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Linguagem politicamente correta


Usando a ótica da Linguística e da Cultura, propomos uma reflexão a respeito da linguagem "politicamente correta", dando-lhe enfoque multicultural e as devidas análises sociais


por Nair Ferreira Gurgel do Amaral

Recentemente, quase dez anos depois da publicação do texto Baixa Auto-Estima é Tradição do Brasil, eis que me chega às mãos um texto assinado e contrariando as argumentações anteriores. Verifiquei, posteriormente, que o referido texto estava publicado em um site chamado Coluna do Lam, com o título de "O cravo não brigou com a rosa", assinado por um professor de História. O autor retoma a questão das cantigas infantis, defendendo a ideia de mantê-las conforme foram concebidas originalmente da oralidade, no que eu concordo plenamente, porém enfoca, também, como se fosse da mesma categoria de análise, a questão da linguagem politicamente correta. Vejamos um trecho de cada campo de análise:

- Da influência das músicas infantis no comportamento dos brasileiros:
Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada". Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete! [...] Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

- Da linguagem politicamente correta e suas possíveis consequências:
Dia desses alguém [...] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Nem é preciso frisar que o reducionismo impera nesse texto. Para não falar em fundamentalismo, radicalismo e outros "ismos" que tanto contribuem para a segregação social. Uma coisa é criticar a letra da música e mesmo se posicionar contrariamente ao que estão fazendo os educadores nas escolas; outra coisa é generalizar, com base na teoria do "politicamente correto", adotando posturas preconceituosas e discriminatórias. Se as letras das músicas infantis não devem ser alteradas (o que eu concordo), isso não significa que se possa pregar a violência verbal, o desrespeito e a intolerância em frases preconceituosas, como as usadas pelo autor.

É sabido que tudo que vem da cultura oral, portanto do folclore, não tem autoria. Foi colhido do povo, nas ruas, nas praças, nas comunidades. Alguém (geralmente um linguista, um antropólogo, um sociólogo, um psicólogo...) registrou, catalogou e passou a fazer parte da cultura letrada escrita. É claro que isso tem um ônus - esses textos vão sofrendo adaptações e perdendo muito da cultura original. Foi assim com os contos de fadas, com as fábulas, com as músicas do cancioneiro popular. Quem não se lembra de "Cuitelinho" e suas desastrosas adaptações feitas pelas duplas sertanejas? Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Pele de Asno, dentre outras, são exemplos inversos do que aconteceu com as cantigas infantis. Para cair no gosto infantil, elas sofreram adaptações que retiravam (supostamente) delas as ideias de violência física e/ou sexual. O didatismo sobrepôs à literatura e o "Era uma vez" tornou-se mesmo sinônimo de mentira, confirmado pelo chavão que as encerra: "E foram felizes para sempre".

O povo em sua cultura não esconde a realidade, ao contrário, conta-a por meio de uma linguagem simbólica, metafórica. É por isso que o cravo briga com a rosa, o soldado, cabeça de papel, marcha para o quartel, o Bitu tem medo de apanhar, o boi da cara preta pega as crianças que têm medo de careta. Não podemos esquecer a origem das cantigas de ninar, também conhecidas como acalantos folclóricos. Diferentes raízes étnicas podem ser constatadas nas cantigas de ninar, dentre elas a portuguesa, a indígena e a africana.

EXISTE UMA LINGUAGEM "POLITICAMENTE CORRETA"?
A respeito da linguagem "politicamente correta", há controvérsias em relação ao seu uso e aplicação. A primeira coisa que precisamos entender é que a linguagem não aceita patrulhamentos. É só lembrar as últimas ocorrências, algumas vencidas, outras nem tanto, porém todas muito contestadas. Estou falando da polêmica em torno do uso dos estrangeirismos (PL Aldo Rebelo), da duvidosa reforma ortográfica, da repercussão negativa na mídia do livro didático para a EJA - Educação de Jovens e Adultos.

Ainda sobre a expressão "Politicamente Correta", Andrea Semprini lembra que a mesma "foi tomada do jargão stalinista dos anos 50 que designava a obediência irrestrita à linha política ditada pelo comitê central". Atualmente, os que adotam o "pc" preocupam-se em evitar que a auto-estima das minorias sejam atingidas com humilhações e/ou ofensas. Assim, é implantada uma política de purificação da língua que quer "acrescentar ao idioma expressões e termos novos, a fim de valorizar os indivíduos e os grupos cuja importância é ignorada não somente pela atitude monocultural dos grupos dominantes, mas também pela linguagem, que não prevê termos para designá-los de maneira específica ou aceitável"

As duas correntes do "pc" utilizam-se das concepções de linguagem extremamente opostas: uma que vê a linguagem como um código controlador e outra que entende ser a linguagem uma forma de interação social. A grande diferença entre elas é que há uma terceira via a ser considerada: a língua[gem] nunca é neutra. Haverá sempre uma ideologia permeando os discursos. Portanto, se há uma certa utopia nas propostas da linguagem politicamente correta, há que se ter também o respeito pelo cidadão.

Os exemplos dados pelo professor de História são, na maioria, ofensivos, depreciativos e humilhantes. Não se trata mais de uma tentativa utópica de respeito, controlada pela língua. O que vemos em expressões como as abaixo relacionadas, é afronta, desaforo, ofensa mesmo.


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