Capa

Língua e sociedade


As condições sociais influem no modo de falar dos indivíduos, gerando certas variações na maneira de empregar uma mesma linguagem.


Por Edmilson José de Sá


A variação linguística no português do Brasil
A noção da variação linguística pode ser exemplificada na Língua Portuguesa falada no Brasil observando-se a consoante / L /, que possui um comportamento bastante variável. Essa consoante pode ser realizada, entre outras maneiras, como uma semivogal lábio-dorsal – a forma mais encontrada, como em papel t papéu – ou com o apagamento da consoante – uma forma desprestigiada, como em papé. Nesse caso, os analistas se apropriam da gravação de um falante particular, anotando o número de vezes que a consoante / L / se realiza como uma semivogal lábio-dorsal e o número de vezes que a mesma consoante não se realiza, e deriva uma “contagem” para esse falante que reflete em seu uso da forma não-padrão. As ocorrências deste falante podem, então, ser comparadas com as de outros falantes, e, similarmente, as ocorrências para homens podem ser agregadas e comparadas com as ocorrências para as mulheres, assim como também podem ser relacionados os falantes da zona rural com os falantes da zona urbana e assim por diante.

 

Tecnologia


Susan Pintzuk

Susan Pintzuk, professora de Língua Inglesa e Linguística na Universidade de York, na Inglaterra, desenvolveu programa para análise estatística dos fenômenos variáveis da língua.


Celso Cunha
Celso Cunha (1917- 1989) era comprometido com os mais diferentes aspectos de estudo da Língua Portuguesa e um grande incentivador da sociolinguística no País. Ele foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Projeto de Estudo da Norma Urbana Culta (Projeto NURC), cujo objetivo inicial era documentar e descrever a norma objetiva do português culto falado em cinco capitais brasileiras: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. A partir de 1985, o escopo do projeto foi ampliado para abrigar outros aspectos, como análise da conversação, análise da narrativa e análise socio-pragmática do discurso.

Para quantificar os dados encontrados numa pesquisa de cunho sociolinguístico, já existem programas de computador que facilitam muito o trabalho do pesquisador. Em 1988, Susan Pintzuk criou um pacote de programas chamado de Varbrul, ou seja, “variable rules”. Esse programa é constituído basicamente dos programas Checktok, Readtok, Makecell e Ivarb.

Contudo, tendo em vista a evolução tecnológica dos sistemas operacionais, sentimos a necessidade de procurar um programa de análise que não só atendesse às exigências da nossa pesquisa, mas que se adequasse às inovações. Por isso, nossa análise quantitativa foi realizada através do programa Goldvarb, um aplicativo para a análise multivariada, baseado numa versão prévia do Goldvarb 2.0 criado pela equipe de David Sankoff em 1990. Enquanto o Goldvarb 2.0 funcionava em computadores de Macintosh, o Goldvarb 2001, organizado por John Robinson, Helen Lawrence & Sali Tagliamonte, e reflete a necessidade de muitos pesquisadores em um programa similar para Windows. Com ele, temos as variantes distribuídas segundo o percentual de ocorrência de acordo com as variáveis linguísticas e extralinguísticas escolhidas. Para não correr o risco de atribuir uma informação duvidosa a um determinado percentual de ocorrência, o programa também proporciona pesos relativos que estabelecem uma significância estatística para a ocorrência de uma determinada variante.

Apesar da importância dessa linha de descrição linguística, parece ainda haver alguma resistência na pesquisa variacionista, ainda mais pelo avanço das pesquisas da sociolinguística interacionista, que preconiza análises em nível micro e macro de práticas interacionais em diferentes contextos, como empresa, família, escola, hospitais, consultórios. Além disso, ainda abrange um estudo da relação enunciado/enunciação com o propósito de examinar a especificidade dos modos de subjetivação que se organizam em diferentes práticas discursivas, tanto orais como escritas.

Contudo, seja na perspectiva da variação, seja na perspectiva da interação, comungamos das sábias palavras de Celso Cunha segundo o qual nenhuma língua permanece a mesma em todo o seu domínio e, ainda num só local, apresenta um sem-número de diferenciações. Ele ainda reforça a importância do estudo da língua a partir da variação de ordem geográfica, ordem social e até individual, pois cada falante procura utilizar o sistema idiomático da forma que melhor lhe exprime o gosto e o pensamento, não prejudicando, pois, a unidade superior da língua, nem a consciência que têm os que a falam diversamente de se servirem de um mesmo instrumento de comunicação, de manifestação e de emoção.

O que precisamos deixar claro é que os processos de variação da língua não têm ocorrido de um dia para o outro, daí a importância também da análise qualitativa, fruto de um processo contínuo e sistemático de trabalho e reflexão sobre os aspectos formais da língua, seus gêneros, seus usos, seu contexto, sua história e seus falantes. Assim, talvez algum dia poderemos compreender a heterogeneidade existente na nossa língua materna.

A Língua de Eulália de Marcos Bagno
Editora Contexto (1997) Marcos Bagno discute sociolinguística por meio da história de três universitárias, Vera, Sílvia e Emília, que vão passar as férias na chácara da professora Irene, uma estudiosa das línguas. Lá, elas conhecem Eulália, amiga e exempregada de Irene, e é por meio do falar de Eulália que o autor introduz a questão da sociolinguística e das variedades da língua.

Estudos de Variação Linguística – O que é preciso saber e por onde começar de Edmilson Sá
Editora Textonovo (2007) Edmilson Sá, autor desta reportagem, pretende auxiliar a compreensão sobre a heterogeneidade das línguas, particularmente a Língua Portuguesa; facilitar a pesquisa do assunto, que antes só podia ser realizada consultando-se várias referências; mostrar os procedimentos metodológicos de realização da pesquisa sociolinguística e o tratamento dado a ela com vistas à obtenção de resultados proveitosos.

*Edmilson José de Sá é mestre em Linguística (UFPE), professor do Centro de Ensino Superior de Arcoverde em Pernambuco, pesquisador em Dialetologia e autor do livro “Estudos de Variação Linguística” pela Editora Textonovo, São Paulo.

 

 

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4
 
 
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 15/10/14
Língua e cultura
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 14/10/14
Educar para resolver problemas e não para dar respostas
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 15/10/14
Estilística e a evolução escrita

Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
Mito da Caverna:


Conhecimento Prático Filosofia :: Capa :: Edição 28 - 2011
Hannah Arendt, pensadora da política e da liberdade


Conhecimento Prático Filosofia :: Capa :: Edição 42 - 2013
Trabalho como conceito filosófico


Conhecimento Prático Filosofia :: Idéias :: Edição 37 - 2012
O amor filosófico e o puro prazer



Edição 49

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Reportagens
Etimologia
Gramática Tradicional
Ensino
Estante
Retratos

Assine
Anuncie
Expediente
Fale Conosco
Mande sua sugestão
Favoritos


Faça já a sua assinatura!
Conhecimento Prático Filosofia

Assine por 2 anos
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS