Reportagens
Academia dos esquecidos

Francisco Adolfo de Varnhagen: O Heródoto Brasileiro


Os antagonismos do intelectual que inaugurou a ciência da História do Brasil


Por J .A. Ramos*

Legado
Varnhagen deixou uma extensa e variada obra, composta de dezenas de títulos, entre livros, opúsculos, artigos e memórias. No campo dos estudos históricos, sua obra máxima foi a História geral do Brasil (1854-1857), antes da sua separação e independência de Portugal. Na extensa bibliografia do Visconde de Porto Seguro, em parte publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, há ainda suas peças de grande importância, que merecem destaque como: a História das lutas contra os holandeses no Brasil de 1624 a 1654, que foi publicado em 1871, e a História da independência do Brasil (concluída em 1875, mas inédita até 1916, publicada postumamente).

Foi justamente uma dessas obras, A História geral do Brasil, que me causou essa inquietação, que partiu da minha leitura e que me levou a analisar a originalidade do discurso fundante, os interesses e críticas que ele sofreu no decorrer dos séculos XIX e XX, e que nos nossos dias ainda é objeto de pesquisa para historiadores. Assim, dentro dessa perspectiva, encontrei um comentário de José Carlos Reis que diz o seguinte:

Heródoto
Considerado o "pai da história", o grego Heródoto foi o primeiro a não apenas registrar o passado, mas também a considerá-lo um problema filosófico ou um projeto de pesquisa sobre o comportamento humano.

 

"Varnhagen é considerado o Heródotobrasileiro, portanto o fundador da história do Brasil, mesmo se, antes dele, entre outros, Pero de Magalhães Gândavo, Frei Vicente do Salvador, Sebastião da Rocha Pita, Robert Southy também a escreveram. Aliás, Southey disputa com Varnhagen, sem nunca ter estado no Brasil, aquele título historiográfico. Ele pintou em sua História do Brasil um quadro sombrio quanto às possibilidades futuras da colonização comercial portuguesa no Brasil: degradação dos costumes, da religião e da moral, causada pela escravidão e pela falta de agricultura - miséria, fome, turbulências, crimes, doenças".

A história geral do Brasil

A tarefa de pensar a história do Brasil, naquele momento, absorveu fontes e documentos comprometidos com o processo de gênese da nação brasileira, envolvidos e entregues aos letrados do IHGB, pois a historiografia produzida por esses reforçaria a origem, buscando garantir uma homogeneização da visão sobre o Brasil, e referenciando as elites brasileiras. Nesse sentido, o IHGB buscou, em primeiro lugar, o esclarecimento dos que ocupavam o topo da pirâmide social, os quais, por sua vez, trariam o esclarecimento do resto da sociedade, tendo sido este, basicamente, o ponto primordial no qual residiu o pensar a nação brasileira.

A nova nação brasileira se reconhece como continuadora de uma tarefa civilizadora iniciada pela colonização portuguesa. Nação, Estado e Coroa foram elementos pensados como unidade no interior do discurso historiográfico concernente ao problema nacional.

Ao definir a nação brasileira como representante da ideia de civilização no Novo Mundo, esta historiografia estará de nindo aqueles que internamente  ficarão excluídos desse processo por não serem portadores da noção de civilização, a saber, índios e negros. O conceito de nação é restrito aos brancos. Construída no campo limitado da academia de letrados, a nação brasileira traz consigo forte marca excludente, carregada de imagens depreciativas do outro, cujo poder de reprodução e ação extrapola o momento histórico preciso de sua construção. É sobre o pano de fundo mais amplo dessa discussão que o IHGB encaminhará suas reflexões acerca do Brasil, realizando a tarefa de sistematizar uma produção historiográfica capaz de contribuir para o desenho dos contornos que se quer definir para a nação brasileira, cujo retrato o instituto se propõe a traçar, deve, portanto, surgir como desdobramento nos trópicos, de uma civilização branca e europeia. Essa tarefa exigiu imensos esforços, devido à realidade social brasileira, muito diversa daquela que se concebeu como modelo.

 

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