa criou uma identidade para seus personagens e até para o próprio quadrinho nacional. A arte desenhada no país passou, desde os anos 70, a ser identificada com as revistas da Turma da Mônica. Não seria leviano dizer que Mauricio de Sousa é um divisor de águas na criação nacional e que imprimiu um padrão de produção que é imitado e tomado como referência não só no Brasil. A mais recente iniciativa de Mauricio de Sousa foi um grande acerto. A Turma da Mônica Jovem dimensionou os principais personagens para um futuro próximo, em que eles são adolescentes. Os desenhos e os roteiros também sofreram modificações; o estilo mangá construiu uma nova identidade para a Turma.

Com milhares de exemplares vendidos e sucessivas reedições, A Turma da Mônica Jovem aposta em novos leitores e anima um rol de novas possibilidades. Cultuado e homenageado em seus 50 anos de criação artística, Mauricio de Sousa começou timidamente como repórter do jornal “Folha de Manhã”, que resolveu publicar suas tiras de quadrinhos. Seus principais personagens eram o cachorrinho Bidu e o menino Franjinha, que eram editados em tiras, seis vezes por semana. Logo, surgiram Cebolinha e a turma do Piteco. No início dos anos 60, Mauricio publicou HQs completas na revista “Zaz Traz”, e seis números da revista “Bidu”, da editora Continental.

Em 1961, participa da ADESP (Associação dos Desenhistas do Estado de São Paulo) e é demitido do jornal. Nesse momento, resolve distribuir suas tiras em jornais semanais das cidades da grande São Paulo e logo estava publicando em dezenas de jornais. Volta para a “Folha de São Paulo” e cria, junto com Lenita Miranda Figueiredo, o suplemento dominical infantil e de quadrinhos chamado “Folhinha”, onde publica uma página colorida com Horácio, seu mais querido personagem. Em 1967, começa a licenciar seus personagens para produtos comerciais e produz as propagandas animadas para o extrato de tomate da Cica, em que Mônica contracenava com o elefante Jotalhão. A popularidade da turminha aumenta e requer uma nova empreitada- Até que em 1970 sai o primeiro número da revista da “Mônica” pela editora Abril, que marcaria uma evolução e uma mudança de rumo na criação e na produção dos estúdios de Mauricio de Sousa. Para conhecer melhor o período inicial da carreira do jovem Mauricio de Sousa, e sua participação na ADESP, reproduzimos uma entrevista com o quadrinhista, feita em janeiro de 2009.

Leia entrevista completa

Worney Almeida de Souza: Como foi a proposta para publicar as páginas de quadrinhos na editora Continental?
Mauricio: Foi gozado, porque eu já fazia as tirinhas na “Folha”, muita gente comentando e gostando, muita carta chegando, mas só que a onda era histórias de terror, não eram histórias cômicas, com cachorro, menino, crianças que eu fazia. Então, eu resolvi fazer uma história de terror, peguei umas revistas americanas e então fiz uma HQ com quatro páginas que se chamava “A Coisa”, ao estilo de Nick Holmes, e levei para a Continental, onde estava o Jayme Cortez, que era diretor artístico. Ele me recebeu e me disse: – Mauricio você que faz aquelas historinhas da “Folha”? Eu respondi que sim, e ele prosseguiu: – E por que você não faz páginas com aqueles personagens em vez de me trazer essa merda? Ele me disse que se eu levasse as páginas com meus personagens, a editora lançaria uma revista. Mas eu achei muita coisa e então levei algumas histórias que foram publicadas na revista “Zaz Traz”. Logo depois eu consegui fazer a revista inteira, a revista “Bidu”. Foi o Jayme Cortez que me orientou para fazer histórias com meus personagens. Imagine eu fazendo histórias de terror!

W: Mas por que só saíram seis edições da revista do “Bidu”?
Mauricio de Sousa: Porque eu não aguentava, trabalhava o dia todo como repórter e desenhava de madrugada, saía da redação às 10 da noite, chegava em casa, desenhava até às 3 horas da madrugada e tinha que acordar cedo, não dava. Eu recebia por página, a revista vendia mais que as outras, mas mesmo assim não era interessante para a editora, o importante era ter uma grande quantidade de revistas nas bancas, para dar volume e mais lucro. Mas ainda não era o momento de ter uma revista em quadrinhos.

W: Como começou o trabalho de criação da ADESP e seus primeiros passos?
Mauricio: Fomos convidados para fazer um dossiê a pedido de um assessor do presidente da República e comecei a frequentar as reuniões do pessoal, eu não era presidente, não tinha presidente, mas tinha que ter, e como eu era jornalista o pessoal achou que como trabalhava em jornal eu tinha mais facilidade de divulgar o que estávamos fazendo, daí me aclamaram presidente da associação lá no prédio Martinelli, onde era o estúdio dos quatro (Waldir Ygayara, Lyrio Aragão, Julio Shimamoto e Luiz Saidenberg). Aí começamos a trabalhar. Falei com desenhistas de outros estados: Pernambuco, Rio de Janeiro (o maior expoente era o José Geraldo) e Rio Grande do Sul. Sugeri a eles que se reunissem para que fortalecesse a ideia da proteção das histórias em quadrinhos. Havia alguma divisão de opiniões. Eu não era político e não queria emprestar esse caso a cores políticas. E naquele tempo tudo era direita ou esquerda, eu só queria trabalhar e fazer histórias em quadrinhos, mas fui envolvido pelos colegas e virei presidente e tinha uma ala meio radical, eu dizia que a gente deveria brigar pela nossa história em quadrinhos, vamos concorrer fazendo boas histórias em quadrinhos, temia um pouco pelo radicalismo e dito e feito. Comecei a trabalhar na associação e a “Folha” (“Folha de São Paulo”) me chamou e disse que a associação era
coisa de comunista e que se eu não saísse não poderia continuar trabalhando no jornal, eu disse que não era comunista, mas não poderia trair meus colegas e fui embora, fui despedido. Eu fui para Mogi das Cruzes e comecei a vender minhas historinhas em clichê para os jornais das cidades vizinhas.

W: Esse foi o começo de sua distribuidora de tiras, em 1961?
Mauricio: Eu não só precisava fazer isso, como já tinha planos para isso. Pela tira que eu vendia, os jornais não pagavam mais do que pelo material americano. Eu estava na briga para defender o mercado nacional e na prática enfrentando a concorrência com as tiras americanas que chegavam aos jornais muito baratas.

W: Como era sua produção de tiras para o jornal “Folha de Manhã”?
Mauricio: Eu recebia por tira, não tinha um salário fixo, mas como publicava todo dia, conseguia planejar o orçamento. Cheguei a publicar três tiras por dia: Bidu, Cebolinha e Piteco. E fazia sozinho, sem equipe, sem nada.

W: Você trabalhava na redação do do jornal?
Mauricio: Trabalhava no jornal, mas não tinha mesa, nem nada, geralmente trabalhava em casa e entregava as tiras. Produzia três tiras por dia, seis dias por semana e era muito duro, principalmente porque não rendia nada! Eu fazia três tiras para ganhar pouco mais de um salário mínimo. Depois que eu fui demitido, fui para Mogi. Antes eu conversei com o pessoal da “Folha” e eles me cederam os clichês das tiras. Então eu juntei 115 clichês e me organizei para distribuir esses clichês, em sistema de rodízio, entre os jornais semanários, para salvar o leite da criançada. Mas não rendia muito, era uma dureza danada, atrasava aluguel, não conseguia comprar o que eu queria, pedia dinheiro emprestado para a família, era uma dureza de começo de carreira. Montei um sistema de distribuição, era tão difícil que eu pegava um compasso, colocava a ponta seca em Mogi das Cruzes e circulava até 100 quilômetros que eu conseguiria visitar de ônibus os jornais, mais que isso eu não tinha dinheiro. Era o aprendizado, estava aprendendo a vender, a redistribuir, fazendo os cálculos de custos, enquanto o pessoal estava ainda brigando pela nacionalização.

W: Qual era o preço pago pelas tiras?
Mauricio: O preço recebido pelas tiras era muito barato, ao que hoje seria R$ 2,00 ou R$ 3,00, não poderia ser maior do que se pagava pelas tiras americanas.

W: Depois que vocês constituíram a associação, aconteceram muitas reuniões?
Mauricio: Não muitas.

W: O que aconteceu depois da renúncia de Jânio Quadros?
Mauricio: Eu estava em casa e minha mulher veio com a notícia: o Jânio Quadros tinha renunciado. Como ia ficar toda a situação? Eu liguei para São Paulo e marcamos uma reunião de emergência entre o pessoal da Associação. Fomos lá, e todos indicaram que iríamos continuar a luta e todos estavam certos que iríamos continuar lutando pela nossa causa e então marcamos
uma nova reunião para a tarde seguinte, para definir os planos e a estratégia. No dia seguinte, eu fui para o Martinelli, só apareceram dois ou três, daí morreu o movimento, morreu a associação. Acabou pela renúncia do presidente. O pessoal viu que não teria mais apoio oficial, fomos deixados na mão, os jornais botaram todos nós numa lista negra, para não publicar nenhum trabalho nosso.

W: Isso também aconteceu nas editoras?
Mauricio: Nas editoras eu não conheço bem, mas foi a derrubada de todo o nosso trabalho.


W: Você recebeu uma proposta para publicar de CETPA, no Rio Grande do Sul?
Mauricio: E eu estava em Mogi pensando no que iria fazer da vida, até quando iriam os 115 clichês, porque eu precisava fazer mais tiras e mais clichês, quando eu recebi uma telefonema do Rio
Grande do Sul dizendo que estavam formando uma cooperativa de quadrinhistas com apoio do governo estadual de Leonel Brizola. Novamente, a política puxando a coisa e a maioria dos desenhistas da associação foi convidada para formar a cooperativa (Luiz Saidenberg, Julio Shimamoto e José Geraldo). O pessoal de Porto Alegre faria a minha revista e conseguiria distribuir minhas tiras, dariam uma casa e eu não pagaria nada. Eu conversei com a minha mulher e fiz uma avaliação geral da minha carreira: tinha sido repórter, os personagens estavam pegando, tinha feito uma revista (“Bidu” pela Editora Outubro), os jornais estavam aumentando o pedido de tiras e eu já podia aumentar o raio do compasso e eu pensei, pensei e resolvi não ir, eu fui o único que não foi. E daí se por um lado eu era comunista, por outro eu virei entreguista, vendido aos americanos, porque não estava querendo colaborar com o pessoal chamado nacionalista. Eu dizia que eu não iria porque não estava acreditando, pelo menos a curto prazo, em nenhuma lei protecionista que funcionasse, a gente iria apanhar dos dois lados, dos jornais, dos editores, o pessoal simplesmente ia parar de comprar nossas histórias, não pode publicar o material americano que faz sucesso, não ia publicar o nosso também, a briga tinha que ser outra, pela lei da oferta e da procura, tínhamos que fazer melhor que os americanos. Eu ainda não estava numa situação tranquila, mas eu aguentei e continuei abrindo o leque. Até que em 1964 eu mandava uns cupons com as histórias que tinha à disposição e recebi uma comunicação do Alberto Dines que era editor da “Tribuna da Imprensa”, do Rio de Janeiro, do Carlos Lacerda. O Carlos Lacerda era chamado
de direitista, ligado aos Estados Unidos, mas ele tinha resolvido encampar o lado nacionalista e uma das coisas era publicar uma história em quadrinhos brasileira no  jornal e encomendaram a tira do Piteco. Fizeram um carnaval danado sobre isso, com chamadas como: “Vem aí Piteco!”, “Um troglodita vai invadir o Rio de Janeiro!” e “Dinossauros estão chegando!”. Isso causou uma grande curiosidade e a tira foi um sucesso. Quando o Piteco saiu na “Tribuna da Imprensa”, um jornal direitista, o pessoal da “Folha de São Paulo” concluiu que eu não era comunista e me chamaram para elaborar, junto com a jornalista Lenita Figueiredo, um suplemento infantil chamado “Folhinha”. Então venci a resistência e eu voltei a publicar as tiras na “Folha de São Paulo” e assim eu publiquei vários e vários anos a página colorida do Horácio na “Folhinha”.

W: Quando você começou a distribuir tiras de outros desenhistas?
Mauricio: Foi depois que eu entrei na “Folhinha”, em 1963, eu montei um pequeno sindicato (distribuidora), eu chamei o Getulio Delphin, o Flavio Colin e começamos a fazer material para distribuir, mas ainda estava cru, o negócio era pequeno e meu material cômico saía muito mais do que o deles, que eram de aventura, e poderia dar impressão que eu privilegiava meu material, mas não era isso. Mas a publicação durou pouco, eu tentei, porque eu gostava do desenho do Colin, mas não conseguia distribuir. Então, eu resolvi cuidar só do meu material.

W: Quantos jornais recebiam o material de sua distribuidora?
Mauricio: No final da década de 60, eu cheguei a distribuir para 300 jornais entre tiras e tabloides. Já estava quase virando uma editora, tinha condições para isso.

W: Não tinha nenhuma proposta para publicar seus personagens nas bancas?
Mauricio: Em 1967 ou 1968 o pessoal da “Folha” me chamou para fazer uma revista. Eu dei material e rodaram as revistas. Eu tinha a chamada do lançamento publicada na “Folhinha”, das revistas que iam sair: Bidu, Cebolinha e Piteco. Rodaram e anunciamos, mas eu nunca vi uma revista dessas. Eles esconderam de mim, anunciaram, mas logo depois disseram que elas não iriam sair mais.

W: Por quê?
Mauricio: Não sei, um grande mistério. Mas mais ou menos na mesma época a editora Abril comunicou que também tinha desistido de fazer jornal diário. Se houve acordo ou não, eu não sei, mas de qualquer maneira foi sintomático.

W: Mas você chegou a publicar três livros?
Mauricio: Publiquei três livros pela editora FTD com o Astronauta, o Piteco e Niquinho, que eram tiras que saíam nos jornais do grupo dos “Diários Associados”.

W: Como foi o convite para publicar a revista da “Mônica” pela editora Abril?
Mauricio: Eu recebi uma proposta de um grupo de colegas jornalistas chefiados pelo Sinval Itacaranby, que hoje tem a revista “Imprensa”. Eles tinham saído da “Folha de São Paulo” e formaram uma editora e me convidaram para fazer uma revista da Mônica. Eu estava preparando material para a revista, em 1969, os personagens eram famosos, já tinha o desenho publicitário da Cica (com o Jotalhão e a Mônica), só faltava mesmo a revista. Fiz o material para a revista levei para a editora e não achei ninguém, todo mundo sumiu, onde estava o pessoal que ia fazer a minha revista? Depois eu descobri que todos estavam presos! E como já tinha o material na mão o pessoal da editora Abril me procurou para publicar e o primeiro número da revista “Mônica” saiu em 1970.

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