Reportagens
Metaplasmos

Metaplasmos ontem e hoje: usando o passado para entender o presente


As transformações fonéticas do latim para o português que originam as variações na forma de falar continuam a ocorrer até hoje.


por Edmilson José de Sá*

Reprodução


Câmara Jr.
O professor Joaquim Mattoso Câmara Jr. é o introdutor dos estudos de Linguística no Brasil. Foi responsável pela publicação do primeiro compêndio de Linguística da língua portuguesa, nos anos 1940, e também pela bibliografia básica da disciplina no país. Fundou a Associação Brasileira de Linguística e o primeiro programa de pós-graduação na área do Brasil, além de ter sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Filologia e um dos principais incentivadores da pesquisa sobre as línguas indígenas brasileiras.

A língua é o meio pelo qual o homem expressa suas próprias ideias, as de sua geração, as da comunidade a que pertence. Ela é, enfim, um retrato de seu tempo. Cada falante é usuário e agente modificador de sua língua, nela imprimindo marcas geradas pelas novas situações com que se depara. Nesse sentido, podemos constatar que a língua é instrumento privilegiado da projeção da cultura de um povo, enquanto conjunto das criações do homem que constituem universo humano, como dizia Câmara Jr. (1904-1970).

Não só por conta dessa influência cultural, mas também por outras razões tanto linguísticas como extralinguísticas, a língua tem se transformado cada vez mais rápido. No caso da língua portuguesa, desde a origem latina têm ocorrido transformações fonéticas e ainda hoje perduram na fala espontânea. A Linguística Histórica chama essas transformações de metaplasmos.


Barbarismos
O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define barbarismo da seguinte forma: "numa dada sincronia, uso sistemático de formas vocabulares inexistentes na norma culta da língua, por parte de falantes que não a dominam inteiramente [Distinguemse os seguintes tipos de barbarismo: (a) ortoépico (troca ou omissão de fonemas, como a pronúncia aberta do o tônico de bolsos, a pronúncia [in]dentidade em vez de identidade, ou ainda mudança da sílaba acentuada [rúbrica em vez de rubrica]); (b) gráfico (troca de letras, como a troca de s por z, ss, ç etc.); (c) gramatical (inadequação nas flexões, como em quando eu ver [por quando eu vir], ou erro de flexão de gênero, como ela está meia triste, ou com menas palavras, em que meio e menos são advérbios, portanto, invariáveis); e (d) semântico (emprego inadequado de uma palavra ou locução, por não se conhecer seu sentido preciso, como usar-se ir de encontro a ['chocar-se com'] onde deveria ser ir ao encontro de ['estar conforme, acrescentarse'], ou então usar-se uma palavra portuguesa com o significado que um seu cognato tem em outra língua, p.ex., realizar com o sentido de 'compreender', por influência do inglês to realize).]"

As mudanças mais comuns

Ao contrário do que se imagina, esses metaplasmos não devem ser tratados como parte integrante de estudos sincrônicos da língua, mas sim como teoria para explicar as modificações mais recentes que se manifestam não apenas nos grandes centros urbanos, mas também em regiões pouco populosas e, em certos casos, são consideradas simplesmente como erros ou, de maneira mais ou menos eufêmica, como barbarismos.

As mudanças mais comuns na fala espontânea ocorrem com acréscimos ou decréscimos de fonemas que geram outra forma de falar a mesma coisa. Ou seja, sincronicamente, essas "mudanças" se expressam na observância da variação, que decorre não só da historicidade, mas também podem ser motivadas por outras restrições linguísticas ou a depender do status social do falante.

É fato que, se acrescentarmos um fonema a uma sílaba, estamos alterando sua estrutura e sua formação fonética. A cada posição em que inserirmos uma letra, temos um metaplasmo diferente. Ao acrescentarmos um fonema no início da sílaba, temos uma prótese. No latim, ocorreram exemplos do tipo schola escola; gnocchi > inhoque; vulture > abutre; lesione > aleijão; mora > amora (artigo fundido ao substantivo) Atualmente encontramos na nossa língua materna construções do tipo renegar > arrenegar, já registrada em dicionário; lagoa > alagoa; voar > avoar; lembrar > alembrar. Ainda encontramos aglutinações encontradas na escrita do tipo de repente > derrepente e a cerca de > acerca de.

Os acréscimos a que nos referimos também podem ocorrer no meio da sílaba. Temos aí uma epêntese. Exemplos como hibernu > inverno; umeru > omro > ombro; memorāre > memrar > nembrar > lembrar; ingenerare > engendrar (com empréstimos do espanhol) ocorreram na passagem do latim para o português. Hoje, podemos encontrar para asterisco, asterístico e para lista temos listra.

Também é comum termos beneficiência no lugar de beneficência, prazeirosamente no lugar de prazerosamente e estralo no lugar de estalo. Por serem formas correntes na linguagem oral, algumas delas já são variantes dicionarizadas.

No latim, também houve acréscimos no fim do vocábulo. Considerando ante > antes; nunca > nuncas (arc.); beef > bife e club > clube, estamos diante de uma paragoge. Tal fenômeno atualmente se realiza em exemplos contemporâneos do português como deus > deuse; mais > maise; mártir > mártire.

A redução de palavras

Outra discussão que tem ocorrido há muito tempo é acerca do processo de redução das palavras no português do Brasil, também decorrentes de processos diacrônicos por que os idiomas vêm passando, muitas vezes, graças aos empréstimos que línguas aparentadas têm realizado ou a partir de sua própria constituição etimológica.

Sob a égide da Linguística Histórica, encontramos processos de metaplasmos responsáveis por eliminações de fonemas em qualquer posição que seja. A aférese é responsável pela eliminação de fonemas no início da palavra como ocorreu em acūmen > gume; apothēca > bodega. Em tempos atuais, nós nos deparamos com eliminações iniciais do tipo para está; cê para você; inda para ainda.

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