Reportagens

Na ponta dos dedos


Um dos maiores exemplos de superação do nosso tempo, Helen Keller conseguiu transpor imensos obstáculos e dedicou sua vida ao auxílio dos portadores de deficiências visual-auditivas.


Por Nadiajda Ferreira (f_nadiajda@yahoo.com.br)

 

 

Helen Adams Keller nasceu em 27 de junho de 1880, em Tuscumbia, Alabama, e, ainda bebê, surpreendeu os pais com sua inteligência. Até que, aos 18 meses de idade, abateu-se sobre ela o infortúnio que lhe daria sentido à vida: vítima de uma moléstia maldiagnosticada (muito provavelmente escarlatina), Helen ficou cega, surda e, por consequência, muda. Abruptamente, a menina foi lançada do mundo da descoberta dos sentidos para a treva silenciosa, na qual ela podia apenas tatear e onde permaneceu por seis longos anos, quando seus pais resolveram procurar tratamento.

Em busca de uma solução para o caso da filha, os Keller foram de médico em médico até chegarem ao Dr. Alexander Graham Bell , que, por sua vez, sugeriu que eles procurassem ajuda na Instituição Perkins para Cegos. Lá, conseguiram para a filha uma preceptora recém-diplomada, Anne Sullivan, que foi levada para a residência da família, onde iniciou seu trabalho com Helen

 

 

“Não há melhor maneira de agradecer a Deus pela visão do
que dar ajuda a alguém que não a possui.”

Helen Keller

 

Reaprendendo a existir

Alexander Graham Bell
O pai de Graham Bell publicou um artigo sobre linguagem gestual que versava sobre a instrução de surdos-mudos, e Graham Bell continuou-lhe o trabalho, ensinando o sistema de sinais do pai em Boston. Deve-se a ele o fato de que hoje os surdos-mudos possuem um sistema de comunicação tão complexo quanto o dos ouvintes. Graham Bell também foi inventor e estudioso da área da ciência acústica — é tido como o inventor do telefone, mas existem controvérsias.

O trabalho da preceptora, que também sofria de uma grave deficiência visual, não seria nada fácil. Em numerosos escritos, Helen narra seus cinco anos de escuridão e silêncio na terceira pessoa e refere-se a si mesma como um fantasma, um animalzinho selvagem e destruidor, que conseguia tocar as coisas, mas não apreender seus significados. Após semanas domando o pequeno e quase irracional ser, Sullivan passa a experimentar com ela o método do Dr. Bell: pega uma das mãos da menina e a coloca sob uma cascata, enquanto, sobre a outra mão, escreve a palavra água. Helen narra esta passagem diversas vezes em seus livros como um momento mágico: foi quando ela desvendou o mistério da linguagem, quando percebeu que todas as coisas tinham um nome, e que dali em diante ela poderia descobri-los todos usando as pontas de seus dedos.

O alfabeto manual soletrado na palma de sua mão foi a chave para todos os conhecimentos que Helen adquiriu posteriormente. Após o episódio da cascata, a garota passou a aprender seis novas palavras por dia e adivinhava noções de cores, paisagens, luz e tons de voz por analogia. Daí para as leituras de relevo e do Braille foi bem menos que um salto. Após alguns anos de treinamento, Helen podia compreender a fala normal registrando os movimentos dos lábios e as vibrações das cordas vocais daqueles com quem conversava. Ela também conseguiu aprender a falar, embora não pudesse fazê-lo de forma clara e só os íntimos a compreendessem.

 

 

Da esquerda para direita: Helen Keller, Anne Sullivan e Polly Thomson. O retrato foi tirado em um estúdio em meados de 1932.

Seu trabalho com Helen
Anne Sullivan acompanhou Helen Keller até sua morte, em 20 de outubro de 1936. Depois disso, Keller foi acompanhada por Polly Thomson, uma senhora escocesa que já vivia na casa de sua família desde 1914. Com a morte de Polly Thomson, em 1960, Keller passou a ser ajudada pela enfermeira Sra Winifred Corbally, com quem contou até o dia de sua morte, em 19 de junho de 1968. As cinzas de Keller foram depositadas ao lado das de Anne Sullivan e de Polly Thomson na Capela de São José, na Catedral de Washington.

Apesar de sua parca instrução, Anne Sullivan era uma mulher sábia e moderna: gostava de discutir e detestava opiniões que não saíssem do lugar-comum. Em segredo, era poetisa e amava aos livros mais que a qualquer outra coisa, apesar de só poder ler por espaços de tempo limitados. Como professora, Sullivan era dura e perfeccionista, mas sua paciência com a aluna parecia não ter fim. Helen tinha um infinito desejo de aprender coisas novas, o qual Anne alimentava por meio da poesia e da leitura dos clássicos da literatura. Apesar de ser descrita como uma pessoa irritadiça, Anne era tão dedicada à aluna que permaneceu com ela mesmo durante os anos em que os Keller não puderam lhe pagar salário. Sobre a professora, Helen disse mais tarde em um de seus livros: “A professora tratoume exatamente como a uma criança que vê e ouve, com exceção apenas de que, em vez de usar palavras faladas, ela as escrevia em minha mão. Nunca permitiu que ninguém me lamentasse ou adotasse para comigo o excesso de zelo que pode tornar a cegueira uma grande tragédia. Não consentia que alguém elogiasse qualquer coisa que eu tivesse executado, a menos que estivesse bem feita, e ficava ressentida quando alguém se dirigia a ela e não a mim, como o faria se eu fosse uma criança normal. Encorajava a minha família e meus amigos a falar-me livremente sobre todos os assuntos, para que eu aprendesse mais rapidamente a me expressar.”

A universidade e o trabalho pelos deficientes
Em 1893, Helen passou a ter aulas de latim e aritmética e desenvolveu gosto pelas línguas estrangeiras, que viriam a ser suas matérias favoritas. Aos 16 anos, Helen mostrou o desejo de ingressar na faculdade e iniciou estudos numa escola preparatória. Nessa época, Anne assistia às aulas com Helen e fazia todas as anotações e pesquisas, forçando sua visão debilitada, e depois as passava à aluna, por meio da linguagem de sinais ou reescrevendo tudo em Braille. Quando Helen finalmente entrou na Faculdade Radcliffe , Anne tinha que “ler” para Helen uma série que livros que não existiam em relevo ou Braille, durante cerca de cinco horas por dia, o que certamente contribuiu para o declínio de sua visão. Em 1904, Helen graduou-se em filosofia e, a esta altura, já dominava o francês, o latim, o alemão e o grego.

Sullivan não permitiu que a pupila iniciasse atividades em prol dos deficientes antes que a aluna tivesse certo grau de maturidade. Com isso, a professora queria impedir que a publicidade submergisse Helen ou deformasse sua perspectiva de vida antes que ela estivesse bem orientada. No entanto, todos os cuidados da professora para poupar a aluna não foram suficientes, já que a imprensa da época declarava constantemente que Keller era um autômato, incapaz de pensar por si mesmo, que apenas repetia as opiniões controversas de Sullivan. Estas declarações magoavam profundamente a professora, cujo desejo sempre tinha sido a independência total de sua pupila.

 

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