Entrevistamos o professor e escritor Hamilton Werneck

“Nós, professores, só conseguiremos convencer a sociedade brasileira acerca da nossa importância, quando formos profissionais de alta performance.”

Por Ana Lucia Bomfim* | Foto Érica Castro

O uso da tecnologia nas salas de aula parece ser um indicador da modernidade no ensino. Porém, os programas de avaliação utilizados nas escolas foram formulados há anos, o que revela um descompasso. Para Hamilton Werneck – conferencista, doutorando, pós-graduado em educação, pedagogo e professor do ensino superior, autor de 26 livros e 9 DVDs educativos –, falta às autoridades educacionais perceber que os alunos são, algumas vezes, levados a detestar as escolas por causa dos currículos e programas obsoletos e sem adaptação às realidades da juventude. Ele defende que os professores e todos os envolvidos no processo educacional devem mudar seus paradigmas em relação à avaliação escolar, tornando os elementos saturantes dos programas mais próximos das necessidades dos alunos.

Notamos o aumento do uso da tecnolo­gia nas salas de aula, que indica a mo­dernidade no ensino. Porém, os progra­mas de avaliação foram formulados há anos. Quais os principais motivos que levam as instituições de ensino a não mudar esse quadro?

As tecnologias nem sempre acusam modernidade. Se em vez de ler no quadro de giz ou no livro, a leitura é feita no ta­blet, não mudou nada! O que não mudou foi o conteúdo. A cada dia trabalha-se muito mais quantidade que qualidade. As ferramentas seriam consideradas mo­dernas se os alunos pudessem usá-las para pesquisa. São excelentes para isso. As avaliações vêm mudando aos poucos, no entanto, uma mudança mais signifi­cativa teria de passar pelos conteúdos, ainda focados no século XIX. É preciso coragem para podar este conteúdo, verifi­cando o que os alunos, de fato, necessitam saber, ao final de cada etapa de ensino. Não adianta o MEC definir os descrito­res de cada disciplina se os professores não ensinam com este objetivo e ainda têm que trabalhar com conteúdos fora do desenvolvimento psicológico da criança.

Os currículos ultrapassados impedem o bom desempenho do aluno?

Claro que sim. A primeira reação é a de que a escola é um verdadeiro museu. Linguagens são ultrapassadas, conteúdos que pouco servem e, pior, ao lado dessa quantidade, encontramos um aluno que lê e não sabe o que leu. Não se trata, por­tanto, de ter assimilado a chamada leitura “ascendente”, aquela que parte da letra, passa pela sílaba e palavra e chega ao texto. É necessário o movimento “descendente” que depende, sobretudo, do contexto em que aquele texto está inserido.

O Sr. defende que há uma diferença sig­nificativa entre avaliar e examinar. Essa diferença ocorre em que aspectos?

Examinar é pontual, classificatório, faz-se a média dos resultados, daquilo que refletia o não saber com o saber. Então, mesmo o aluno sabendo, sua avaliação será prejudicada pelas médias aritméticas representando as duas fases em que ele se encontrava. Avaliar é, antes de tudo, diagnosticar para que o professor possa saber o que ele deve recompor. Não há um ambiente classificatório. O binômio aprovar/reprovar é substituído por outro: ensinar/aprender.

Em seu livro “Se a boa escola é a que reprova, o bom hospital é o que mata”, é colocado que, em alguns casos, não é necessária a reprovação. Em quais situ­ações ela deve existir?

Quando o aluno tem um conhecimento vasto de seu ano escolar e apresenta algu­mas deficiências que possam ser corrigidas durante o ano seguinte, não é necessá­rio repetir tudo. Isso desanima o aluno e baixa sua autoestima. Mas as escolas, em suas estruturas arcaicas, concebem cada ano escolar isolado do outro, em que cada professor só cuida dos conteúdos de sua competência, não se sentem responsáveis pelas lacunas do passado. O conjunto es­colar pensa o tempo do mesmo modo que Isaac Newton pensava, completamente separado do espaço. As nossas escolas pre­cisam acordar para o fato de que Einstein existiu, pensando que, quando mudamos o tempo, mudamos o espaço. A maturi­dade maior facilita um aprendizado mais rápido. É por isso que a recuperação pa­ralela pode funcionar. Mas se a escola não acredita, não oferece tempo para esse fim, não é o processo que está errado e, sim, a estrutura escolar. Não queiram que um professor faça milagre se a ele não são da­das as condições.

O seu convívio com instituições de ensi­no e professores, ao redor do Brasil, pos­sibilita diversas opiniões sobre o tema. Quais são os pontos comuns?

O ponto comum não é bom de ser pen­sado e comentado. As ilhas de excelência modernas são poucas e, geralmente, re­trógradas. A maioria gosta mesmo é de reprovar, usar o seu poder de cátedra para reter, pensando que o reprovado deixaria a escola para ir para a roça. Hoje a roça não existe, o que está em seu lugar é um agro­negócio mecanizado, usando em suas má­quinas, GPS e computador, portanto este aluno precisa aprender. Reprovar não é a solução. Reprovar demonstra a incompe­tência da estrutura escolar. Se o aluno não aprendeu, que seja recuperado. Se não há tempo, que ele seja criado. Afinal, vamos ou não atender às diretrizes do II PNE? O mundo que cerca a escola está interessa­do que os alunos aprendam. Participando de um congresso de educação na cidade de Ulianópolis, Pará, encontrei um dos maiores empresários da cidade assistindo ao evento e participando das atividades e conselhos da Secretaria Municipal de Educação. Por que ele faz isso? Porque ele quer influenciar e colaborar para que, em breve, os alunos de hoje sejam melhores e mais competentes amanhã. A escola pre­cisa acordar para esta realidade.

O quanto a aprovação automática e a reprovação automática atrapalham o processo de ensino/aprendizagem?

Primeiro estas palavras precisam ser bem entendidas. O Brasil gosta de praticar a reprovação automática. O professor ensi­na, se o aluno não aprendeu é reprovado. Não pode haver atraso maior dentro de uma escola ou mentalidade do professor. Aprovação automática é uma distorção maldosa feita por muitos que não querem estudar ou mudar as práticas para aten­der a uma progressão continuada. Para entendermos a progressão continuada precisamos, antes, entender o modelo do sistema educacional que precisa deixar de ser fordiano, do início do século XX e passarmos para o modelo sistêmico atual. A partir daí começarmos as mudanças. Como as escolas e muitos gestores não querem mudar porque exige sair da zona de conforto, porque muitos não querem investir na formação do professor, o atraso fica estabelecido. Então, pratica-se a apro­vação automática, sem o devido cuidado de acompanhar o aluno no ano seguinte. Prova-se com esta artimanha que o pro­cesso está errado. Não é o processo e, sim, a metodologia. Esta é uma das razões da sociedade não acreditar nas escolas como elementos de transformação. Nós, pro­fessores, só conseguiremos convencer a sociedade brasileira acerca da nossa im­portância, quando formos profissionais de alta performance.

O Sr. acredita que a formação continua­da dos professores deverá ser o caminho das principais mudanças paradigmáti­cas dentro da escola, inclusive no que se refere às avaliações?

Perfeitamente de acordo. Hoje, qualquer empresa séria cuida da formação de seu ca­pital humano. Certa vez, conversando com Alvin Toffler, no Parlatino em São Paulo, na abertura da festa de aniversário dos 500 anos do Brasil ele dizia: – Assim como a carteira de motorista é fornecida por tempo determinado, assim também os diplomas deveriam ter prazo de validade. Creio que uma pessoa que trabalha com educação deve aprender alguma coisa diferente a cada dia. Pouco, mas todos os dias. É preciso pensar em ser melhor amanhã, em relação ao dia de hoje. Baden Powell, fundador do escotismo, já falava em 1907, sobre educa­ção permanente. Assimilei esta mensagem na minha vida que não é outra coisa que desenvolver esta fome de aprender e que recebe o nome de “formação continuada”.

Fique à vontade para levantar outros aspectos acerca do tema.

Lá por meados do século XIX, os fran­ceses pensaram uma educação baseada em três pilares tradicionais: a família, a igreja e a escola. À família caberia uma educação desde o berço, onde as boas maneiras, o respeito ao semelhante e a capacidade de partilha entre os irmãos e mesmo pais seria incrementada, de modo que as crianças, quando fossem para a escola, já levassem uma série de alicerces em sua educação.

Esta mesma proposta supunha um se­gundo pilar oriundo da convivência das famílias e das crianças com a igreja. Ali se­riam tratados os valores a serem refletidos na convivência social, os princípios morais aprendidos, tendo como cosmovisão as leis de Deus inspirando as leis humanas. À escola caberia um terceiro pilar, marcadamente intelectual, embora, como função supletiva, não devesse furtar-se às intervenções em relação à educação social, que deveria vir de casa, e a moral e ética, da igreja.

O que ocorreu neste último sesquicen­tenário da vida humana foi a quebra de, pelo menos, dois pilares nesta proposta: a família e a igreja.

O terceiro pilar, hoje, sofre a pressão total do peso de uma educação que não conta mais com os outros dois reforços. Os professores encontram-se despreparados, sobretudo nos dois campos mais fracos, até porque fazem parte desta mesma so­ciedade, convivendo com os mais diversos valores e cosmovisões diferentes.

Se há um problema básico, qual seja o da formação acadêmica do professor, quando adentramos nas questões fa­miliares, éticas, morais e religiosas o complicador aumenta e a diversidade acompanha. Este o grande dilema, incapaz de ser superado pelos projetos acadêmicos.

 

*Ana Lucia Bomfim é Assessora de Imprensa especializada na área educacional. Formada em Jornalismo, Publicidade e Propaganda.

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 57