Saiba por que a Língua Portuguesa é tão diferente dos demais lugares

Texto Maurício Silva | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

Celso Cunha, gramático de renome nos círculos acadêmicos brasileiros e lusitanos, ao tratar do tema da aclimatação da língua portuguesa no continente americano, afirmou, certa vez, que as discussões a respeito do português no Novo Mundo rapidamente migraram do terreno científico para o ideológico. Para ele, tais discussões resultavam, não poucas vezes, de preconceitos advindos de nossa tradição colonial, mas também do nacionalismo pós-independência que por aqui se instalou. E afirmava, em seu conhecido estudo Língua Portuguesa e Realidade Brasileira: “rebentos de um mundo novo, descoberto e colonizado por povos europeus de larga vida anterior, as nações americanas amanheceram na liberdade política sem haverem construído uma pátria cultural […] postos nestes termos, os problemas da língua derivaram naturalmente para o conflito de paixões. As duas correntes a tradicionalista e a nacionalista esquecem- se dos problemas e passam a viver o conflito de velhos e novos preconceitos. De um lado o purismo exagerado, uma concepção fossilizada da língua; de outro, o anelo por uma língua nacional, própria, desvinculada da portuguesa, o que os mais ardentes chegam, ainda hoje, a considerar um imperativo de nossa soberania”. De fato, a questão da língua portuguesa no Brasil foi, desde sempre, bastante controversa, dando ensejo a inúmeras teorias e querelas de toda sorte. Ao longo da historiografia linguístico-gramatical brasileira, é possível acompanhar de perto a polêmica trajetória dos estudos voltados ora para a afirmação do português brasileiro como uma variante distinta do português europeu, ora para a tentativa de evidenciar aspectos responsáveis por tornar ambos os falares um mesmo e único registro, os quais apresentariam apenas pequenas diferenças circunstanciais. Nesse sentido, são muitas as obras e autores que dedicaram boa parte de sua vida à discussão desse assunto, tanto nos limites restritos dos estudos gramaticais e filológicos quanto no âmbito mais geral das abordagens linguísticas.

 

Grosso modo, pode-se dizer que são de três ordens os estudos que se produziram na primeira metade do século XX, época áurea dos estudos acerca do “português brasileiro” – sobre o tema: as abordagens regionalistas, que procuraram redimensionar o uso da língua portuguesa no Brasil a partir das contribuições genericamente denominadas de brasileirismos, como O Dialeto Caipira
(1920), de Amadeu Amaral, O Linguajar Carioca (1922), de Antenor Nascentes, A Língua do Nordeste (1934), de Mário Marroquim, Linguagem de Goiás (1944), de José A. de Oliveira e tantos outros do mesmo gênero, incluindo aí os estudos lexicográficos, como os de Roque Callage (Vocabulário Gaúcho, 1926), de Dante de Laytano (Vocabulário do Nordeste do Rio Grande do Sul, 1933) ou de Pereira da Costa (O vocabulário pernambucano, 1937); as abordagens relacionadas aos aportes morfossintáticos no português do Brasil, como O Tupi na Geografia Nacional (1901), de Teodoro Sampaio, A Influência Africana no Português do Brasil (1933), de Renato Mendonça e outros; e as abordagens genéricas, que, dedicadas exclusivamente ao português do Brasil, trataram
dos mais diversos aspectos (fonológicos, morfológicos, sintáticos, semânticos etc.) de seu uso nos limites do território nacional, adotando, para tanto, perspectivas igualmente variadas (históricas, sociológicas, linguísticas etc.), com uma gama bastante diversificada de autores, como Virgílio de Lemos (A Língua Portuguesa no Brasil, 1916), João Ribeiro (A Língua Nacional, 1921), Antenor Nascentes (O Idioma Nacional, 1926-1928) Clóvis Monteiro (Português da Europa e Português da América, 1931), Domingos de Castro Lopes (A Língua Brazileira, 1935), Luiz Viana Filho (A Língua do Brasil, 1936), Renato Mendonça (O Português do Brasil, 1936), Cândido Jucá Filho (Língua Nacional, 1937), Paulo Duarte (Língua Brasileira, 1944), Serafim da Silva Neto
(Capítulos de História da Língua Portuguesa no Brasil, 1946), Mário Ypiranga Monteiro (Aspectos Evolutivos da Língua Nacional, 1946), Gladstone Chaves de Melo (A Língua do Brasil, 1946), Serafim da Silva Neto (Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil, 1950), Barbosa Lima Sobrinho (A Língua Portuguesa e a Unidade do Brasil, 1958) e outros. Mesmo se pensarmos na reflexão acerca da língua portuguesa no Brasil realizada além dos limites geográficos de nosso país, temos autores – em geral, portugueses, por um motivo óbvio – que produziram livros sobre o tema, como José Pedro Machado (O Português do Brasil, 1943), Manuel de Paiva Boléo (Brasileirismos, 1943), Agostinho de Campos (Futuro da Língua Portuguesa no Brasil, 1948) e outros. Muitas dessas obras afirmam-se como discursos ideologicamente marcados, que certamente não estão isentos de certo nacionalismo idiomático.

 

Contudo, há que se destacar que, com o despontar de novas teorias linguísticas a partir da segunda metade do século XX (como a Sociolinguística), ou com o aperfeiçoamento dos métodos de análise da linguagem a partir do desenvolvimento de teorias já consagradas (como a Linguística Histórica), os estudos acerca da aclimatação da língua portuguesa no Brasil ganharam novo alento, sofrendo um amplo processo de atomização, por meio do qual as preocupações genéricas passaram a ceder lugar, cada vez mais, a abordagens particularizantes, quando então proliferaram teses acerca da crioulização do português brasileiro; de suas especificidades relacionadas à concordância, à colocação pronominal, à regência e conjugação verbais; dos brasileirismos e dos registros lexicais populares; dos estudos filológicos e das abordagens sócio-históricas dedicadas ao português do Brasil; de suas variações e mudanças, seja resultantes de contatos geográficos fronteiriços, seja em decorrência de miscigenação étnica; e muitos outros estudos dedicados a aspectos pontuais da língua portuguesa falada e/ou escrita em território nacional. Praticamente todos esses estudos têm e tiveram o intuito de revelar como o português brasileiro apresenta, em maior ou menor grau de assimilação, marcas que lhe conferem uma relativa autonomia frente ao linguajar lusitano como o uso de vocábulos diferenciados, a flexibilização frásica, o emprego do discurso indireto livre, a rejeição dos modelos tradicionais de composição oracional, as variantes ortográficas, o uso continuado dos recursos provenientes da oralidade, a liberdade gramatical etc. –, dando novo alento às teorias que reconhecem no afastamento de nosso registro linguístico da matriz europeia não apenas uma necessidade intrínseca, mas uma realidade consumada. De qualquer maneira, um estudo acerca da constituição do que se convencionou chamar de “português brasileiro não dispensa considerações acerca das marcas ideológico-discursivas que sustenta(ra)m os argumentos da diferenciação ou da aproximação entre os registros brasileiro e lusitano e como eles se inscreveram nas obras de autores que, pelo menos desde finais do século XIX, esforçaram-se para construir teorias linguísticas singulares a esse respeito. Nesse sentido, pode-se afirmar que tanto os argumentos da diferenciação quanto o da aproximação entre os falares brasileiro e europeu serviram, em determinados momentos, de sustentação para teses de teor nacionalista em relação à incidência da língua portuguesa no Brasil. Semelhante abordagem não prescinde, tampouco, da análise de conceitos particularmente caros a esse tema, como os de dialeto, brasileirismo, variantes e muitos outros. A questão, como se vê, parece complexa, mas nada que possa ser exposto de forma didática aos interessados sobre o assunto. É, aliás, o mesmo Celso Cunha, agora em seu livro Língua, Nação, Alienação, quem esclarece que o português que aporta no Brasil do século XVI sofre intenso processo de transformação, a ponto de alguns estudiosos do assunto optarem por considerar nosso modo de falar um autêntico dialeto.

 

Exemplo disso é o caso do famoso filólogo Sousa da Silveira, que, em pleno século XX, em conferência realizada no salão do Jornal do Comércio (1920), tece considerações sobre a língua portuguesa no Brasil, considerando-a resultado de uma evolução dialetal. Teorias à parte, o fato é que, transplantada para outros continentes, a língua portuguesa torna-se o centro de um conflito real entre o falante do continente americano e os falantes europeus de modo geral, fazendo com que os registros utilizados nas colônias fossem vistos como espúrios e corrompidos. Como afirma Mattoso Câmara, nos seus Dispersos, “a língua colonial era vista, da mesma sorte que os dialetos do território da metrópole, como modalidades espúrias de dizer, fruto e índice de ignorância e
bruteza. Tanto na metrópole como nas colônias a língua standart é que se visava através da educação e do refinamento do trato social”. A discussão em torno da natureza e da identidade do
português brasileiro, contudo, está longe de terminar e, para sermos mais exatos, está apenas dando os seus primeiros passos. Trata-se de uma discussão longa e complexa, em que teorias
ora mais objetivas, ora mais personalistas ocupam lugar no debate. Uma delas, por exemplo, é aquela que opõe, de um lado, João Ribeiro – com seu célebre livro A Língua Nacional –, para quem a ocorrência de brasileirismos no novo continente teria sido um elemento fundamental de diferenciação dos registros americano e europeu; e, de outro lado, Silveira Bueno – no livro Estudos de Filologia Portuguesa -, segundo o qual não foram os brasileirismos, mas sim os arcaísmos os principais responsáveis por essa diferenciação. Toda essa discussão tem raiz nos fatos histórico-linguísticos responsáveis pelo deslocamento e pela aclimatação da língua portuguesa no Novo Mundo, inaugurando, no âmbito dos estudos linguísticos brasileiros, a decantada questão da variação diatópica da língua portuguesa no Brasil.

 

Língua transplantada, nos dizeres de Gladstone Chaves de Melo (A Língua do Brasil), o português para cá trazido teria sofrido incontáveis influências de outros idiomas e culturas, não apenas em razão de condições históricas e geográficas específicas, mas sobretudo em função de condições sociais diversas, embora tais influências tenham-se dado principalmente em relação às línguas indígenas e africanas. Sobre as primeiras, há que se considerar a existência, no período colonial, de centenas de idiomas indígenas (guarani, tupinambá, tipiniquim, jê, cariri etc.), num cálculo que aponta para a ocorrência de centenas de línguas indígenas autóctones, faladas por cerca de cinco milhões de nativos, das quais restariam atualmente cerca de cento e oitenta. A influência  indígena, portanto, pode ser notada, no que compete ao léxico português, tanto nas toponímias (Pará, Ceará, Pernambuco etc.) quanto nos nomes de elementos da natureza (abacaxi, capim etc.) ou nos antroponímicos (Araci, Iracema etc.). Esse fato parece ter se estendido, até com mais frequência, para o campo fonológico, onde encontramos ocorrências tradicionalmente creditadas à incidência dos idiomas indígenas sobre o português, como a articulação com entoação mais nítida das vogais pretônicas (diferente, perigo, pequeno e semana), no Brasil, em oposição às formas portuguesas (dif ’rente, p’rigo, p’queno e s’mana); a articulação mais nítida das vogais finais /e/ e /i/ (ponte, febre e vinte), no Brasil, em oposição a (pont’, febr’ e vint’), em Portugal; a queda das consoantes finais (apócope) /l/ e /r/ (carnavá, arraiá, papé, chorá e amô), no português popular, em oposição às formas padrão (carnaval, arraial, papel, chorar e amor); a nasalização de vogais tônicas em contato com consoantes nasais (cãma, colõnia e Antõnio) no Brasil e (cáma, colónia e António) em Portugal. A influência indígena pode ser verificada, ainda, tanto no âmbito da morfologia, com a autonomia, no léxico do português brasileiro, de alguns elementos aglutinados: tatu-açu, batalha-mirim, mandioca-puba; quanto na sintaxe, com a ocorrência de algumas inversões na construção frásica: água muita, vou não etc. Já no que se refere à influência das línguas africanas sobre o português do Brasil, podem ser verificadas, no campo da fonologia, a redução da palatal lh (mulher > muié, trabalhar > trabaiá, filho > fio) ou na ocorrência de epênteses, a fim de desfazer encontros consonantais (flor > fulô). No âmbito da morfologia, por exemplo, houve tanto a simplificação das flexões no registro popular (os home, as muié) quanto a incorporação léxica do prefixo diminutivo ca- (caçula, camondondo, calombo). Já na sintaxe, verificam-se a substituição do pronome pessoal oblíquo direto pelo indireto (convidei- lhe, abraço-lhe) e a simplificação da regência verbal (fui na venda). Finalmente, é no domínio da lexicologia que observamos a maior incidência dos falares africanos sobre o português para cá trazido, uma vez que novos vocábulos são acrescidos ao léxico português, seja no campo da culinária (acarajé, angu, bobó, fubá, quindim, vatapá) e da religião (candomblé, exu, iemanjá, macumba, mandinga, orixá, xangô), seja no dos vegetais (chuchu, jiló, quiabo, inhame) e das danças (lundu, maracatu, samba), além de nomes de objetos em geral (agogô, berimbau, cachimbo, carimbo, miçanga, tanga). Todos esses fatos, contudo, são atestados por uns e contestados por outros estudiosos da língua portuguesa no Brasil, fazendo jus às disputas – ideológicas ou não – a que nos referimos anteriormente. O fato é que, com a Independência, a língua portuguesa conhece, por aqui, um novo período de desenvolvimento e consolidação. Com o crescimento dos centros urbanos e com a vinda da corte portuguesa em 1808, por exemplo, há maior difusão da uma língua culta, além do abrandamento (sobretudo nos centros urbanos) do bilinguísmo luso-tupi. Isso se deve, também, à criação de instâncias de legitimação do português (escolas, biblioteca, imprensa etc.), bem como ao processo de escolarização que se expandia cada vez mais. Assim, aos poucos, o português utilizado no continente americano vai se diferenciando daquele empregado na Europa: em termos fonético-fonológicos, ocorre a queda de algumas consoantes mudas (diretor ¹ director, adoção ¹ adopção, batizar ¹ baptizar, fato ¹ facto), a vocalização do /l/ velar final (animal [u], amável [u], sol [u]), a palatização de /t/ e /d/ (tio [tch], dia [dj], mentiu [tch], diferença [dj]). Já na morfologia, verifica-se a opção por grafias singulares (aceito em vez de aceite, dezesseis em vez de dezasseis, quatorze em vez de catorze), além, logicamente, de um vocabulário diferenciado (bonde em vez de eléctrico, aeromoça em vez de hospedeira, terno em vez de fato).

 

No âmbito da sintaxe, finalmente, optamos, por aqui, pelo emprego do gerúndio em oposição ao infinitivo, em algumas locuções verbais (está fazendo em vez de está a fazer, estou escrevendo em vez de estou a escrever, estava comendo em vez de estava a comer); há, ainda, no português do Brasil, uma clara preferência pela próclise (João se levantou em vez de João levantou-se, eu me lavei em vez de eu lavei-me, nós nos arrumamos em vez de nós arrumamo-nos), além do uso do verbo ter com sentido de haver (tinha muitas pessoas na sala em vez de havia muitas pessoas na sala, tínhamos feito o possível em vez de havíamos feito o possível) Como dissemos, a discussão em torno do chamado “português brasileiro” está longe de terminar. Mas, de qualquer maneira, o que parece mesmo certo é que, ao longo dos séculos, o Brasil passa – primeiro – de uma situação de multilinguísmo para uma situação de unilinguísmo (com a prevalência do português sobre os idiomas indígenas e africanos) e – segundo – de uma homogeneidade idiomática para uma heterogeneidade idiomática (com a predominância do registro americano da língua portuguesa).

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 55