Reportagens
Parônimos

Sem querer, querendo


As influências semânticas na escolha dos parônimos em redações escolares.


Por Chico Viana*

O mesmo ocorre nas passagens abaixo, retiradas também de redações de alunos:

• “Estas indagações são feitas pela sociedade, que muitas vezes se contradiz ao avanço da medicina”;
• “São pais antiquários, que prendem demais os filhos”;
• “A força da moda encucou nos consumidores esse padrão por ela estabelecido”;
• “Ninguém é capaz de transformar algo tão nobre e verdadeiro em algo maquinário”.

As trocas às vezes têm efeito paradoxal ou cômico. Ao confundir “constância” com “consistência”, no contexto da frase citada, o aluno atribui valor a algo que pretende evitar. O que é consistente não deve em princípio ser rejeitado, ou seja, a escolha da palavra indevida gerou uma falha de coerência.

Não é preciso ser “antiquário” (“vender ou colecionar antiguidades”) para prender muito os  lhos; geralmente quem faz isso são os pais caretas, antiquados, que se recusam a acompanhar a evolução dos tempos. Mas não há dúvida de que existe um elo semântico entre as duas palavras; os antiquários lidam com objetos antigos, e para o jovem “antiguidade” e “caretice” muitas vezes se equivalem.

É frequente a troca de “contradiz” por “contrapõe”, e do verbo “inculcar” por “encucar” (esse último vocábulo, por sinal, está muito próximo do universo dos adolescentes). O curioso, nessa troca vocabular, é que é a ideia de “meter na cuca” (cabeça) não está longe do sentido pretendido pelo aluno, que se refere à “lavagem cerebral” promovida pela moda. Já o termo “maquinário”, transformado em adjetivo, constitui uma extensão indevida de “maquinal.”

Parônimos e desconhecimento do sentido

É preciso distinguir os exemplos acima de outros em que o mau emprego das palavras parece mesmo se dever ao total desconhecimento do sentido. Isso ocorre nas passagens abaixo:

(a) “Depois de tal episódio, pude contemplar o quanto o álcool é prejudicial”; (b) “A adolescência é uma fase da vida cheia de descobertas e libertações, mas também compactuada com sérios temores”; (c) “... devemos sempre avaliar o que está em nossa volta antes de tomar nossas próprias conclusões”; (d) “A geração e valorização do emprego local seria um bom começo para melhorar essa necessidade”; (e) “O contato interpessoal nos faz adquirir tolerância em relação ao próximo e suas vicissitudes”.

Haveria adequação se em vez de “contemplar” o aluno tivesse escrito “perceber”, palavra mais ajustada ao contexto. A adolescência é comprometida (e não “compactuada”) por sérios temores. E desde quando é possível “tomar conclusões”? Tirar conclusões é o certo. Uma necessidade não se melhora -- se atende (atenua ou desfaz). “Vicissitudes” aplica-se a situações e não a pessoas; a estas, o termo que cabe é “idiossincrasias”.

Os erros decorrentes de parônimos mal empregados, como se vê, são diferentes dos que aparecem nos exemplos acima. Indicam não propriamente ignorância, mas insuficiência na leitura e pouco discernimento para distinguir entre conteúdos semânticos de alguma forma aparentados. A percepção de um elo entre a forma escolhida e a que o aluno queria expressar mostra que ele fica a meio caminho entre o acerto e o erro, e muitas vezes tem uma vaga noção do que pretendia dizer.

Desafio para quem ensina redação é levá-lo a perceber as razões dessa troca, explicitando o vínculo entre as duas formas em jogo. A partir daí será possível melhorar seu desempenho como leitor e produtor de textos.

*Chico Viana é doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ e professor de redação no curso que leva o seu nome. Contatos: www.chicoviana.com e viacor@uol.com.br

 

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