João Ribeiro e a defesa da língua nacional

Conheça o defensor da língua nacional e do registro do vernáculo brasileiro

Texto Maurício Silva | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

Figura proeminente no cenário cultural brasileiro da passagem do século XIX para o XX, o sergipano João Ribeiro (1860 – 1934) foi autor de copiosa produção intelectual, tratando com competência e desenvoltura de assuntos que iam da crítica literária à ciência contemporânea, da filologia clássica aos estudos linguísticos, da história do Brasil à gramática portuguesa.

 

Assim, como crítico de renome, João Ribeiro opinou sobre os mais diversos temas, principalmente aqueles voltados para a cultura e, em especial, literatura nacionais, considerando o texto literário uma mescla de fonte perene de criação artística original (criatividade) e instrumento de veiculação de conceitos culturais mais amplos (ideologia), enquadrando-se numa linhagem que, segundo Salete de Almeida Cara, se traduz no dilema vivido por aqueles críticos que – como José Veríssimo e Adolfo Caminha – viviam o impasse entre ser crítico literário e, ao mesmo tempo, crítico cultural.

 

NACIONALISMO LINGUÍSTICO

 

Foi, porém, sobretudo como filólogo (que, numa perspectiva restrita, mas bastante apropriada para a sua época, poderia significar gramático) que João Ribeiro se destacou. Nessa condição, percorreu uma trajetória intelectual que foi do conservadorismo linguístico a posições mais arejadas e, às vezes, principalmente para a época em que foram defendidas, francamente avançadas. Assim, embora suas ideias acerca de determinados fatos gramaticais e a própria concepção da gramática padecessem de uma visão reducionista da língua, não se pode negar que em obras mais “liberais”, como em seu célebre livro A Língua Nacional (1921), João Ribeiro assume uma posição que prenunciava o discurso iconoclasta e antilusitano de nossos mais combativos modernistas, defendendo, por exemplo, o direito dos brasileiros à independência linguística.

 
A década de 1920, no alvorecer da qual João Ribeiro publica seu livro, é de particular importância para a afirmação do nacionalismo linguístico brasileiro, o que se dava, em geral, pela via da negação do estatuto lusitano da língua portuguesa, conferindo a esse nacionalismo uma natureza claramente antilusitana e antipassadista. Como nos ensina Marli Quadros Leite, “a bandeira modernista europeia, calcada no antipassadismo foi transmudada, no Brasil, para o nacionalismo. No fundo, o nacionalismo era o antipassadismo, a negação da presença portuguesa na linguagem”. Evidentemente, havia uma reação conservadora a esse posicionamento, como aquela representada pela Revista de Língua Portuguesa, dirigida por Laudelino Freire; a vereda da renovação da língua portuguesa no Brasil (que alguns, mais ousados, preferiam inclusive chamar de língua brasileira), já tinha, contudo, sido aberta, e os modernistas só viriam consolidar um ideário independentista que, em termos idiomáticos, seria cada vez mais frequente no território nacional.

 
Considerado uma obra de luta pela dignidade e valorização da vertente brasileira da língua portuguesa, o livro A Língua Nacional, de João Ribeiro, é, na verdade, uma obra composta por estudos diversos, tanto em torno da linguagem em geral quanto, mais especificamente, da língua portuguesa. Já de início, contudo, João Ribeiro começa uma polêmica que se estenderá por todo o texto, seja por meio da exposição explícita de teorias acerca da língua portuguesa no território nacional, seja por comentários de palavras e expressões próprias do registro do vernáculo brasileiro. Condenando a preocupação que os leitores em geral manifestam acerca do bem falar e do bem escrever, quase sempre tendo como referência os modelos expressivos e gramaticais lusitanos, o gramático sergipano considera tal atitude nada menos do que um atentado à nossa nacionalidade e uma afronta à sensibilidade linguística do falante brasileiro, uma vez que, como afirma, “os nossos modos de dizer são diferentes e legítimos”. Desse modo, renega nossa suposta tendência à imitação excessiva e à submissão às normas gramaticais lusitanas.

 

BRASILEIRISMOS

 
Outra questão cara ao autor é o problema dos brasileirismos. O termo, que raramente aparece nesse seu primeiro capítulo — com exceção do final, quando o autor defende a tese de que muitos dos brasileirismos de que somos acusados de usar não passam de arcaísmos aqui preservados —, é o assunto central do segundo; de fato, nesta parte de seu livro João Ribeiro assinala que a forma como o léxico português se inseriu e se relacionou com os idiomas nativos da terra acabou marcando de modo indelével o perfil da língua portuguesa aqui utilizada, conferindo-lhe se não um estatuto independente, ao menos uma inquestionável singularidade.

 
Assim, marcado por um fundo sentimento de nacionalismo (João Ribeiro preferia, no lugar de língua portuguesa, a denominação Língua Nacional, grafada em maiúsculo!) e de independência (para ele, o modo como um idioma se organiza tem repercussão direta na independência do nosso pensamento e de sua expressão), seu A Língua Nacional adquire cada vez mais um tom polêmico, denunciando a artificialidade de um registro importado de Coimbra, a submissão às regras e aos falares portugueses, o emprego de um estilo forâneo e até o emprego equivocado da colocação pronominal entre aqueles que se curvam à norma gramatical lusitana.

 
Considerando o registro europeu da língua portuguesa algo afetado e artificioso, em oposição à maneira espontânea e natural do brasileiro, não é difícil perceber em seu discurso outro sentimento igualmente dominante: o de antilusitanismo. Sem aceitar qualquer submissão às regras gramaticais e aos registros linguísticos provenientes do português europeu, João Ribeiro defende peremptoriamente o fato histórico de que a língua portuguesa para cá trazida teria sofrido intenso processo de reconstrução e de renovação, motivo pelo qual, para ele, seguir à risca as normas da língua prescritas pelos portugueses significaria mutilar nossas ideias e sentimentos e sujeitar nosso espírito a um inaceitável servilismo. Como ele mesmo diz, “a nossa gramática não pode ser inteiramente a mesma dos portugueses. As diferenciações regionais reclamam estilo e método diversos […] Em geral, todas as mutilações por amor da vernaculidade (ou antes do portuguesismo)
envolvem qualquer sacrifício d’alma, destrói os meios-tons, e os matizes criados sob a luz e o céu americano”.

 
Logicamente, semelhante concepção das diferenças e divergências entre o português empregado no Brasil e o português lusitano perdia força quando inseridas na discussão mais ampla, não inteiramente nova em sua época, acerca das peculiaridades linguísticas presentes no português falado dos dois lados do oceano, mas mesmo no complexo enquadramento mental das primeiras décadas do século XX, as ideias de João Ribeiro não deixam de apresentar uma salutar ousadia.