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A coesão textual em diferentes gêneros do discurso


Através de uma análise de três tipos textuais diversos, analisamos a coesão textual em relação ao gênero em que o texto está inserido, e trazemos isso para a sala de aula


por Thaisa Raphaela de Freitas

 

No Ensino Médio, é preciso que os alunos aprendam a base da construção de um texto a partir dos mecanismos textuais, ou seja, a coesão lexical por repetição. A prolixidade do texto, isto é, a repetição desnecessária de palavras pode tornar o texto cansativo, fraco de ideias e sem conhecimento de palavras sinonímicas. O ideal seria apresentar aos alunos os mecanismos coesivos textuais.

O professor, como mediador do conhecimento, precisa deixar claro os devidos mecanismos textuais que melhorem o texto, tornando-o rico de informações, como coerência, coesão, contextualização, intertextualidade, colocação etc. O educador precisa, cada vez mais, buscar soluções para suprir as necessidades dos seus alunos, tornando-os cidadãos ativos na sociedade que, por sua vez, cobra tanto o uso da língua materna.

Como já foi dito anteriormente, citando Ingedore Grunfeld Koch, "um texto não é apenas uma soma ou sequência de frases isoladas". Em outras palavras, o texto não é composto por frases soltas, sem sentido, sem ideias ou contextualização. É necessária a compreensão dos diversos mecanismos textuais, entre eles, a coesão lexical. Podemos citar Irandé Antunes e justificar a moderação no uso repetido das mesmas palavras e ideias: "A repetição merece o cuidado da utilização equilibrada, uma vez que o conteúdo de um texto não pode reduzir-se a um mesmo sem fim, que não avança e, circularmente, não sai do lugar".

Irandé Antunes é uma linguista brasileira com doutorado em Linguística pela Universidade de Lisboa. Sua tese de doutorado foi Aspectos da coesão do texto - uma análise em editoriais jornalísticos. Seu mestrado em Linguística foi pela Universidade Federal de Pernambuco. Irandé é autora de Aspectos da coesão do texto, o primeiro livro dedicado exclusivamente à questão da coesão no Brasil.

A análise dos mais variados gêneros textuais é que nos leva a reafirmar, em alguns casos, a necessidade da repetição e nos mostra que esse mecanismo não é exclusivo da fala, seja formal ou informalmente, mas também existem repetições em textos escritos, mesmo formais ou informais.

 

Luiz Antonio Marcuschi é um linguista brasileiro. Seu doutorado em Letras com ênfase na filosofia da linguagem é pela Universitat Erlangen-Nurnberg e tem pós-doutorado pela Albert-Ludwigs- Universität Freiburg. Atualmente, é professor titular da Universidade Federal de Pernambuco. Em seu artigo publicado em Gêneros Textuais e Ensino, Marcuschi separa os tipos textuais - narrativos, argumentativos, expositivos, descritivos e injuntivos - dos gêneros textuais, que podem englobar diferentes tipos textuais: por exemplo, num romance há a possibilidade de se encontrar textos argumentativos e expositivos, não apenas narrativos.
 
Ingedore Villaça Koch, licenciada em Letras e bacharel em Direito pela USP, é mestre e doutora em Língua Portuguesa pela PUCSP e livre-docente em Análise do Discurso pela Unicamp. Na PUCSP, atuou nos cursos de Letras e Jornalismo, na pós-graduação e na especialização. É professora titular do Departamento de Linguística do IEL-Unicamp, onde implantou a área de Linguística Textual. Entre suas obras, contam-se: Ler e compreender, A coesão textual, A coerência textual, A interação pela linguagem, O texto e a construção dos sentidos e Referenciação e discurso, publicadas pela Editora Contexto.

GÊNERO ESCOLA

Retomando o que foi dito anteriormente, o objeto de estudo deste artigo é analisar a recorrência da coesão lexical em textos do Ensino Médio. Estes, por sua vez, se inserem no gênero escola. O tipo textual predominante é o dissertativo. Segundo a tipologia proposta por Luiz Marcuschi , os tipos podem ser: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção etc.

No texto do aluno aqui apresentado, fica evidente observar na pesquisa no gênero escola, o mecanismo da coesão lexical, em destaque. A repetição pode não ser tão favorável, visto que o termo repetido muda a sonoridade das palavras pronunciadas anteriormente, bem como, em outras palavras, o que foi dito anteriormente não terá a mesma intenção.

Existe, portanto, a necessidade de trabalhar os mecanismos coesivos com os estudantes, em especial, o lexical, pois a análise evidenciada no texto do aluno apresenta excessivas repetições de um mesmo vocábulo. Contudo, para gerar um sentido ao texto, essas repetições precisam ser evitadas, levando em consideração o uso dos pronomes, de sinônimos, que forneçam entendimento do texto.

A preocupação de muitas pessoas é a escrita. A produção de texto está tornando-se cada vez mais alvo de maior relevância nos estudos de muitos estudiosos da língua. Falar e escrever bem são critérios levados em conta em diversas posições sociais. Dessa forma, todos desejam a ascensão à língua materna.

Atualmente, as questões da língua estão ligadas à questão da norma gramatical, visto que esta não é a única necessidade de um texto bem produzido e bem falado. Antunes, citado anteriormente, afirma que "a língua não é um sistema de signos isolado do resto do mundo. Tudo o que acontece, tudo o que é pensado, que é previsto, que é concebido aparece refletido na linguagem". De acordo com Koch , a coesão lexical de reiteração faz alusão ao que foi dito anteriormente através de outras palavras, ou seja, sinonímias, hiperonímias, mesmo item lexical (mesma palavra) ou nomes genéricos, como mostram os exemplos, prosseguindo com o mesmo sentido na frase. Contudo, as frases jamais perderão sua função semântica.

Em se tratando de repetição, existem muitos conceitos. Segundo Antunes, "a repetição corresponde a todo e qualquer empenho por fazer reaparecer no texto alguma palavra ou sequência de palavras que já ocorreram anteriormente. Por isso mesmo a repetição constitui um recurso reiterativo, exigido pela coerência". Muitos estudiosos definiram o conceito de coesão: sua função, ainda segundo o autor, "é de criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam os vários segmentos do texto ligados, articulados, encadeados. Reconhecer um texto coeso é reconhecer que suas partes não estão soltas, fragmentadas, mas estão ligadas, unidas entre si". Não é um texto sem conexão, sem sentido, é necessário haver uma ligação entre as palavras. Há a conhecida metáfora do laço, a ideia de que cada segmento, cada frase do texto, precisa estar atada, presa uma à outra, sem pontas soltas; isto é, um texto coeso.

Assim, o mecanismo da coesão lexical mantém uma relação com a repetição, visto que esta faz parte dos discursos, constituindo uma relação com a linguagem oral ou escrita, já que esta participa da construção sociocomunicativa e aquela se realiza através da retomada de termos ou expressões já mencionadas, sem que o sentido seja alterado, ou, simplesmente, deixe de existir.

 

O PROBLEMA DAS REPETIÇÕES

Buscamos, nester artigo uma definição da coesão lexical, o uso recorrente da repetição e a falta de sentido em seus enunciados, em textos de alguns gêneros do discurso (panfleto, texto literário e textos escolares). A intenção foi investigar os mecanismos coesivos escolhidos para a construção textual de um aluno do Ensino Médio.

A repetição, na língua, apresenta-se nos níveis de produção de texto, existindo como processo que participa da construção do sentido dado ao enunciado. Segundo Antunes, "a repetição não é apenas uma regularidade textual. É um recurso de grande funcionalidade, pois pode desempenhar diferentes funções, todas elas, de alguma forma, coesivas. [...]Sua função é marcar a continuidade do tema que está em foco". Conforme vimos, há uma inadequação no uso dos vocábulos no interior do texto do aluno. A repetição das mesmas palavras deixou o texto com poucas ideias, sabendo-se que clareza e elegâncias são "tecidos" fundamentais para a tessitura de um texto. A análise dos mecanismos coesivos foi demonstrada, através de exemplos. Ainda segundo Antunes, "em geral, e por falta de um conhecimento mais consistente, a repetição tem sido vista apenas como uma característica da oralidade informal [...], uma concessão que se faz, uma vez que 'a fala tudo permite'". De acordo com Sírio Possenti, "o texto deve ser concebido como uma unidade semântica e os mecanismos coesivos contribuem, significativamente, para a construção do sentido do texto, além do fato de que sua escolha não é aleatória".

Contudo, foi possível perceber, através do texto exposto, que os alunos pouco utilizam os mecanismos coesivos, norteadores de um texto claro, preciso e elegante. Por essa razão, a coesão sinonímia pouco aparece nesses textos, tornando-se frequente a coesão realizada pelo mesmo item lexical. Por esta razão que aqui se enfatizou a breve análise dos mecanismos coesivos presentes no texto do aluno, buscando uma melhor explicação para o fenômeno tão frequente nesses textos: a repetição.

 

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Irandé, 1937 - Lutar com palavras: coesão e coerência/ Irandé Costa Antunes. - São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

BEAUGRANDE, Robert de, & DRESSLER, Wolfgang U. Einfuhrng in die textlinguistik. Tubingen: Max Niemeyer Verlag. Trad. Inglesa: introduction no textliguistics. London: Longman, 1981.

FÁVERO, Leonor Lopes; KOCH, Ingedore Vilaça. Linguística textual: introdução. [n.s.]. São Paulo. Cortez, 2002.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. A coesão textual / Ingedore Villaça Koch. 12 ed. - São Paulo: Contexto, 1999. - (Repensando a Língua Portuguesa).

_____. Ler e compreender: os sentidos do texto / Ingedore G. Villaça Koch e Vanda Maria Elias. 2. ed. - São Paulo: Contexto, 2006.

_____. A coesão textual/ Ingedore G. Villaça Koch - 21. ed., 2º reimpressão. - São Paulo: Contexto, 2009.

_____. A coerência textual/ Ingedore G. Villaça Koch, Luiz Carlos Travaglia. - 18. ed., 2º reimpressão. - São Paulo: Contexto, 2011.

MARCUSCHI, Luiz A. Linguística do texto: o que é e como se faz. Série Debates 1, Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1986.

_____. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In. DIONÍSIO, Ângela P.; MACHADO, Anna R.; BEZERRA, Maria Auxiliadora. (Orgs.). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 19-36.

POSSENTI, S. Discurso no texto. In: Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo; Martins Fontes, 1993.

TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Trad. Rodolfo Ilari, rev. Ingedore G. V. Koch e Thaís Cristófaro Silva. São Paulo: Contexto, 2008.

 

 

 

 

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