Língua Portuguesa: Mistura de povos e raças

A Língua Portuguesa surgiu de uma grande mescla de povos, quase sempre de linguajares populares menos utilizados. Veja como!

Texto Fátima Beatriz De Benedictis Delphino | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Os povos mais primitivos que habitaram a península Ibérica foram o cântabropirenaico e o mediterrâneo, de onde se originaram o basco e o ibero. No sul de Portugal e na baixa Andaluzia viviam os turdelanos ou tartéssios, parentes dos iberos. Sabemos, com certeza, que há três mil anos quem habitava a península Ibérica eram os iberos, agricultores e pastores que também sabiam trabalhar muito bem a cerâmica e o ouro. Mais tarde fenícios e gregos disputaram encarniçadamente a posse do sul de Portugal, região muito rica em prata, ouro e marfim. No século V chegaram os celtas, vindos da Alemanha, e se fixaram na Galécia e nas regiões mais altas do centro de Portugal. Os celtas e os iberos juntos formaram os celtiberos, que viviam sobre os montes, em aldeias bem cercadas por castros ou citânias, as conhecidas muralhas. Os púnicos, vindos de Cartago, também se estabeleceram  na região, mas logo foram expulsos pelo mais importante povo que passou a dominar a região: os romanos. Na primeira fase da invasão romana houve apenas lutas e guerras para dominar a área. Na segunda fase, época de Augusto, seguiu-se um período de paz e assimilação dos costumes romanos. Os povos que habitavam a região da península Ibérica acabaram adotando os costumes dos invasores, com exceção dos bascos, que não quiseram saber do latim. As causas da romanização são conhecidas: o recrutamento militar dos provincianos, que era temporário, mas trazia a opção de se tornar um cidadão romano, o excelente sistema rodoviário romano, obras e monumentos valiosos os romanos investiam no seu império e, mais tarde, o cristianismo, pregado com uso de um latim mais acessível. A língua local, uma mistura de todos os povos que citamos, evoluiu bastante com o latim. Havia no entanto duas versões: o latim clássico (sermo urbanus), gramaticalizado, usado pelas pessoas cultas da época, uma pequena elite, falado e escrito. É o latim dos grandes escritores e oradores latinos.

 

Seu uso perdurou pela chamada Era do Ouro, tanto na prosa como na poesia. Já o latim vulgar (sermo vulgaris) era falado a princípio apenas pelas classes inferiores da sociedade romana, como camponeses, soldados, comerciantes. Com o passar do tempo este passou a ser usado por todo o Império Romano. Seguem-se alguns exemplos das diferenças entre o latim clássico e o vulgar: Foi o latim vulgar que chegou à península Ibérica por volta de 197 A.C., trazido pelos soldados romanos, e que constitui a principal base do português atual. Não refletiu muito na fala, mas na escrita foi decisiva sua influência, constituindo a maior parte do vocabulário atual. As línguas locais foram modificadas com a chegada dos soldados romanos, tornando-se latinizadas. Um pouco mais tarde, no século V, vieram os bárbaros de origem germânica: vândalos, suevos e visigodos, que deixam cerca de 200 palavras no vocabulário existente, em geral designando armas, vestes e  insígnias. No século VII a península sofreu também a invasão dos árabes, que colocaram sua língua como oficial; o povo, no entanto, continuaram a usar o romance, língua local com grande influência do latim. O árabe ficou na Língua Portuguesa por meio da inclusão de um bom número de palavras no vocabulário, como algarismo, alcatruz, zero, chafariz, algodão, arroba, e por acréscimo de novas áreas do conhecimento em nossa cultura, como a Matemática, a Astronomia, a Navegação, a Agricultura etc. Trouxeram também para os ares da península a azenha e a cegonha, que serviam para tirar água de poços e eram novidades. Ensinaram a moer os cereais em moinhos de vento. Para expulsar os árabes foram organizadas várias cruzadas movidas a indulgências papais e seus campeões acabaram constituindo os reinos de Leão, Castela e Aragão. D. Afonso VI concedeu a mão de sua filha, D. Tareja, a D. Henrique e lhe outorgou o Condado Portucalense, território entre o Minho e o Douro, hoje Portugal. A partir da evolução do romance falado surge o galego-português. Depois, a independência política de Portugal gera a nossa Língua Portuguesa, que vai se distanciando cada vez mais do galego. Com as grandes navegações, característica marcante do povo português, o vocabulário passa a ser enriquecido com palavras trazidas de povos distantes. Entre muitas outras, da Ásia vem beniaga (mercadoria), chatinar (mercadejar), lascarim (homem de guerra). Da Índia vem caimal (senhor de muitos vassalos), guacil (ministro do rei), xeque (chefe mouro) cádi (juiz), chatim (comerciante), puravá (tecido branco) e muitas outras. A Língua Portuguesa, como toda língua viva, não para de receber influências. Chegando ao Brasil, compõe-se com as línguas indígenas e o africano a princípio e depois com a língua de todos os imigrantes. O Vossa Mercê da era medieval, que depois, entre outras alterações, virou vossmecê, hoje é você e parece que logo, logo  vai se tornar apenas cê! (Zé, cê tá bão?) Mas isto já é outra história…

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 51