Reportagens

Aposto o apóstata da gramática


Longe de ter alguma relação direta com os conceitos de adjetivo ou advérbio, o aposto prefere se afastar dos outros elementos que compõem a classe dos termos acessórios da oração para se atar aos substantivos.


por Maurício Silva

Como várias categorias linguísticas que a gramática procura padronizar por meio de normas e regras, o aposto é um componente estrutural da oração bastante controverso, a ponto mesmo de podermos considerá-lo, sem rodeios, uma espécie de apóstata em relação às suas origens: é que, curiosamente, o aposto - conceito gramatical já presente nos gramáticos clássicos (como em Quintiliano) - provém do grego epítheton, que deu origem, em português, à palavra epíteto, isto é, elemento que qualifica, que adjetiva. Ora, embora qualifique o termo a que se refere, a condição básica do aposto é justamente ser um elemento gramatical de valor substantivo que explica, resume ou desenvolve outro substantivo.

Longe de ter alguma relação direta com os conceitos de adjetivo ou advérbio, o aposto prefere se afastar dos outros elementos que compõem a classe dos termos acessórios da oração (adjunto adnominal e adjunto adverbial) para se atar, num quase autoisolamento sintático, aos substantivos, adquirindo ele mesmo, como dissemos há pouco, um valor substantival.

Contudo, não se pode negar que - da mesma maneira que o adjunto adnominal e o adjunto adverbial, dos quais é uma espécie e coirmão - o aposto anexa ao substantivo a que se liga um ou mais dados secundários, não sendo, portanto, como quer Celso Pedro Luft em sua Gramática Resumida, "rigorosamente necessário à compreensão do enunciado".

Para o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o sentido de aposto sugere, em primeiro lugar, a ideia de algo atrelado, que se acrescenta a alguém ou a alguma coisa. De fato, adaptando esse sentido primário para os termos da gramática, o aposto é definido como um termo de valor substantivo que explica, resume ou desenvolve outro substantivo, como ocorre nos exemplos que seguem, em que os apostos aparecem em destaque: "amanhã, sábado, será um dia muito especial"; "para conseguirmos é necessário isto: coragem"; "as frutas, as verduras, a carne, tudo estragou"; "aquele rapaz, aluno exemplar, tirou a melhor nota da sala". Já pela variedade de espécies por meio das quais o aposto se manifesta, percebese, como afirmamos antes, tratar-se de um termo controverso.

Talvez seja exatamente por isso que alguns gramáticos - procurando "dar nomes aos bois", como se diz popularmente - preferem subdividir os apostos em tipos distintos, conferindo-lhes nomes que procuram, de alguma maneira, esclarecer o sentido que adquirem no contexto oracional. Dessa forma, teríamos, então, o aposto explicativo ("José, homem leal, estava bem disposto"), o aposto enumerativo ("Há duas coisas importantes: o amor e a amizade"), o aposto de oração ("João chegou atrasado ontem, coisa que não pode se repetir"), o aposto de especificação ("Esta é a cidade de São Paulo, onde fica o Parque Villa Lobos") etc. Alguns autores a consideram este último caso um adjunto adnominal, pela carência de pausa, a qual reputam condição imprescindível para a existência do aposto.

A questão da pausa (ou das vírgulas), contudo, pode se constituir num fenômeno enganoso, pois poderia levar o incauto leitor a confundir o aposto com o predicativo. Mas, novamente, é o caráter apostático (de apóstata!) que o salva desse constrangimento, pois, tendo se afastado de sua condição adjetival primitiva, o aposto, como dissemos reiteradas vezes, só pode ter um valor substantivo. Com efeito, há que se diferenciar aposto e predicativo (vide box), lembrando que enquanto o primeiro tem valor substantivo ("Pedro, bom aluno, não veio hoje"), o segundo tem valor atributivo ("Pedro, preocupado e ansioso, chegou atrasado hoje).

Pois é! Diante de tantos detalhes, aposto que tem muita gente pensando que o aposto existe mesmo, muitas vezes, para nos confundir.

Aposto x Predicativo

Na "Nova Gramática do Português Contemporâneo", Celso Cunha e Lindley Cintra discorrem sobre o "aposto predicativo". Explicam os gramáticos: "Com o aposto atribui-se a um substantivo a propriedade representada por outro substantivo. Os dois termos designam sempre o mesmo ser, o mesmo objeto, o mesmo fato ou a mesma idéia. Por isso, o aposto não deve ser confundido com o adjetivo que, em função de predicativo, costuma vir separado do substantivo que modifica por uma pausa sensível (indicada geralmente por vírgula na escrita). Numa oração como a seguinte:

E a noite vai descendo muda e calma. (F. Espanca, S, 60)

que também poderia ser enunciada

E a noite, muda e calma, vai descendo.
ou
E, muda e calma, a noite vai descendo.

muda e calma é predicativo de um predicado verbo-nominal.

O mesmo raciocínio aplica-se à análise de orações elípticas, cujo corpo se reduz a um adjetivo, que nelas desempenha a função de predicativo.

É o caso de frases do tipo:
Rico, desdenhava dos humildes.

em que rico não é aposto. Equivale a uma
oração adverbial de causa [= porque era rico],
dentro da qual exerce a função de predicativo."

Alguns autores É o caso de Celso Pedro Luft, em sua já citada gramática, mas também do linguista Mattoso Câmara, para quem, em seu Dicionário de Linguística e Gramática, o aposto "se separa do elemento a que se opõe por uma pausa inconclusa, que na escrita se indica por vírgula".

 
 
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