Reportagens
Academia dos esquecidos

A musa impassível


Considerada a maior poetisa da língua portuguesa em seu tempo, Francisca Júlia foi uma fiel representante do Parnasianismo no Brasil, ilustrando o respeito à forma e à impassibilidade exigido pelo movimento


J. A. Ramos*

Como já havia colocado na edição anterior, o Brasil, ainda na meia idade em sua história literária, tem-se dado ao luxo de legar ao esquecimento grandes nomes, personagens de suma importância para a nossa literatura, para a nossa história geral, em vista de a literatura universalizar-se e integrar-se a outras disciplinas. Tenho provado o que escrevo, sempre trazendo à tona nomes importantes no cenário literário nacional e, infelizmente, esquecidos pelos críticos literários, mídia e professores, pois que sequer no cenário escolar ou acadêmico são citados.
Desta feita, trago à luz, não somente um importante personagem na nossa literatura, mas uma musa, uma inspiração poética, um dos maiores exemplos de uma época ou fase literária. Refiro-me a Francisca Júlia da Silva, ou simplesmente Francisca Júlia, como era chamada, ou, ainda e finalmente, A musa Impassível, como foi carinhosamente codinominada em função do soneto "Musa Impassível", de sua autoria.
Considerada uma das precursoras da literatura feminina no Brasil, a poetisa Francisca Júlia foi aclamada por todos os ícones da literatura da época, comoJoão Ribeiro, Antonio Cândido, Olavo Bilac, Coelho Neto, Vicente de Carvalho e Machado de Assis desde o lançamento de Mármores, seu primeiro livro de sonetos, em 1895.
Nessa oportunidade ela já havia publicado seu primeiro poema em 1891, no jornal O Estado de S. Paulo. Havia colaborado também com importantes periódicos como Correio Paulistano e Diário Popular, e os cariocas: O Álbum, de Arthur Azevedo, e A Semana.
Em 1899, juntamente com o irmão Júlio César, escreve o Livro da Infância, editado em contos e versos, obra didática que logo foi adotada pelo Governo de São Paulo em escolas do primeiro grau e hoje de domínio público. A intenção da autora era de iniciar a literatura infantil, coisa inexistente na época.

soneto "Musa Impassível
Quando o soneto foi publicado no jornal A Semana, houve grande polêmica, pois o crítico João Ribeiro não conseguia acreditar que uma mulher fosse a autora dos versos, que seguem:

Musa Impassível
(Francisca Júlia)

Musa! um gesto sequer
de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie
o cândido semblante!
Diante de Jó, conserva
o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo
olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero
a lágrima; não quero
Em tua boca o suave
e idílico descante.
Celebra ora um fantasma
anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de
um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio
d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma
harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma;
a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem,
com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um
calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor
de mármores partidos.

OSTRACISMO
Francisca Júlia é pouco conhecida em nossos dias. Seus livros já se esgotaram há muito tempo e ela é raramente citada mesmo nos cursos de literatura, uma vez que o parnaso brasileiro era representado pelo chamado sexo forte, a tríade formada pelos escritores Olavo Bilac, Vicente de Carvalho e Alberto de Oliveira.
Agora pergunto eu: "Ela não faria parte deste grupo se fosse homem?".
A poetisa desapareceu do cenário cultural tão prematuramente como deixou a vida. Considerada a maior poetisa da língua portuguesa em seu tempo, Francisca Julia foi a mais fiel representante do Parnasianismo no Brasil, e sua obra é um exemplo do respeito à forma e à impassibilidade exigida pelo movimento parnasiano francês. Francisca Júlia é criadora de versos perfeitos. Apesar de o reconhecimento ter sido ofertado a Olavo Bilac, aclamado o "Rei dos poetas Brasileiros", a obra de Francisca Júlia, parnasiana no início da carreira e ao final de sua vida voltada à poesia simbólica e mística, deve ser reconhecida desde àquela época. Seus sonetos estão entre os mais perfeitos da língua portuguesa.
Em 1961, o consagrado crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, considerado o maior estudioso da obra da poetisa, fez a reunião das suas poesias, incluindo muitas inéditas, publicando o livro "Francisca Júlia - Poesias", pela Comissão de Cultura do Estado de S. Paulo, onde apresentou a obra completa da grande poetisa brasileira, separada por tema, além de uma longa biografia e notas introdutórias.

DO NASCIMENTO À MORTE
Francisca Júlia da Silva nasceu na antiga Vila de Xiririca, hoje Eldorado, no Vale do Ribeira, São Paulo. Sua infância foi calma e povoada pelos folguedos infantis. Aprendeu as primeiras letras e os serviços do lar com a mãe, a professora Cecília Isabel da Silva, da qual herdou a profissão. Do pai, Miguel Luso da Silva, advogado provisionado, herdou o amor aos livros e à língua portuguesa.
Em 1909, Francisca Júlia casou-se com o telegrafista Filadelfo Edmundo Munster, da Central do Brasil, natural de Barra Mansa (RJ). A cerimônia, que teve Vicente de Carvalho como padrinho, realizou-se na capela de Lajeado, Capital (SP). Apesar da grande diferença intelectual, Francisca Júlia amava com devoção ao seu esposo, vivendo uma união amorosa e feliz. Nessa ocasião, foi convidada (e gentilmente recusou) a fazer parte da Academia Paulista de Letras, então em vias de ser fundada. Após o casamento, decidiu deixar a poesia de lado e se dedicar apenas ao esposo e ao lar, o que fez por alguns anos.
Retornou às rodas literárias somente em 1915, quando começou a publicar alguns sonetos na revista A Cigarra, de São Paulo. Nessa época, pensava em escrever uma série de sonetos inspirados na moral de Pitágoras, a cujo livro daria o nome de Versos Áureos. Apesar de ter escrito alguns sonetos, não chegou a concretizar esse projeto.

 

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