Poesia
 Balada para Amy Winehouse
Fatos da realidade podem encontrar-se em temas e motivos literários, assim como a adoção de processos sintáticos em um texto imita intenções e sentimentos verificados na vida gerando modos especiais de escrita Por Roberto Sarmento Lima
|
 |
 |
Amy Winehouse
Amy Jade Winehouse, cantora e compositora britânica, nasceu em Londres, no dia 14 de setembro de 1983. Seu primeiro álbum de estúdio, Frank, foi lançado em 20 de outubro de 2003; o segundo, Back to Black, foi lançado em 6 de outubro de 2006 e teve vendas impressionantes. Casou-se com Blake Fielder no ano de 2007. No ano seguinte foi presa duas vezes, por agressão e dirigir alcoolizada, além de ter sido flagrada consumindo drogas. Divorciou-se em 2009, imersa em problemas sérios de saúde e na própria carreira, pela visível dificuldade de conduzir seus shows. Depois de um tempo em recuperação, em 2010 Winehouse começou a trabalhar no que seria seu terceiro disco. Foi encontrada morta em seu apartamento em Londres, 23 de julho de 2011. |
 |
|
O que tem a ver Amy Winehouse, a cantora inglesa vitimada provavelmente pelo consumo excessivo de drogas, achada morta no dia 23 de julho deste ano em seu apartamento em Londres, com o poeta Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, brasileiro, autor de poemas expressivos e refinados, muitos de extremado quilate artístico? Talvez pense o leitor que me refiro especialmente ao gosto pelo marginal, imundo e excêntrico que, em ambas as personalidades aqui lembradas, de algum modo os fez ficar marcados nas diferentes e respectivas culturas.
Amy Winehouse enveredou por um caminho sem volta ao combinar sua imagem singular, esquálida, de longas madeixas negras, desarrumadas, a uma pintura extravagante no rosto que só acentuava a sua inclinação para a morbidez, quem sabe estudada, mas, seja lá como for, já percebida na voz notável, a que se seguem, para terminar de compor a personagem, uma vestimenta por vezes retrô e gestos não raro desencontrados, tanto na vida quanto no palco. Já o nosso poeta - apesar de que poeta não tem rosto, não tem identidade, não tem roupa ou habitação, parecendo a muitos que levita sobre a realidade torta em que vivemos, alheio às preocupações que atormentam o homem comum, como pagar contas no fim do mês e desejar eternamente aquilo que seu salário não permite comprar -, o nosso poeta, como eu ia dizendo, é também magro e esquálido, de cabeleira correta, alva e imperturbável na queda de infindáveis e invariavelmente alinhados fios de prata sobre os ombros de cabide.
Ferreira Gullar, assim como Amy Winehouse, também tem uma imagem midiática de imprevisível poder de sedução: olhos duros e espetados como punhais sondando o vazio, certa severidade nas feições e na boca fina que mal se abre num sorriso meigo. Quem nunca leu um só verso desse poeta ao menos já viu um dia sua figura na televisão ou nos jornais e revistas deste país, numa época em que poetas têm, sim, rosto e corpo, andam pelas ruas e pagam suas contas no fim do mês.
SOM INSUBSTITUÍVEL
Mas não será só por isso que Amy Winehouse e Ferreira Gullar podem ter alguma, e aparentemente absurda, relação. Ambos foram capazes de falar do sujo da vida: Amy, na canção Rehab , disse não às convenções, não à reabilitação e à rejeição às drogas, não à família, ao pai, aquele que lhe desejou boa noite na hora de enterrá-la, e, de modo parecido, Gullar disse não à hipocrisia reinante ao escrever o Poema Sujo, livro mais barulhento que inspirado, de 1976. Cada um, no seu quadrado, exprimiu o descontentamento com os princípios morais vigentes e sua rejeição tremenda ao status quo. Mas, apesar da rispidez da dicção e da aparência física, das palavras e da voz, Amy e Gullar conseguem ser doces até no nome. "Winehouse" poderia ser traduzido, com muita boa vontade e pouco rigor interpretativo, por "a casa do vinho", enquanto "Gullar" pode evocar "gular", aquilo que, relativo à garganta, deixa escapar o canto, a voz. Afinal, cantor e poeta um dia estiveram muito bem identificados.
Por pura coincidência, Amy Winehouse, aos 10 anos de idade, integrou um grupo musical de rap chamado Sweet'n'Sour, em que sweet tem o valor de "coisa doce", ou "doçura", e sour, bem ao contrário, é "coisa estragada", "coisa ácida". O mesmo ocorre com o poeta maranhense: se gular é a cavidade da garganta por onde desliza a voz, ferreira indicia o canto do pássaro conhecido como ferreiro, cuja tonalidade vocal é idêntica à de um serrote metálico, parecendo estar sempre arranhando a superfície de alguma matéria dura: um som acre e incômodo, portanto.
Ambos foram capazes de falar do sujo da vida: Amy disse não às convenções, Gullar disse não à hipocrisia reinante
|
 |
feito flecha, feito
faca, feito fogo
Mais um pouco do trecho
referido no texto:
"A terrível notícia tinha se
espalhado assaz, em todas as
partes o povo fazia questão de
obsequiar à gente, e falavam
muito bem do falecido. Mas
nós passávamos, feito flecha,
feito faca, feito fogo. Varamos
todos esses distritos de
gado. Assomando de dia por
dentro de vilórios e arraiais,
e ocupando a cheio todas
as estradas, sem nenhum
escondimento: a gente queria
que todo o mundo visse a
vingança!"
Grande sertão: veredas
Autor: Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 624
|
 |
|
Que estranhas combinações essas, não? Como disse Cecília Meireles, em Romanceiro da Inconfidência, "Ai palavras, ai palavras / Que estranha potência, a vossa!" Os nomes, em literatura, por exemplo, parecem ser motivados, nunca arbitrários, nunca resultado de um acordo ou de uma convenção entre os usuários daquela língua. Por isso é que não se traduzem um poema ou um romance da mesma forma que se traduzem um aviso, um diploma, uma receita de bolo. Em arte, cada palavra, com seu som, é insubstituível; principalmente o poema, que apela para os sentidos, ainda mais para o da audição, não se entrega fácil ao trabalho do tradutor. Como passar para o português os versos de Paul Verlaine "Les sanglots longs des violons / Blessent mon coeur / D'une languer monotone" sem destruir toda a sugestividade que a carga sonora da frase manifesta? "Os soluços longos dos violinos ferem meu coração com um langor monótono" (esta é a tradução mais linear) arrasaria, no mau sentido desse termo, a música que emana da poesia de Verlaine. Ou não?
Combinações de palavras e seus sons mais peculiares são, acima de tudo, combinações semânticas. Ou, então, como aceitar, se dito de outro modo, com outros significantes, que Guimarães Rosa, querendo, com o auxílio de fricativas surdas reiteradas, exprimir o ritmo veloz e a determinação dos jagunços, tivesse escrito outra coisa senão "feito flecha, feito faca, feito fogo "? 
Seria Amy Winehouse, sem sua roupa e rebeldia, pintura e balanço, drogas e gesticulações desengonçadas no palco, Amy Winehouse? Se tivesse tido ela outra configuração visual e comportamento teria sido essa jovem artista, de voz suave e ao mesmo tempo vibrante, de tons jazzísticos, que terminou por provocar uma onda de comoção mundial quando saiu a notícia de sua morte, ainda que previsível? E o que dizer de Ferreira Gullar sem a sua cabeleira que mais lembra um véu que pode esvoaçar ao vento mas, sem dar uma volta, reforça a sisudez de suas declarações, poéticas ou não?
Fiquemos, por enquanto, com um poema seu, magistral em sua feitura, o qual, pelo nome, já se derrete na boca: "O açúcar". Inserido na coletânea Dentro da Noite Veloz, de 1975, esse poema dramatiza a vida em seu permanente conflito com a morte - que foi, talvez, também, o grande drama da cantora Amy Winehouse. Ao contrário do poema, em que a vida é celebrada num café servido numa manhã em Ipanema e a morte, escandalosamente, é descrita, em paralelo e em contraste, no interior das tétricas usinas de açúcar, em Pernambuco ou no estado do Rio de Janeiro, separadas, pois, as áreas geográficas, mas unidas em sua realidade econômica, Amy Winehouse trazia dentro de si, ao mesmo tempo, a vida e a morte, num namoro íntimo e sensual, numa integração perfeita, a ponto de não se poder saber se aquilo que a matava era o que a fazia viver plenamente.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >> |