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Clichês a palavra como objeto


Exemplo de banalidade ou maneira de assegurar a legibilidade de um enunciado? A relação dual entre as expressões prontas e a língua não esconde o fascínio que clichês exercem, seja na linguagem falada, na escrita ou na literatura.


por Tatiana Napoli

Um caso de amor e ódio. A maioria dos estudiosos evita os clichês como o diabo foge da cruz, mas as frases feitas dão o tom do uso da língua. Apesar de serem verdadeiras pedras no sapato dos linguistas, chavões são uma faca de dois gumes para quem trabalha com linguagem.

O parágrafo anterior, repleto de clichês, exemplifica a dualidade mantida pelos chavões na linguagem: são exemplos de banalidade e barreiras para a originalidade, ao mesmo tempo em que representam uma maneira fácil de entendimento e de assegurar a legibilidade dos enunciados.

Clichês são expressões tão utilizadas e repetidas que se desgastaram e afastaram-se de seu significado original. Essa espécie de "preguiça linguística", que poupa esforços, inibe a reflexão e multiplica a passividade entre interlocutor e receptor, permeia todos os níveis da linguagem. Da conversa de elevador aos discursos políticos, passando, obviamente, pela mídia - como explicar, afinal, o uso de expressões feitas que acabam virando modismos nos meios de comunicação, como "agenda política", "exercer a cidadania" e "herança maldita"? Ao usar clichês como muletas do discurso, o texto certamente flui com facilidade - mas a linguagem empobrece.

Os tipos de clichê

O clichê nasce como uma ideia criativa, mas é repetida à exaustão e se transforma em um cacoete. Ele está inserido na linguagem num contexto que a gíria nunca alcança e o provérbio sempre ultrapassa - a gíria pressupõe vitalidade; o provérbio, ao contrário, já nasce cristalizado. O jornalista e filólogo H. L. Mencken identificou a fonte de todo lugar-comum no medo do desconhecido. Entre os chavões mais frequentes, estão as locuções e combinações invariáveis de palavras (sempre as mesmas palavras seguindo a mesma ordem), como "frio e calculista", "mentira deslavada" e "chuva torrencial". Esse tipo de clichê está presente na linguagem falada e escrita, seja formal ou informal.

Existe, ainda, o clichê literário, que é a repetição abusiva de fórmulas criadas por um escritor. As diferentes variedades de clichê também se invertem: um clichê da linguagem falada pode ser introduzido em um texto literário, enquanto clichês literários figuram sem problemas na fala de forma universal. Muitas vezes, o exame de estilo de uma geração, época ou movimento literário revela a contaminação de alguns escritores por outros: a inovação estilística recém-criada por um escritor ou grupo é imitada, involuntariamente ou não, por outros escritores. Assim são criados os clichês, repetidos ad nauseam dali por diante.

O desconforto em relação ao uso de clichês está na denotação de falta de originalidade, exigindo um esforço mínimo de produção e de interpretação. Por outro lado, os clichês presentes em um texto literário - ou mesmo em um filme ou uma conversa - apenas são entendidos como tal se os interlocutores tiverem referências em comum. A tensão entre a necessidade de ser entendido e a vontade de fazê-lo com expedientes criativos e originais pode levar, num extremo, à adoção de uma linguagem privada e ininteligível. Como escreveu T.S. Eliot na introdução de um livro de poemas de Samuel Johnson: "ser original com o mínimo de alterações é por vezes mais notável do que ser original com o máximo de alterações".

A palavra como moeda de mercado

Na introdução do "The Penguin Dictionary of Clichés", Julia Cresswell define os clichês como "as expressões que pensam por nós", alertando o leitor para o perigo de se viciar em clichês por eles funcionarem como uma espécie de "estenografia verbal". Nesse sentido, o chavão é a representação do que poderia ter sido simbolizado de maneira mais rica - um verdadeiro simulacro, expressões válidas apenas por seu uso prático. A linguagem, dessa forma, deixa de ser portadora de conscientização e se torna um objeto social.

É nesse sentido que caminha a obra de Alfred Lorenzer, psicanalista e sociólogo alemão, citado por Claudio Tognolli (confira entrevista na página 54) no livro "A Sociedade dos Chavões", da editora Escrituras. Lorenzer dividiu os processos linguísticos em três: clichês, símbolos e signos. Pelo clichê, o indivíduo se afasta da interação social por conta do uso de palavras-chave, que ele emprega sem pensar no que significam e que recebe e repassa como moeda de mercado. A escassez de significado que marca o clichê representa o empobrecimento da linguagem e, por consequência, a incapacidade de interpretar e criticar o mundo sensível dos fatos.

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