Escola: um espaço subestimado na construção da autoestima e da cidadania

Entenda as críticas na escola brasileira e sua relação de desejo com a sociedade

Texto: Teuler Reis | Fotos: Shutterstock, 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

A grande mudança, esperada por todos os setores da sociedade, pode ser feita no espaço educativo. O desejo da sociedade precisa “mover” a escola, precisamos nos apropriar dessa ferramenta capaz de mudar a história sofrida do povo. Mas, infelizmente não se vê preocupação, na grande maioria dos educadores, com o lado emocional do aluno, o tema bullying, por exemplo, não representa prioridade para a escola, por enquanto. Quantas vezes ouvi professores dizerem que isso é assunto dos pais, “não estou aqui para isso”, diziam outros. Meu desejo era dizer a eles para irem fazer outra coisa, pois ali, é sim, lugar de formar cidadãos. A escola é, por excelência, o local apropriado para formação humana. A resistência em perceber que é preciso ter uma visão mais ampla sobre o “educar” cria barreiras para que o novo venha assumir seu lugar. Não consigo pensar numa escola ideal sem que essa considere o lado emocional e afetivo do aluno. A ideia equivocada de caber somente aos pais a tarefa de formação humana resiste ao tempo; mas é preciso avançar. Foi o tempo em que os pais abraçavam essa tarefa e não o fazem mais, e permanecem nesse empurra-empurra que nada resolve.

Modelo falido
Estamos diante de um problema que cresce a cada dia, a sociedade precisa se apoiar nas ferramentas que estão ao seu alcance. Não quero dizer que os pais não sejam responsáveis, também, de forma alguma; vejo avanços na passividade, seja ela da escola ou da família. O fato é que a geração de pais que está chegando aí já é “vítima” de um modelo falido. São pais, na sua grande maioria, omissos, quando não, agressores. Ao meu ver esses pais veem a escola como um oponente, uma inimiga, e projetam em seus filhos suas más impressões. Quem acompanha o dia a dia do sistema de ensino sabe bem do que estou dizendo. Não é difícil ver pais tomando as “dores” dos filhos e correrem para a escola para esbravejar. Em alguns casos, nem se dão ao trabalho de escutar a outra versão. A culpa pela ausência certamente explica muito esse comportamento.

Voltando à escola, vejo um grande número de professores, diante da tarefa nobre de formar cidadãos e seres humanos melhores, que abolem a discussão sobre o bullying e outras práticas repudiáveis do espaço da sala de aula, e delegam o título de “modismo” até às questões mais graves dessa ordem. Muitas vezes, o que está por trás dessa inércia profissional é apenas a preguiça de abraçar a mudança. Entendo que sejam mal pagos, que enfrentam péssimas condições de trabalho, mas quando o assunto é formar seres humanos não dá para ficar em cima do muro, não há espaço para fazer por menos — ou se faz o melhor ou nos tornamos parte do processo que cria delinquentes e marginais.

O bullying se alastra
A verdade é que a escola nunca abraçou essa problemática social. O bullying se alastra tra silenciosamente em todos setores da sociedade, talvez porque a própria escola que deveria se espantar diante dele permanece omissa. Tenho notícias o tempo todo de pessoas sendo discriminadas no trabalho, diversos casos de humilhações que não dão em nada. Atendo adolescentes e crianças na clínica, e já perdi a conta do número de relatos de práticas de bullying em sala de aula, tanto por parte dos alunos quanto dos professores e de funcionários que justamente deviam cuidar para que isso nunca acontecesse. Mais triste ainda é quando esses relatos retratam vítimas de bullying dentro de casa. Embora possa parecer estranho, isso é mais comum do que imaginamos. Até nesse sentido o professor pode fazer a diferença. Muitas crianças buscam nos professores uma oportunidade de reconstruir a autoestima. O professor sensível a essas questões é capaz de perceber a demanda da criança, e pode fazer a grande diferença na vida delas. Lembro de um aluno que passava horas desenhando na sala de aula, e já havia escutado, em reuniões de professores, queixas e mais queixas sobre sua atitude “desligada”. Eram sempre acompanhadas de outras queixas como “ele não faz os deveres” e “só tira notas baixas”. Resolvi interceder naquela situação, afinal, nunca aceitei passivamente os rótulos criados por alunos ou colegas. Certo dia, enquanto explicava matéria, percebi que ele desenhava na carteira. Caminhei em sua direção e assim que ele percebeu, fechou o caderno num piscar de olhos. Solicitei que abrisse o caderno e ao ver os desenhos fiquei surpreso com sua capacidade de desenhar. Elogiei seus desenhos e ele, sem entender muito, ficou admirado pelo fato de não levar outra advertência. Ao final da aula, passei uma atividade e me dirigi a ele dizendo que poderia fazer a atividade por meio de desenhos, desde que me apresentasse algo plausível e coerente. A resposta foi rápida, passou a se interessar pelas aulas, se sentiu valorizado, afinal de contas seu talento não o era, até então. Quando lembro desse caso, não deixo de pensar em como tratamos os nossos talentos na escola. Não seria dever da escola estimular a descoberta de talentos e, consequentemente, elevar a autoestima dos alunos? Por que não atuamos assim?

Construir a autoestima
A escola pode ser um lugar de construção, mas também desconstrói. Os alunos chegam “moldados” e, aos poucos, são tocados pelas diferenças. Há sempre o risco de comprometer negativamente sua autoestima quando não existe um olhar cuidadoso dentro do espaço. Mais que ouvir, o professor deve escutar seu aluno.

Temos muito trabalho diante do desafio de construir a autoestima na escola. Não há “berço” para construção de autoestima quando a educação está corrompida de pessoas mal preparadas. Como podemos falar de autoestima quando a sociedade como um todo mergulha em disparada rumo à falta absoluta de ética?

Durante anos tive a alegria de viajar o país de norte a sul realizando palestras para pais, alunos e professores. Encontrei pessoas comprometidas com a educação, pessoas dispostas a encontrarem o verdadeiro sentido da escola. Porém, difícil era encontrar uma escola que acolhia essas pessoas e seus ideais.

São lutas e lutas para romper com o paradigma de ensinar as disciplinas tradicionais. O simples fato de cogitar a inserção de novas disciplinas com conteúdo de formação humana já causa incômodo. A escola não está muito interessada em ouvir as dores dos seus alunos. Ela só se dá conta de que elas existem quando algo ruim acontece entre muros ou no seu entorno. Se criássemos mais espaços para “visitar” essas dores, poderíamos evitar muitos problemas. Basta lembrar que havendo um agressor há sempre uma ou mais vítimas, e se esse agressor comete bullying com o colega é porque seus valores não foram devidamente trabalhados. Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire faz uma reflexão sobre o oprimido que se tornar o opressor — a leitura do livro revela uma trama de bastante relevância para pensar o bullying, e constatar a estreita relação entre o oprimido e o opressor. Na escola, essa realidade se aplica também aos educadores, pois muitos deles foram alunos questionadores, foram críticos da estrutura e hoje cometem os mesmos erros dos seus mestres. É mais fácil repetir o caminho dos opressores do que lutar pela mudança. Se fossem capazes de tomar distância e refazer o percurso de maneira diferente, mudariam de maneira significativa o modelo vigente na escola. Mas, infelizmente, nós nos “colamos” nesse modelo e sair dele é quase um sonho, até porque, hoje, o modelo favorece o lucro que move grande parte das escolas brasileiras.

Sempre acreditei ser a escola um lugar capaz de transformar a sociedade. A sala de aula é fantástica. É um espaço extremamente rico e profícuo se colocado em mãos certas. O que nos falta é colocar em prática o que está posto nos parâmetros curriculares nacionais. Os projetos educacionais do Brasil são ótimos, mas estão no papel, e como dizia um grande amigo e escritor: o papel aceita tudo.

Cidadania como alvo
Importante lembrar que segundo os parâmetros “as disciplinas devem funcionar como ferramentas para atingir a cidadania”, isso deixa claro que mais importante que ensinar aos alunos a matemática ou o português, o professor deveria ter como alvo a cidadania. Defendo isso com toda minha força: a escola precisa formar cidadãos, e isso é muito mais que ministrar as disciplinas de uma grade curricular.

Ser cidadão é viver de acordo com os direitos e deveres de um estado, está posto na nossa Constituição. Mas, ironicamente, poucos conhecem o texto da Constituição. Quando a leem é para fazer concurso. Há uma lacuna enorme entre o que se propõe para escola e o que se faz. Somos uma sociedade que só procura ter conhecimento de seus direitos e deveres em casos extremos. Estou insistindo nisso porque acredito ser o bullying uma consequência do desleixo em educar para cidadania.

Anos atrás apresentei uma proposta para formação humana a alunos do ensino médio. A proposta trazia dentre os conteúdos os códigos de defesa do consumidor, trechos da Constituição, estatuto do idoso e do adolescente, e outros dessa mesma natureza. A resposta dos professores à proposta foi assustadora: achavam um disparate “gastar tempo” com conteúdo assim. Parece que toda educação se converge para passar no vestibular, ou, nos dias atuais, passar no Enem. Mesmo que a grande maioria dos professores não consegue ver a escola como um lugar em que se constrói a cidadania, verdade seja dita, o resultado do projeto foi ótimo! Os alunos mostraram grande interesse, apresentaram seus trabalhos para escola toda, e certamente saíram transformados daquela experiência.

Precisamos não só de nos conscientizarmos das mudanças sofridas nos últimos anos, como também atuarmos no sentido de amenizar os efeitos dessa mudança. Enquanto alguns educadores debatem sobre ser papel da escola ou não trabalhar virtudes e valores humanos, outros insistem que esse é um dever dos pais, no que eu divirjo e renego. Não discuto isso mais — para mim é, sim, dever da escola, atuar no sentido da formação dos valores humanos. Grandes mudanças na organização social exigiram rever o lugar da escola, por exemplo: a emancipação feminina, a entrada da mulher no mercado de trabalho foi uma nobre conquista, ninguém seria capaz de contestar esse fato, mas por outro lado, os filhos passaram a ficar mais tempo sós ou na escola e, consequentemente, a relação entre pais e filhos ficou comprometida. E outras mudanças se juntaram a esse distanciamento, tornando-o muitas vezes superficial.

Quantos pais se assustam quando são pegos de surpresa com atitudes impensadas de seus filhos. Não sou de tampar o sol com a peneira, prefiro a realidade; e a realidade nos mostra que há consequências. A saída certamente não passa pela volta da mulher para casa, isso nunca vai acontecer.

Há perguntas que estão sem respostas no campo educacional: o que os pais esperam da escola? O que a escola espera dos pais? Enquanto as perguntas sem respostas se amontoam, acredito ser necessário agir. Todos querem a excelência, todos desejam o melhor para os filhos e para a vida. Nesse ponto somos unânimes em desejar a excelência. Visto nessa perspectiva, vale lembrar que a palavra virtude vem de virtus, significa excelência. Se desejamos seres excelentes, precisamos correr atrás dessa formação. Nossas virtudes não brotam da terra — são frutos da aprendizagem e de muito trabalho. Se queremos que nossos filhos sejam honestos, precisamos ensinar honestidade; se queremos valores em nossa sociedade precisamos ensiná-los virtudes o quanto antes. Não vejo lugar melhor para trabalhar valores e virtudes, depois da família, do que dentro da escola.

A mudança da escola
Um dos grandes desafios para construção da autoestima é sem dúvida a mudança da escola brasileira. Não há avanços possíveis quando um processo de desumanização ronda a sociedade. Fazer frente a esse processo é passo decisivo para transformar pessoas, formar cidadãos. Pressinto estar perto da mudança, a verdade, ainda que seja incômoda, provoca transformações e traz reflexões. Precisamos nos tornar protagonistas de uma educação comprometida com valores éticos. Deixo vocês com o grande autor John Dewey, que em A Filosofia em Construção afirma:

“Não nos cansamos de repetir que o homem é um animal social, entretanto, restringimos o significado dessa afirmação à esfera em que a sociabilidade frequentemente parece menos positiva, a esfera política.” E completa: “O coração da sociabilidade do homem está na educação.” (DEWEY,1958, p. 183)