Gramática Tradicional

Solecismo: inadequação ou vício de linguagem?


Ao falar e ao escrever, as pessoas cometem inadequações de linguagem: algumas por falta de conhecimento; outras, propositadamente


Por Luiz Roberto Wagner e Djenane Sichieri Wagner Cunha

Não somente em textos literários (romance, conto, crônica, novela), mas também em textos jornalísticos (jornal, revista, televisão), é muito frequente lermos e ouvirmos alguns vícios de linguagem, tais como a ambiguidade (duplo sentido), a redundância (pleonasmo vicioso), o cacófato (formação de palavras obscenas) e o solecismo, entre outros.

Trataremos especificamente do solecismo, que consiste em qualquer desvio que se comete contra a sintaxe, podendo ser: de concordância (nominal e verbal), de regência (nominal e verbal) e de colocação pronominal. Como o assunto é muito vasto e a sintaxe possui bastantes regras, abordaremos o solecismo apenas com alguns casos específicos, quer sejam mais usados, quer tragam mais dificuldades para as pessoas que desconhecem a norma padrão da língua portuguesa.

Membro da Academia Brasileira de Letras, Paulo Coelho, nascido em 1947, é o escritor brasileiro mais lido no mundo. Entre seus livros mais vendidos, estão O Diário de um Mago, Veronika Decide Morrer e O Alquimista. Segundo fontes recentes, suas vendas ultrapassam cem milhões de exemplares em mais de 150 países, chegando a 66 traduções diferentes.
 

Tomando por base o escritor Paulo Coelho, um dos autores mais traduzidos atualmente, citaremos alguns exemplos extraídos do seu romance O Alquimista, um dos mais lidos pelos adolescentes e que, provavelmente, será transformado em filme.

a) “Achou que o horizonte estava um pouco mais baixo, porque em cima do deserto haviam centenas de estrelas.” (p. 142)

Nesse pensamento, nota-se que o verbo haver (no sentido de existir) é impessoal, portanto, numa oração sem sujeito, só poderia ser usado no singular, ocorrendo um solecismo de concordância.

b) “As poucas pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores.” (p. 49)

É constante essa inadequação (muito usada na linguagem oral) do verbo preferir, que é transitivo direto e indireto, e rege a preposição a (... preferem casar suas filhas com pipoqueiros a casá-las com pastores.), ocorrendo, assim, um solecismo de regência.

c) “... e que lhe acordasse e dissesse que o rapaz a estava esperando.” (p. 189)

Novamente uma incorreção de morfossintaxe, pois o verbo acordar é transitivo direto e o autor deveria empregar o pronome pessoal oblíquo a (= ela) e não o lhe.

E o romance continua com dezenas de inadequações, o que nos leva a pensar que, propositadamente, o acadêmico Paulo Coelho as empregou, pois essa é a linguagem que os jovens entendem e falam no dia a dia. Os adolescentes se identificam com a linguagem do livro, e o romance torna-se um best-seller, uma vez que não há mais do que 50% de novidades para o leitor.

Resta a dúvida: será que as traduções do romance mantêm essas inadequações?


Calvin e Haroldo é uma das séries de tiras mais apreciadas no Brasil e no mundo. Escrita por Bill Watterson de 1985 a 1995, é referência até hoje, mais de quinze anos após o fim da publicação. Em Calvin e Haroldo, temos um menino de seis anos, Calvin (cujo nome vem de João Calvino, percursor do calvinismo), que tem hiperatividade e bastante inteligência e imaginação; sua interação é principalmente com Haroldo (no original, Hobbes, em referência a Thomas Hobbes, matemático e teórico político), seu tigre de pelúcia que se transforma, para ele, em um tigre real, seu melhor amigo.

Na tira de Calvin, o autor empregou três vícios de linguagem:

No primeiro quadrinho, em “... a Susie está batendo na porta”, há uma inadequação de regência verbal, uma vez que o verbo bater rege a preposição a: “... a Susie está batendo à porta”, configurando um solecismo de regência. No terceiro quadrinho, novamente a fala de Calvin “Mas eu poderia subir no telhado...” traz uma outra inadequação de regência verbal, posto que o verbo subir rege a preposição a: “Mas eu poderia subir ao telhado...”, configurando outro solecismo de regência.

Finalmente, no quarto quadrinho, a fala do pai apresenta uma redundância (ou pleonasmo vicioso) em “... se eu tivesse feito isso há alguns anos atrás”, com a repetição de há e atrás, ambos indicando tempo decorrido.

Vale ressaltar que as histórias em quadrinhos, normalmente, trazem exemplos de linguagem popular, não apenas na fala de crianças como também na de adultos, com a intenção de se identificar mais com o leitor que também usa essa linguagem coloquial.


MAIS ALGUNS CASOS

1) O pronome indefinido adjetivo bastantes concorda em número com o substantivo a que se refere (erros). O mesmo pronome pluralizado pode aparecer posposto ao substantivo: “O delegado já possui provas bastantes para incriminar o réu” (= muitas provas).

2) Os dois numerais fracionários adjetivos concordam em gênero e número com o substantivo: o primeiro concorda com dia (masculino singular), e o segundo, com o substantivo implícito hora (feminino singular).

Meio é invariável quando funciona como advérbio de intensidade, modificando um adjetivo. É nesse ponto que muitos se enganam, dizendo, por exemplo, que “a mulher estava meia aborrecida”, quando o correto é meio aborrecida. Devemos dizer também “A porta do carro se encontra meio aberta”, “A mãe ficou meio preocupada”. Na língua atual, portanto, meio (advérbio) deve manter-se invariável.

3) A flexão do adjetivo composto só ocorre com o último elemento, ficando o primeiro invariável. Temos o mesmo procedimento com três adjetivos: Trata-se de reuniões sino-nipo-germânicas.

 

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