Veja entrevista completa com José Pacheco, articulador da Escola da Ponte

Pacheco é a mente por trás da escola portuguesa sem diretor, sem salas de aula e sem divisão por séries ou turmas

Por Ana Lucia Bomfim | Foto Divulgação

Ele é o principal articulador da Escola da Ponte, em Portugal, uma escola sem diretor, sem salas de aula, sem divisão por séries ou turmas e a única que conseguiu autonomia junto ao governo. Mestre em Educação da Criança e autor, em parceria com Maria de Fátima Pacheco, do livro “Avaliação da aprendizagem na Escola da Ponte” (Wak Editora).

Quais as principais características dife­renciam a Escola da Ponte das demais?

O projeto que tornou conhecida a Es­cola da Ponte tem quase quarenta anos de existência. Já na década de 1970, sentíamos ser necessário passar de uma cultura de solidão para uma cultura de equipe, de corresponsabilização. Um projeto huma­no é sempre um ato coletivo. Compre­endemos que, sozinhos não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas, se estivéssemos em equipe, com um projeto, e autonomi­zássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem. Naquele tempo, não tí­nhamos as referências teóricas de que hoje dispomos. Não havia modelos para seguir. Fomos orientados pela intuição pedagógica, pelo bom senso e, também, pela amorosidade.

O que o levou a montar esse modelo?

Em 1976, eu estava quase a desistir de ser professor. Sentia que, “dando aula”, eu estava a excluir gente. Percebi que não devia continuar dando aula. Mas eu não sabia fazer mais nada! Só sabia dar aula. A Ponte surgiu, talvez não por acaso, para me dar uma última oportunidade. Era uma escola como qualquer outra, escola públi­ca degradada, que albergava as chamadas “turmas do lixo”, maioritariamente consti­tuídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas que eu fazia: “Por que eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?”

Houve a tentativa de outras escolas se­guirem essa proposta de ensino?

Muitas escolas quiseram “clonar” o projeto. Porém, cada escola é única e ir­repetível, tal como os seres humanos o são, e a tentativa foi frustrada.

O senhor acha que é possível levar o mesmo modelo para escolas no Brasil?

Não permitimos que a Ponte se trans­formasse em “mito” e evitamos réplicas. Não se creia ser possível (e muito menos aconselhável) querer fazer uma réplica da Ponte no Brasil. As dificuldades en­contradas no Brasil são idênticas àquelas que defrontamos em Portugal e outros países onde ajudei a desenvolver projetos. Aquilo que vejo no Brasil é que começa a manifestar-se alguma sensibilidade, no­meadamente da parte do poder público, relativamente à necessidade de criar con­dições de sustentabilidade de projetos, que considero inovadores.

Nos últimos anos, apesar da profusão de tentativas de reforma, programas, pro­jetos, congressos, cursos e afins, não se logrou melhorar a qualidade da educação nacional. Mas o Brasil tem tudo aquilo que precisa. E esse desiderato será alcançado quando as escolas deixarem de estar cativas de um modelo educacional obsoleto e de uma gestão burocratizada, na qual os cri­térios de natureza administrativa se sobre­põem a critérios de natureza pedagógica.

Como fazer possível uma escola assim se tornar real?

Um projeto humano é um projeto co­letivo. Sozinho, pouco ou nada se poderia fazer. Constituímos uma equipe. E, com­preendendo o medo e respeitando a atitude conservadora daqueles que não queriam mudar, começamos um trabalho à parte. Dávamos aula durante a maior parte do tempo, porque era aquilo que nos tinham ensinado a fazer. Mas fomos introduzindo alterações, a partir das nossas dificuldades de ensinagem. Passámos de uma cultura de solidão para uma cultura de equipe, de corresponsabilização. Essa transformação, essa reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional custou tempo e sofrimen­to. Decidimos habitar um mesmo espaço, derrubar paredes, juntar alunos. Compre­endemos que, sozinhos não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas, se estivéssemos em equipe, com um projeto, e autonomi­zássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem. Inicialmente os alunos reagiam mal, porque era mais cômodo ouvir aula do que trabalhar em pesquisa, em projeto. De­pois foram os professores das outras escolas, que começaram a criar-nos dificuldades…

É necessária uma formação diferenciada para trabalhar ali?

Os professores da Escola da Ponte (de Portugal) como do Projeto Âncora (do Brasil) são pessoas tão frágeis e capazes como qualquer outro professor. Foram tratados como objeto de formação durante a sua formação inicial e continuada. Mas, quando os educadores compreendem que precisam mais de interrogações do que de certezas, podem partir daquilo que são e que sabem, para reelaborar a sua cul­tura pessoal e profissional… e a cultura da escola. Talvez as escolas não mudem por efeito de uma cultura pessoal e pro­fissional, que uma formação reprodutora inculcou nos professores. Talvez porque os professores coloquem o medo no lugar de uma ousadia prudente. Coragem para substituir um obsoleto modelo de ensino por práticas coerentes. Prudência, para usar a ciência em práxis transformadoras e não usar alunos como se fossem cobaias de laboratório.

A formação de professores continua imersa em equívocos. Ainda há quem creia que a teoria pode preceder a prática e encha a cabeça do formando de tralha cognitiva, ingenuamente acreditando que ele irá “aplicá-la” na sala de aula. Ainda há formadores que adestram formandos no planejamento de aula, quando deve­riam prescindir dessa inútil herança de práticas sociais do século XIX. Ainda há quem considere o formando como objeto de formação, quando deveria ser tomado como sujeito em transformação, no con­texto de uma equipe.

Quais são as principais modificações que ocorrem nos alunos que frequentam a Escola da Ponte?

Os resultados constam em relatórios de avaliação elaborados por equipes no­meadas pelo Ministério da Educação de Portugal. São produto de uma avaliação externa e isenta, e atestam a elevada qualidade das aprendizagens realizadas pelos alunos. Diz-nos o último dos re­latórios de avaliação que, quando tran­sitam para outras escolas, os alunos da Ponte alcançam melhores notas do que os outros alunos dessas escolas conseguem alcançar. E, se no domínio cognitivo isso acontece, muito mais significativos são os níveis de desenvolvimento sóciomoral. É grande a preocupação com a vertente ética, e sabemos que o desenvolvimen­to estético anda ao lado do desenvol­vimento cognitivo, sendo mutuamente influenciados. Não fragmentamos os saberes: estudos realizados com adultos formados ao longo dos últimos 30 anos demonstram que todos os nossos ex-alunos são pessoas socialmente integradas e realizadas. Talvez possa acrescentar que a Escola da Ponte provou que é possível outra educação, aliando excelência aca­dêmica à inclusão social.

Os mais antigos ex-alunos da Ponte têm cerca de 55 anos de idade. Aqueles que pude acompanhar, ao longo dos últimos 40 anos, são seres que traduzem nos gestos cotidianos os valores aprendidos na Ponte. São cidadãos de pleno direito, pessoas so­cialmente integradas e realizadas.

Os pais participam do processo? De que forma?

A participação dos pais se caracteriza pelo respeito mútuo e pela democratici­dade. O órgão máximo é o Conselho de Direção. E os não-professores (entre os quais os pais dos alunos) estão em maioria neste órgão. Não vemos qualquer razão para uma escola ser dirigida por professores. As escolas são pertença das comunidades. E os professores não são formados para de­sempenho de tarefas administrativas, para lidar com papeis, mas para educar pessoas.

Com o objetivo de promover a autono­mia e a solidariedade, chamamos os pais, explicamos o nosso projeto e perguntamos o que pensavam sobre o assunto. Eles nos apoiaram e defendem o modelo até hoje. Compreendemos que o maior obstáculo não advém das representações dos pais, ou da burocracia das autoridades escolares – o maior obstáculo sou eu, se me mantiver socialmente autista, autossuficiente, sem compreender que um projeto humano é um projeto coletivo.

Quais aspectos o Sr. considera funda­mentais para uma melhora na educação do Brasil?

As escolas brasileiras transformar-se-ão quando, através da referência a uma matriz axiológica, a uma visão de mundo e sociedade traduzidas num projeto, ope­rem rupturas com uma tradição de edu­cação hierárquica e burocrática. Quando ousarem, com prudência (crianças não cobaias de laboratório…) reconfigurar as suas práticas, assumir formas específicas de organização do trabalho escolar, em dispositivos de relação, nas atitudes do dia-a-dia, que viabilizem práticas de educa­ção integral. Quando as escolas brasileiras cumprirem, efetivamente, os seus projetos político-pedagógicos.

 

*Ana Lucia Bomfim é Assessora de Imprensa especializada na área educacional. Formada em Jornalismo, Publicidade e Propaganda.

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 57