Reportagens
Morfologia

Gênero real x gênero gramatical


Diferença entre gênero gramatical e real


por Leo Ricino*

CATEGORIAS GRAMATICAIS
Pode-se conceituar flexão como o conjunto das categorias gramaticais típicas para enquadrar internamente a palavra em gênero e número (flexões nominais) e em pessoa, modo, tempo e número (flexões verbais). Muitos, e me incorporo aí, não incluem o grau como flexão nominal por ele ser indicado por sufixos e não por desinências.

Diz-se internamente porque as flexões são aplicadas diretamente no final da palavra, através de desinências, enquadrando-a numa característica ou categoria típica. Ressalte-se a exceção da palavra QUALQUER, cuja variação ocorre no meio, porque é formada pelo pronome QUAL mais o verbo QUERER e só o pronome varia. Como ele vem antes do verbo, a flexão ocorre nele, QUAISQUER. Por isso essa posição diferente da flexão. As demais palavras flexionam-se no seu final.

No entanto, há enquadramento externo, provocado por concordância, como ocorre em "Cebola é ótimo para temperar comida", em que o adjetivo "ótimo" remete ao gênero neutro do substantivo "Cebola". Esse substantivo aí é neutro por ser assexuado e não vir modificado por nenhum determinante nessa frase. Basicamente são considerados determinantes três dos quatro súditos do substantivo: artigo, numeral e pronome.

OS DETERMINANTES
Esclarecendo melhor: o imenso reino dos nomes basicamente é formado por substâncias e qualidades. Substância é aquilo que existe e subsiste por si próprio. Portanto, independe de outros seres. Toda substância requer um nome, o substantivo. Já as qualidades não existem por si mesmas, precisam da substância para sua existência.

Assim, uma mesa, formada por determinado tipo de matéria, existe por si própria e, por ser concreta, até pode ser contada, mas, por exemplo, a qualidade "redonda", como distintiva dela, não existe por si só, ou seja, a "redondeza" depende de uma substância para existir, é abstrata, não pode ser contada. Em "mesa redonda" há, pois, uma substância (substantivo "mesa") e uma qualidade distintiva (adjetivo "redonda").

Enfatize-se esse caráter distintivo do adjetivo, motivo de sua nobreza no reino dos nomes. O "redonda", além de qualificar e caracterizar, distingue essa mesa de outra mesa, quadrada, retangular, hexagonal. É o adjetivo restritivo. Diferente do adjetivo explicativo, que, embora mantenha a força qualificativa, não tem esse papel distintivo. É o que ocorre em "gelo frio", já que todo gelo é necessariamente frio. Não há gelo quente, gelo meio quente, etc. Essa divisão natural do adjetivo em restritivo e explicativo acabou, na gramática normativa, restringindo-se às orações subordinadas adjetivas. Mas, de fato, ela existe nos adjetivos em geral, não interessa se em palavras ou orações.

Quando a qualidade ganha status de nome (redondo > redondeza) vira um substantivo abstrato, que, como as qualidades, não tem existência própria nem pode ser contado. Aliás, os substantivos abstratos derivados de adjetivos são grafados sempre com o sufixo EZ ou EZA: belo > beleza; limpo > limpeza; ácido > acidez; claro > clareza, etc.

Os determinantes do gênero de uma palavra são os artigos, os numerais e os pronomes, com a função de quantificar, definir, generalizar, enfim, todos os substantivos

Já os artigos, os numerais e os pronomes não apresentam essa força qualificativa e distintiva típica dos adjetivos e subordinam-se aos substantivos apenas individualizando-os ou generalizando-os (artigos definidos e indefinidos); quantificando, posicionando, dividindo ou multiplicando-os (numerais); apontando, relacionando, substituindo-os, etc. (pronomes).

Por não terem esse papel qualificativo nem distintivo, auxiliam o substantivo apenas enquadrando-os na sua espécie, um sintagma nominal. São os determinantes. Enfim, hierarquicamente, um adjetivo é mais do que um artigo, um numeral e um pronome, porque o adjetivo pertence por essência ao reino dos nomes e até pode gerar substantivos abstratos. Nesse sentido, adjetivo é uma espécie de hiperônimo dentro do qual seus irmãos hipônimos - artigo, numeral e pronome, os determinantes - se enquadram, todos à disposição do substantivo.

CLASSES GRAMATICAIS
As palavras de nossa língua são distribuídas em dez classes gramaticais, quatro delas sem categoria gramatical alguma, o que quer dizer sem qualquer variação ou flexão indicativa de gênero, número, etc.: preposição, conjunção, advérbio e interjeições. São, portanto, palavras naturalmente invariáveis, isto é, não aceitam flexões.

As outras seis classes são divididas em dois grupos, um relacionado aos nomes - substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome -; outro relacionado ao que acontece - verbo e advérbio.

No primeiro grupo, dos nomes, todas as palavras apresentam variações internas, para adequação às categorias: número e gênero; no segundo grupo, só o verbo sofre variações, que o enquadram em pessoa, número, etc. O advérbio, como já vimos, é palavra invariável.

Essa categorização interna, isto é, a variação no final da própria palavra, é normalmente feita pelas chamadas desinências, partículas insignificativas colocadas no final dos vocábulos para indicar-lhes o gênero, o número, a pessoa, etc. Ou seja, as desinências indicam as flexões das e nas palavras.

SUFIXOS X DESINÊNCIAS
Não devemos, pois, confundir desinências com sufixos. Os sufixos são elementos formadores de novas palavras; as desinências apenas enquadram as palavras em categorias: masculinas, femininas, singular, plural, etc. Muitas vezes, diga-se, a desinência aparece embutida no próprio sufixo, como na palavra "enfermeira", na qual esse "a" final se infiltrou no prefixo "eiro" para levar a palavra ao feminino.

O BÁSICO
Basicamente, a desinência O categoriza o masculino; o A, o feminino; o S, o plural; o MOS, a primeira pessoal do plural, etc. Mas nem todo substantivo terminado em A é feminino, como planeta, mapa, etc. Aliás, essas palavras já foram femininas na língua. E também nem toda palavra terminada em O (átono, tônico ou reduzido) é masculina, como tribo, avó, etc.


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