Reportagens

Abrev. é preciso


Muito combatidas em alguns contextos de produção escrita da atualidade, as abreviaturas constituem parte importante da cultura escrita de uma língua.


por Maria Cristina Parreira da Silva* e Abner Maicon Fortunato Batista**

O tempo e os recursos poupados com a prática de abreviação em massa no período colonial fizeram com que surgisse uma enorme quantidade de abreviaturas

Abreviar está na moda. Quem é que nunca teclou pela internet reduzindo as palavras ou que pelo menos nunca ouviu falar sobre o assunto na mídia? Apesar das polêmicas que norteiam o assunto, a prática constante de abreviar não é algo exclusivo dos tempos de hoje. Algumas necessidades de nossos antepassados fizeram com que esse costume fosse muito difundido bem antes de sonharmos com os computadores modernos.

A área do conhecimento que se dedica ao estudo das abreviaturas em textos antigos é a braquigrafia, do grego braqui (reduzido) e graphein (escrever). As abreviaturas diferem das siglas, que designam as letras iniciais de uma ou mais palavras para evitar que ela seja escrita por extenso repetidas vezes. As abreviaturas, por sua vez, podem ser compreendidas como formas de escrita em que faltam algumas letras. Essa omissão de caracteres, sobretudo de vogais, serve principalmente para ganhar mais rapidez enquanto se escreve.

No Brasil Colônia

Durante os primeiros séculos da história do Brasil, o uso de abreviaturas nos documentos aqui escritos era constante. Entre os fatores que favoreciam a proliferação das abreviaturas nos documentos, havia a significativa distância entre Brasil e Portugal, com a consequente dificuldade de adquirir materiais para a escrita (tintas, papéis, plumas) e a ausência de um sistema ortográfico oficial para a língua portuguesa, além, é claro, da maior velocidade adquirida ao se abreviar palavras de textos produzidos à mão.

Os primeiros documentos impressos surgiram somente no século XVIII, quando se instalou no Brasil a família real portuguesa, que não deixava de apresentar abreviaturas em virtude dos altos preços dos materiais utilizados na impressão.

O tempo e os recursos poupados com a prática de abreviação em massa no período colonial fizeram com que surgisse uma enorme quantidade de abreviaturas, cujo significado nem sempre é imediatamente reconhecido. Tal ocorrência não só dificulta atualmente o trabalho de pesquisadores com manuscritos antigos, como também é capaz de deixar "de cabelo em pé" qualquer internauta que tem o costume de abreviar em suas conversas pela rede.

Para termos um pequeno exemplo dessas dificuldades nos textos históricos, tomemos a letra 'P', que, quando grafada isoladamente, possui até 50 significados identificados, indo de unidades de medidas como 'pé' e 'polegada' até nomes próprios de pessoas como 'Paulo' e 'Pedro' (confira o box para mais exemplos). E o que dizer então das dezoito formas abreviadas conhecidas para grafar o nome da cidade de São Paulo?

No Brasil atual

Algum tempo já passou desde que deixamos de ser colônia de Portugal. A comunicação se tornou mais eficiente e veloz, os meios de transporte e a globalização facilitaram o acesso a recursos materiais provenientes de qualquer parte do globo e, com o advento dos microcomputadores, se tornou possível produzir textos com uma velocidade muito maior do que faziam nossos antepassados coloniais. Entretanto, outras situações de produção escrita surgiram e novas necessidades fizeram com que a prática de abreviação continuasse em uso.

A constante repetição de determinados termos em correspondências oficiais e empresariais favorece a utilização das abreviaturas, poupando tempo tanto de escrita como de leitura. Quem é que nunca se deparou com o clássico 'Cia. Ltda.' (abreviação de 'Companhia Limitada')? Por serem de usos constantes nesses textos, determinadas palavras ou expressões são sempre grafadas na forma abreviada. Nesse caso, existem até órgãos que são responsáveis por padronizar e publicar as normas de abreviação para os textos oficiais.

Aliás, quando o assunto é abreviar, logo vem à mente o debate sobre o uso indiscriminado das abreviaturas na internet . Esse tema vem provocando muitas discussões entre estudiosos da linguagem, pais e professores de português devido à preocupação de que o hábito, muito presente na vida dos jovens, afete outros contextos de produção escrita. Polêmicas à parte, podemos entender essa prática como uma forma que os internautas encontram de garantir uma comunicação mais rápida para poderem se comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo.

Taquigrafia

Ainda há controvérsias quanto ao aparecimento das primeiras abreviaturas nos textos. Entretanto, atribui-se a disseminação do sistema abreviativo à Taquigrafia (mais conhecida hoje como Estenografia), tipo de escrita surgida em Roma por meio das chamadas "Notas Tironianas", esquema de sinais inventados por Tiro, escravo de Cícero, o grande orador romano.

Por meio da taquigrafia, era possível substituir palavras por símbolos e abreviaturas e, desse modo, registrar por meio da escrita os discursos enquanto eram proferidos. O primeiro registro taquigráfico conhecido data do ano 70 a.C.; todavia, há registros de abreviaturas em textos romanos já no século III a.C. Para praticar profissionalmente a taquigrafia, havia em Roma cursos aos que sonhavam em trabalhar como taquígrafos, mas era preciso ter muita dedicação, pois quem transcrevesse um discurso de modo infiel teria sua mão decepada.

Órgãos que são responsáveis No Brasil, a instituição responsável por essa tarefa é a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Internet Um exemplo interessante relacionado à internet e padronizado mundialmente é a abreviação dos nomes de países que se encontram no endereço WEB:'. br' para Brasil, '.fr' para França, '.np para Japão, '.ch' para Suiça, '.pt' para Portugal etc.

Breve histórico da ta quigrafia
Fatos interessantes (e curiosos) na história da taquigrafia Autor: Waldir Cury Disponível em: http://www. taquigrafia.emfoco.nom.br/ historiadataquigrafia/breve_ historico_para_o_site.pdf

Além disso, um estudo realizado pela pesquisadora Carla Jeanny Fusca na Universidade Estadual Paulista mostrou que, muito além de reduzir palavras, o escrevente, ao conversar com seus contatos pela rede, faz considerações a respeito do contexto em que está inserido. O internauta sabe que a prática de abreviação é permitida naquele momento; prova disso é que ele faz o possível para não comprometer a compreensão de seus interlocutores.

Outro dos ambientes mais produtivos no que diz respeito ao uso de abreviaturas são as mensagens de celular, os famosos torpedos ou mensagens SMS. Como é preciso pagar pelo envio de cada mensagem e o número de caracteres a serem enviados é limitado, muitas vezes é preciso abreviar para que o conteúdo caiba no limite de espaço e não seja preciso pagar a mais. Portanto, mandar mensagens para amigos escritas de forma abreviada é uma forma de economia não só linguística, mas também financeira - e, em tempos de crise, economizar é sempre um bom negócio.

A compreensão de seus interlocutores
"O contexto no qual o escrevente está inserido condiciona o uso da abreviação, bem como a relação que os interlocutores estabelecem entre si. Escrevente e leitor estão separados fisicamente, daí o constante uso das abreviaturas - é preciso 'encurtar' distâncias e isso é feito por meio da abreviação de palavras." afirma a pesquisadora Carla Jeanny Fusca.
Glossários publicados na internet
Um exemplo pode ser observado na página www.sapo.pt, que hospeda um "Dicionário de abreviaturas SMS", no qual são incluídas abreviaturas e símbolos, como: 'qq' - qualquer e ':-O' - espanto. O link direto para o dicionário é http://ajuda.sapo. pt/comunicacao/sms/ utilizacao_do_servico/ Dicion_rio_de_ abreviaturas_SMS.html

Diante disso, pode-se concluir que, na prática da abreviação no meio virtual, o problema da escassez de material da época colonial foi substituído pela escassez de tempo e espaço ou pela otimização destes pelo usuário.

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