Regionalismo
 A linguagem do Rei Luiz
O falar do nordestino sempre foi exaltado nas letras de músicas de Luiz Gonzaga. Através delas, ele ressaltou o caráter oral e popular da língua, valendo-se de alterações na pronúncia, no léxico e na morfossintaxe por Edmilson José de Sá*
Estudos relacionados à heterogeneidade da Língua Portuguesa não são tão recentes, seja na perspectiva sociolinguística, quando é averiguada a interferência de elementos sociais nas variações encontradas na fala espontânea, seja na dialetologia, momento em que as peculiaridades dos falares de uma dada comunidade são interpretadas cartograficamente. Há, porém, estudos mais recentes que agregam as duas perspectivas, isto é, fatores extralinguísticos como sexo, faixa etária e escolaridade são levados em conta na análise das variantes inseridas numa carta linguística, construída conforme o mapa da região investigada.
A variação linguística é recorrente na oralidade e, nas letras de música, isso não é diferente, principalmente quando, nessas letras, são inseridas reflexões sobre a vida real, fato notadamente encontrado nas composições de Luiz Gonzaga, que teve o intuito de manter as influências culturais e linguísticas do Nordeste, região onde ele mesmo nasceu.
UMA HISTÓRIA DE CEM ANOS
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 13 de dezembro de 1912, numa fazenda da zona rural do município de Exu, no Sertão do Araripe, a 630km da capital do estado de Pernambuco. Problemas amorosos e a não aceitação da família fizeram Luiz fugir de casa para o Ceará, ainda jovem, onde se alistou no exército. Daí para conhecer outros estados foi um pulo, até se tornar conhecido no Rio de Janeiro, onde passou a tocar acordeão no final dos anos 30.
Em 1945, sai do papel sua primeira composição musical para a gravadora, chamando-a Dança Mariquinha. Nessa década, continuou compondo, casou-se, mas nunca teve filhos, embora tenha adotado dois, que foram registrados em seu nome, Gonzaguinha e Rosa.
Depois de algumas desavenças com seu filho, ambos fizeram as pazes, inclusive participando de shows juntos. Em 1989, Luiz faleceu em Recife e está sepultado em sua terra natal.
Luiz ou Lula, como era carinhosamente conhecido, se foi, mas seu legado musical permanece na ativa, interpretado por grandes nomes e cada vez mais presente na mesa dos estudiosos, inclusiva na área de linguística.
Através da linguagem das letras de sua música, Luiz contribui com a contínua exibição da identidade do homem sertanejo, tanto no auge de suas alegrias, como no de suas angústias. Uma das maiores estudiosas em Luiz Gonzaga, a professora Maria Sulamita de Almeida Vieira, chegou a escrever que a narrativa da música de Luiz Gonzaga, no seu conjunto, passa por muitos caminhos, através dos quais são descritos costumes, reativando crenças e valores, tipificando personagens, interpretando práticas e princípios constitutivos de um universo cultural onde o verossímil e o “idealizado” se misturam. Tem-se, nesse sentido, um “sertão da partida”, que cruza, aqui e ali, por vezes numa mesma canção, com um “sertão de saudade”.
Para entender melhor o perfil da linguagem de Lula, por muitos considerada estigmatizada, mas que, dessa maneira, representou seu povo e dele se tornou mais próximo, convém conhecer um pouco desse falar, à luz de processos eminentemente linguísticos.
ASPECTOS FONÉTICO-FONOLÓGICOS
Para ilustrar o comportamento fonético no falar nordestino, alguns trechos da letra da música A Triste Partida podem ser usados como exemplos.
Em “Rompeu-se o Natal, porém barra não veio, o sol bem vermeio, nasceu muito além, meu Deus, meu Deus...”, o termo vermeio possui uma despalatalização da lateral /lh/ comum no português popular.
As consoantes laterais /l/ e /lh/ são bastante variadas nas letras de Luiz. No trecho “a seca terrívi que tudo devora, ai, lhe bota pra fora, da terra natal...”, o termo terrívi possui o apagamento do /1/, oriundo do enfraquecimento que as consoantes em final de sílaba e, principalmente, em final de palavra, possuem. Já em “tão triste, coitado, falando saudoso, com seu filho choroso, iscrama a dizer, ai, ai, ai, ai...”, a variação ocorre com o /l/ em posição de pré-vocálica, formando um encontro consonantal inseparável. Nesse encontro, ocorre o rotacismo, fenômeno em que a consoante /l/ é alterada para /r/.
O rotacismo, porém, ocorre também em posição pós-vocálica, como em “trabaia dois ano, três ano e mais ano e sempre nos prano de um dia vortar, meu Deus, meu Deus”.
No trecho “Meu Deus, meu Deus, Setembro passou, Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, Meu Deus, que é de nós”, ocorre em tamo um metaplasmo de diminuição chamado aférese, que consiste na omissão de um som inicial, e uma apócope, quando o som final também é omitido. Esse tipo de situação é comum em conjugações do verbo estar e esperar, quando proferidas na linguagem popular, como também ocorre no trecho “mas nada de chuva, tá tudo sem jeito, lhe foge do peito o resto da fé”.
Várias monotongações, ou seja, ditongos que perdem um de seus sons, são encontradas na letra dessa música, como a realização dos meses no trecho “descamba janero, depois feverero, e o mesmo verão...”.
Na música Asa Branca, um dos principais sucessos de Luiz Gonzaga, é possível encontrar também alguns dos fenômenos fonético-fonológicos explicitados anteriormente. Em meio a uma linguagem popular e, às vezes, motivadora de preconceitos, vale a pena pensar no valor que a letra da música teria se fosse regravada segundo a norma culta. Quem se arrisca?
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