Figuras de linguagem: assonância e aliteração

Por Luiz Roberto Wagner e Djenane Sichieri Wagner Cunha*  | Foto Shutterstock

Quem nunca ouviu este verso de Caetano Veloso, presente na composição musical Chuva, suor e cerveja: Acho que a chuva ajuda a gente se ver, em que a reiteração das fricativas e das palatais sugere o barulho da chuva. Há determinadas figuras de estilo que combinam os elementos sonoros de uma língua em textos, discursos, poemas, etc., para que soem agradavelmente. Chamam-se figuras de som aquelas que se ligam aos aspectos fonéticofonológicos das palavras. São elas: aliteração, assonância, paronomásia e onomatopeia. Neste artigo, vamos nos ater, especificamente, às duas primeiras. Tais figuras foram muito exploradas pelos poetas simbolistas lusobrasileiros, como Camilo Pessanha, Eugênio de Castro, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. Além do subjetivismo, do misticismo e da musicalidade, havia uma certa preocupação com a sugestão, com o emprego de sensações (sinestesias) e com a repetição de consoantes e vogais idênticas ou parecidas. Tendo em vista que a música é dos recursos que mais sugerem e melhor evocam o vago, o indefinível, o simbolista buscava explorar o conteúdo musical das palavras. Visando à aproximação da poesia com a música, os poetas lançaram mão de vários recursos, como a aliteração e a assonância.

ALITERAÇÃO
É a repetição proposital e ordenada de sons consonantais idênticos ou semelhantes. O efeito serve para reforçar a imagem que se quer transmitir.

“Esperando, parada, pregada na pedra do porto.” (Dalla, Pallotino, Chico Buarque)

A reiteração e a sonoridade da consoante oclusiva bilabial /p/, principalmente no início das palavras, sugerem a fixação, a imutabilidade da personagem.

“Chove chuva choverando Que a cidade de meu bem Está-se toda se lavando.” (Oswald de Andrade)

Neste exemplo do poeta modernista, a repetição do som fricativo /ch/ enriquece a ideia de chuva. Nos versos abaixo, do poeta Carlos Drummond de Andrade, percebemos a repetição de determinados elementos fônicos, como a sonoridade das consoantes /b/, /p/ e /t/, recurso da aliteração; a reiteração da nasalidade /õ/, exemplificando a assonância; e a paronomásia (semelhança de sons e diferença de sentidos) com bomba/pomba e atômica/atônita. Por serem consoantes oclusivas, os sons /p/ e /b/ também sugerem a explosão da bomba.

“Bomba atômica que aterra
Pomba atônita da paz
Pomba tonta, bomba atômica…”
A aliteração tem como efeito, geralmente, o reforço do ritmo que o escritor pretende imprimir à frase. Ela é mais comum na poesia do que na prosa. Vejamos um exemplo na prosa de Guimarães Rosa, em que a aliteração serve para enfatizar o significado central do texto:
“Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando…”
Observemos este excerto da composição musical Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime:
“[…]
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
[…]”
Nesses versos, há um recurso expressivo sonoro na passagem “tenebrosas transações”. A aliteração da consoante /r/ intercalada que aparece também em pátria, distraída e subtraída, dá relevo à expressão e reforça a sugestão de soturnidade que a reveste.

Nos textos em prosa de caráter não literário, a aliteração torna-se um defeito (vício de linguagem) e deve ser evitada. Chama-se colisão: Vejamos um exemplo:

“Prefeituras param no Paraná para contestar medidas.” (Folha de S. Paulo)

ASSONÂNCIA
É a repetição proposital de sons vocálicos idênticos ou semelhantes.

“A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga, caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá.” (Gregório de Matos)
Note que, além das aliterações, existem sons vocálicos usados repetidamente: a, i, u.
Em seu soneto Cárcere das Almas, Cruz e Sousa emprega, propositadamente, várias palavras com o fonema /a/, sugerindo amplidão, liberdade, imensidade, talvez por ser a vogal que pronunciamos de forma mais aberta.
Ah! Toda a alma num cárcere anda presa
Soluçando nas trevas entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.
Ó almas presas mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da dor, no calabouço atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!
A sensualidade, muito explorada pelo poeta, é substituída por uma ansiedade existencial: o texto exprime um desejo muito forte de transcendência, de superação dos limites impostos ao ser humano – que se impõe por meio da libertação dos sentidos. Indaga-se sobre as “chaves” capazes de abrir as “portas do Mistério”, às almas que soluçam nas trevas. Em todo o poema, o autor procurou destacar a limitação e a rigidez a que a alma humana está condenada. A condição humana é angustiante, na visão revelada por estas palavras: o cárcere das almas é o próprio corpo (condição material, a própria vida na terra). Soluçando entre as trevas, a alma, de sua “prisão” vê as imensidades, mares, estrelas, tardes, natureza, isto é, o mundo em suas manifestações de infinito e plenitude, o mundo em sua totalidade. Percebemos que a primeira estrofe é marcada pela assonância em “mares”, “estrelas”, “tardes”, “natureza”.

Na quarta estrofe, marcada pela aliteração (repetição de sons consonantais), presente no verso inicial, o eu lírico procura valores espirituais como solução que possibilite à alma o encontro com a libertação da triste condição material. Independente da vogal usada, pode-se levar o assunto adiante como se fosse um texto comum. Assim:

“A fala atracada à faca
Ataca a graça abalada da traça
Perene que fere, repele
E ensebe esse blefe de pele
Que incide livre, insigne e triste
No horror dos sonhos nos coros
Num sururu de urubus em cruz”
Com essa sequência alfabética de
vogais, o texto pode continuar, enquanto a
imaginação e o divertimento persistirem.”


MESCLA DE FIGURAS
É muito comum que as figuras apareçam mescladas em um mesmo texto. O escritor Paulo Lins, em seu romance Cidade de Deus, expressa o avanço da violência no Brasil, nas últimas décadas, com a frase: “Falha a fala. Fala a bala.”

Nas duas frases, podem-se identificar a aliteração, configurada na repetição do fonema /f/; a assonância, pela repetição da vogal a; a paronomásia, pelo trocadilho ou jogo de palavras com apelo sonoro; e a personificação, pela característica humana atribuída à “bala”. Os poetas concretistas tinham certa predileção pelo verbivocovisual (palavra, som e imagem), com a escolha de palavras que concretizassem suas ideias auditivas e visuais. Analisemos, agora, este poema concretista de Ferreira Gullar:

O GOL
A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia
altura onde
iluminada
a esfera espera
o chute
que
num relâmpago
a dispara na direção
do nosso
coração

Percebe-se claramente que o poema apresenta aliteração (cadeia de sibilantes /s/: esfera, desce, espaço, veloz, depois, dispõe, esfera, espera, dispara, direção, nosso, coração), assonância (cadeia de vogais e) e paronomásia (apara / a para, esfera / espera).

“E tia Gabriela sogra grasnadeira grasnou graves grosas de infâmia.” (Oswald de Andrade)

Com a repetição de fonemas, o escritor modernista consegue um certo efeito de sentido: a fala de tia Gabriela assemelha-se, ironicamente, a um animal que emite o som alto, tais como corvos e abutres (o pato também grasna). Para conseguir tal efeito, o autor utilizou-se de duas figuras de linguagem: a aliteração e a assonância. As figuras sonoras sempre foram empregadas por escritores – de Camões a Chico Buarque –, e podem, por conseguinte, contribuir para que o autor torne mais vivo o texto, além de explorar a musicalidade, com os sons e o sentido próprio das palavras, sugerindo um efeito de sentido, despertando sensações e impressões no leitor, visando à melhor compreensão do texto.

*Luiz Roberto Wagner é doutor em Letras pela UNESP de Araraquara-SP e autor do livro Use o português adequado: aspectos gramaticais e análise de textos. 3. ed. São
Paulo: All Print.
*Djenane Sichieri Wagner Cunha é pós-doutoranda em Língua Portuguesa, pela PUC-São Paulo.

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 42