Reportagens
Hífen

O hífen ...em desacordo


Inspirado na reportagem de capa da edição 18 da Conhecimento Prático Língua Portuguesa ("Uma pedra no meio do caminho: o Acordo Ortográfico"), o professor Chico Viana discorre sobre as incoerências das regras do hífen.


por Chico Viana*

Divulgação / Shutterstock

A atual confusão no emprego do hífen deve-se em parte ao texto do Acordo Ortográfico, que é lacunoso e nem sempre lógico em suas determinações, e em parte aos acréscimos feitos pela comissão que elaborou o novo Formulário Ortográfico. No intuito de suprir as lacunas do texto oficial, ela por vezes se afastou do bom senso.

A indecisão entre legislar (por critérios nem sempre claros) ou aceitar grafias consagradas pelo uso terminou criando regras obscuras, nas quais o número de casos se aproxima da quantidade de exceções. Os critérios para o emprego do hífen nunca foram racionais, mas agora a situação piorou. É preciso examinar caso a caso, o que deixa o usuário da língua na dependência da memória (isso numa a época em que o Ministério da Educação elege o Enem como forma geral de acesso à universidade justamente para diminuir a decoreba e estimular a reflexão).

Critérios

O hífen se usa em palavras compostas, ou seja, aquelas cujo sentido global difere do sentido de seus componentes individuais (finca-pé, dedo-duro, guarda- chuva etc.). Nas locuções ele não aparece, sendo essa ausência um fator que as distingue dos compostos. O Acordo reitera esse princípio ao frisar, em sua Base XV, que o hífen ocorre nas palavras compostas "que não contêm formas de ligação" e nas que "designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento".

Até aí, tudo parece simples. Mas eis que, entre as locuções, apontam-se "exceções já consagradas pelo uso" cujos componentes se ligam por hífen (águade- colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, pé-de-meia, ao deus-dará etc.). Devemse distinguir esses termos de palavras como "cão de guarda", "fim de século" ou "sala de jantar", que são locuções não hifenizadas.

Se a presença do hífen não é critério para diferenciar composto de locução, o caminho para perceber essa diferença deve ser o semântico. Espera-se que, nas locuções, o significado do conjunto não se altere em relação ao sentido dos componentes. Não é o que se percebe, contudo, em palavras como "arco-da-velha" "péde- meia" ou "ao deus-dará", que aparecem como exemplos no texto do Acordo.

Elas têm um sentido novo em relação ao significado individual dos seus membros e, por esse aspecto, são antes compostos do que locuções (não seria essa, afinal, a razão para a persistência do hífen?). Também são compostos "pé-de-vento", "água-de-coco" ou "bico-de-papagaio" (formação óssea) que, inexplicavelmente, devem agora ser escritas sem o traço-deunião. Querem que as escrevamos como se escreve "dona de casa", "estrada de ferro", ou "sala de jantar" - estas sim, locuções típicas, pois seus componentes conservam o sentido original.

Sem motivos

Não satisfeita com todo esse quiproquó, a comissão cassou o hífen de expressões com estrutura oracional do tipo "tomara que caia", "deus nos acuda" ou "maria vai com as outras". No livro em que explica as diretrizes pelas quais se pautaram os acadêmicos, o professor Evanildo Bechara reconhece que "o Acordo não (menciona) expressões com valor de substantivo", mas observa que "tais unidades fraseológicas devem ser grafadas com hífen".

Só não diz por quê. O hífen é um identificador morfológico e semântico. Suprimi-lo nas estruturas com valor de substantivo prejudica a legibilidade e cria um ruído na comunicação. Pode gerar uma falsa compreensão do enunciado e erros de revisão ou leitura. "Tomara que caia", por exemplo, constitui um período composto e tem valor optativo. É o que um homem pode exclamar diante de uma peça do vestuário feminino que parece em via de cair, desnudando o que estava precariamente coberto.

A expressão tem outro sentido quando se diz, por exemplo, que a moça está usando um "tomara que caia". Agora, antes de uma unidade fraseológica, ela constitui uma unidade morfológica e desde o início deve ser percebida como tal. Não basta o artigo para delimitar-lhe a natureza de substantivo; o hífen tem papel importante nessa nova configuração, a partir da qual se instaura um novo sentido. É esquisito ler frases como "Joana é uma maria vai com as outras", em que os membros do predicativo aparecem desgarrados.

Um revisor pouco atento pode interpretar que há aí duas orações, nas quais se opõe o comportamento de Joana (que vai com umas) ao de certa Maria (que vai com as outras); entendendo assim, ele colocaria um ponto depois de "uma". A hipótese não é absurda, como também não é absurdo que o enunciado "A reunião terminou um deus nos acuda" receba a seguinte pontuação: "A reunião terminou. Um deus nos acuda". A ideia comum a ambas, afinal de contas, não é a de que a reunião se tornou um pandemônio? Então, que se apele para Deus.

Não satisfeita com todo esse quiproquó, a comissão cassou o hífen de expressões com estrutura oracional do tipo "tomara que caia", "deus nos acuda" ou "maria vai com as outras". No livro em que explica as diretrizes pelas quais se pautaram os acadêmicos, o professor Evanildo Bechara reconhece que "o Acordo não (menciona) expressões com valor de substantivo", mas observa que "tais unidades fraseológicas devem ser grafadas com hífen". Só não diz por quê.

 

 
 
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