Capa

Uma pedra no meio do caminho: O Acordo Ortográfico


Uma epopeia pelas mudanças nos usos do hífen promovidas pelo Acordo Ortográfico


por Roberto Sarmento Lima*

Penetremos surdamente no reino das palavras, onde, caro leitor, elas permanecem inertes, mas frescas e interrogativas, em estado dicionário. Entre elas, palmilhando-as bem, procuremos, para começar esta conversa, o que diz o verbete acordo. Do Aurélio extraio "concordância de sentimentos e ideias, concórdia, harmonia, conformidade, combinação, ajuste, pacto"; e, no Houaiss, pesco, entre outras coisas, "ajuste entre partes, combinação, consenso, conciliação, discrição, prudência, tino". Se, aqui pelo menos, eu puder reduzir esse conjunto de sinônimos da palavra acordo a três bons significados, fico com "pacto", "consenso" e "tino".

Reprodução
*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas (sarmentorob@uol.com.br)

Faço tal seleção confiando que o mundo das ideias quase sempre se choca com a imperfeição terrena, pensamento que me assalta quando, particularmente, volto os olhos para o Acordo Ortográfico, que tem tirado o sono de professores e alunos em todas as partes do Brasil e levado muita gente às livrarias para comprar a última publicação com algo novo sobre esse assunto. Sou obrigado - depois de ficar a par de muitos vaivéns, transtornos e "disse me disse" ocorridos na própria Academia Brasileira de Letras, que patrocinou e orienta os rumos da reforma ortográfica - a reconhecer que o que menos houve, até agora, foi justamente "pacto", "consenso" e "tino".

CONFUSÃO E POUCA REFLEXÃO
Entre nós há muito não desfilavam, a não ser na arena política, tanta confusão e tão pouca reflexão, coisa de dar inveja ao Brás Cubas, aquele que trazia um trapézio no cérebro. Em primeiro lugar, por que o acordo? Isso traz alguma vantagem à língua escrita trocada entre as nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa? Alguém já ouviu dizer que, sem esse acordo, governantes e diplomatas teriam amplos problemas de comunicação, se é que já tiveram algum em especial por causa disso? Por causa de um acento ou de um trema?

Ora, a língua é mais do que mera ortografia; e, por isso, dada a menor importância desse capítulo da gramática, é muito ruim, injusto e desgastante ficar discutindo se aquele termo tem hífen ou não. Parece perda de tempo. Pior do que ir a Lisboa, ler no cardápio do botequim da esquina "bica" e "sopa de gambas" e não saber o que significam tais palavras. Perguntando ao garçom - em português, claro -, fica-se sabendo que o primeiro substantivo corresponde ao nosso "café pequeno" e o segundo, numa melhor tradução, é "sopa de camarões".

Já que não há mais jeito e a reforma foi mesmo implantada, não quero chorar pelo leite derramado. Como professor do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas, dirigi-me à direção da Faculdade, que está montando um site, e ofereci-me para fazer uma sistematização apenas do uso do hífen, já que os acentos não suscitam dúvidas Reprodução

Reprodução

Mas, já que não há mais jeito e a reforma foi mesmo implantada, não quero chorar pelo leite derramado. Como professor do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas, dirigi-me à direção da Faculdade, que está montando um site, e ofereci-me para fazer uma sistematização apenas do uso do hífen, já que os acentos não suscitam dúvidas. O emprego do hífen, sim, é um deus nos acuda. Aceitaram e acharam até bom que alguém com muita paciência, quase beneditina, decidisse enfrentar a missão de pôr os pingos nos is (se é que isso é possível).

Gastei um mês e meio quase de luta com as palavras, luta vã nesse caso, porque, como disse o outro, elas são muitas e eu, pouco. Primeiro passo da metodologia de que me servi: busquei o que tem sido publicado na imprensa, desde o ano passado, sobre a reforma ortográfica - consultei jornais, revistas de todo tipo, especializadas ou não, assim como folhetos divulgados pelas editoras. Ao lado desse amontoado, estão os livros recém-saídos do forno trazendo novidades, mas, como era de esperar, com muitos enganos, distorções e contradições flagrantes.

E a culpa desse estado de coisas não pode ser atribuída propriamente aos autores dos livros, a não ser pela pressa que têm em publicar, para, enfim, cooptar o mercado efervescente e ávido de conhecimento. Deve, sim, ser imputada à própria Academia Brasileira de Letras, que gerou tanta desconversa e desencontro. Isso porque, em um dia, eles dizem que "re-escrita", por exemplo, deve ter hífen, como todo derivado cujas vogais, uma no final do prefixo e outra no início do radical, são idênticas (é o caso de "anti-inflamatório" e "micro-organismo"); e, em outro momento, vem a ABL dizer que as palavras que trazem o prefixo "re-" não se enquadram nessa regra e, portanto, não são hifenizadas, marcadas pela tradição que as obriga a ficar como sempre foram ("reempossado", "reeleito", "reerguer"). O mesmo se daria com o prefixo "co-", a ponto de o antigo "co-herdeiro" virar um monstrengo como "coerdeiro", exigindo do leitor certo esforço para entender de imediato o que lê ("Como, co o quê? Cordeiro, coerdeiro?").

Pois bem. Elaborei o documento sobre o uso do hífen em quatorze páginas de computador. A cada vez que eu julgava tê-lo concluído, enviando-o em seguida, por e-mail, à direção da Faculdade de Letras, apareciam-me pela frente mais novidades, que eu tinha de incluir e ajustar, corrigindo incansavelmente a edição anterior, em erratas sucessivas.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>
 
 
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 03/04/12
Por uma Linguística Aplicada a serviço da Educação Básica
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 04/04/12
Linguística aplicada ou aplicação da linguística?
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 04/04/12
O ensino da música nas escolas

Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: Reportagens :: Edição 28 - 2011
Coordenação X Subordinação


Conhecimento Prático Geografia :: 06/03/12
Xenofobia na europa: Os padrões atuais de migração internacional


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
O animal Político


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 20 - 2009
Educar para transformar



Edição 35

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Reportagens
Etimologia
Gramática Tradicional
Ensino
Estante
Retratos

Assine
Anuncie
Expediente
Fale Conosco
Mande sua sugestão
Favoritos


Faça já a sua assinatura!
Conhecimento Prático Filosofia

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS