Entrevista exclusiva com a professora e escritora Renata Moussinho

Entrevista exclusiva com a professora e escritora Renata Moussinho

Texto: Redação | Fotos: Shutterstock | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

Estudantes com dislexia sabem que existe algum problema, mas não sabem exatamente por que não leem e escrevem com a mesma facilidade de seus colegas, o que gera enorme ansiedade e/ou sentimento de baixa autoestima. Sem entender a origem de suas dificuldades, acreditam nos adjetivos pejorativos que lhe são ditos, e podem parar de acreditar na sua capacidade de aprender.

O que é a dislexia?

Dislexia é um transtorno específico de leitura, que não é justificado isoladamente por dificuldades ambientais (família iletrada, poucas condições etc.), pedagógicas (falhas na metodologia, mudança frequente de professor ou escola), intelectuais (déficit intelectual isolado ou consequente de síndromes), emocionais (problemas psicológicos em geral) ou sensoriais (deficiência auditiva ou visual, por exemplo). Estamos falando daquele aluno cujo potencial de leitura é discrepante de seu potencial global, e que seu rendimento nessa área seja bem inferior àqueles de seus colegas com as mesmas oportunidades. A dificuldade não é intelectual, e nem de aprender de uma forma geral, mas de ler e, consequentemente, de escrever — disortografia é o nome que se dá a esse transtorno.

Quais suas causas e sintomas? Como ela se manifesta e, geralmente, de que forma e em que idade?

Falhas na leitura e escrita fazem parte do processo. Mas a persistência e a frequência com que aparecem podem ser sinais de risco. Na educação infantil podem ser observados pronúncia incorreta de palavras, dificuldade em nomear (lembrar o nome das palavras), em aprender os nomes das letras e em entender que palavras podem ser divididas (jogos com sílabas, rimas). No início da escolarização formal podem ocorrer dificuldades de alfabetização, ou a leitura é feita sob esforço, sem automatismo, entrecortada, com pouca entonação, tropeços e adivinhações de palavras. A interpretação de textos só é um problema quando o próprio lê. Se outra pessoa fizer a leitura, o aluno disléxico poderá compreender o texto com sucesso. Na escrita podem aparecer omissões, trocas, inversões de grafemas, dificuldades para se expressar pelo sistema escrito. Nas séries mais avançadas, podem surgir dificuldades com outros idiomas, o processamento da leitura pode ser mais lento que o dos pares, prejudicando a compreensão (nesta fase, mais visível na leitura silenciosa). E, em relação à produção textual, persistem falhas ortográficas, dificuldades com pontuação ou com regras como letra maiúscula no início das frases, além dificuldade na organização de um texto coerente, o que difere de sua possibilidade ao elaborar textos oralmente.

No cotidiano escolar, esse déficit gera que tipos de problemas no aprendizado?

Como a leitura é a base do sistema escolar atual, além das dificuldades na língua portuguesa, as outras disciplinas que dependem do sucesso da leitura e escrita estarão prejudicadas. Um problema matemático, por exemplo, pode ser um suplício para um aluno com dislexia, mesmo que tenha muita facilidade com cálculo. Isso acontece, pois terá de ir interpretando as etapas do enunciado para compreender a proposição, o que se torna um trabalho árduo. Da mesma forma, conteúdos de geografia e história podem não ser completamente absorvidos, caso o meio utilizado para ensinar seja totalmente baseado na leitura de textos sobre os assuntos abordados. Sendo a leitura mais lenta e realizada sob esforço, o acesso à informação se tornaria limitado.

Ainda é muito comum que os professores, inadvertidamente, classifiquem esses estudantes como ‘burros’ ou ‘preguiçosos’?

Infelizmente, é mais comum do que supomos. Ouvimos relatos constantes dos pais de crianças. Recentemente, tivemos informações de uma professora que esfregou a cara de seu aluno no livro e falou: “Agora você vai ler!”… Mas esse tipo de comportamento inapropriado não é exclusivo da escola. Esses adjetivos são uma constante, também, em ambiente familiar. Os maus resultados acadêmicos, somados ao estresse do dia a dia nos deveres de casa e às intermináveis fases das provas, funcionam como os principais detonadores.

Estudantes disléxicos, em geral, têm consciência de que sofrem do problema?

Estudantes com dislexia sabem que existe algum problema, mas não sabem exatamente por que não leem e escrevem com a mesma facilidade de seus colegas, o que gera enorme ansiedade e/ou sentimento de baixa autoestima. Sem entender a origem de suas dificuldades acreditam nos adjetivos pejorativos que lhe são ditos, e podem parar de acreditar na capacidade de aprender. Exatamente por este motivo, é frequente que uma melhor compreensão da natureza de suas dificuldades seja um enorme alívio para as pessoas disléxicas, que aprendem quais os verdadeiros desafios devem enfrentar, e podem voltar a acreditar em seu próprio potencial.

Ao desconfiar que um aluno sofra desse problema, quais providências deve tomar o educador?

Além de conversar com a equipe educacional e com a família, a valorização do aluno é central. Sabemos da importância da autoestima para a aprendizagem. Vale descobrir suas áreas fortes, que podem ser artísticas, científicas, motoras, matemáticas, para que o aluno possa se tornar destaque no ambiente escolar. Metas muito distantes da realidade fazem com que nossa motivação caia e tire a possibilidade de mediação durante este período. Assim, pode ser de grande valia segmentar uma atividade em sala de aula e criar metas intermediárias. Se o professor solicitar que o aluno apresente pouco a pouco suas atividades, dará oportunidade ao aluno de ter mediação mais frequente, de modo a organizar a informação e não correr o risco de manter uma atividade iniciada de forma enganosa até o fim.

Quais cuidados extras ele deve ter com esse estudante em sala de aula?

Além dos aspectos socioemocionais, o professor deve pensar em mais dois níveis de cuidado em sala de aula, relativos às adaptações no processo de avaliação, bem como às estratégias que podem facilitar a aprendizagem. As adaptações no campo da avaliação têm o objetivo de oferecer oportunidades similares às de seus colegas. Para aqueles em que a leitura ainda é tarefa extremamente árdua, um “ledor” pode ser importante, ou a realização de uma prova oral. Se ele já consegue ler, mais tempo de prova é altamente indicado, uma vez que lê lentamente, mas se para compreender é importante ele se ouvir (feedback auditivo), deve ser permitido que ele leia oralmente (ou em sussurro). Na escrita, sugere-se não descontar pontos por erros na escrita durante o tratamento, priorizando o conteúdo sobre a forma, ou ainda pedir ao aluno que confirme oralmente as respostas escritas que parecem “truncadas”. Em relação às estratégias para facilitar a aprendizagem, devem ser oferecidas outras formas de experiência que não somente pela leitura, como o uso de recursos visuais, apresentação de filmes, aulas online complementares, ou visitas a museus ou exposições. O uso de organogramas e esquemas também são altamente facilitadores.

Se não for corretamente tratada, a dislexia pode interferir até que ponto na trajetória de aprendizagem? Uma criança disléxica, quando cresce, torna-se um adulto com quais características preponderantes? Sofrem, por exemplo, prejuízos no campo da convivência social?

O rumo depende da história que for construída. Se estamos falando daquele aluno que entrou no ciclo do fracasso, com falta de apoio da família, da escola e sem tratamento adequado, sem acreditar em si próprio, é provável que entre em um grupo de alta vulnerabilidade para saída precoce da escola, empregos que não condizem com seu potencial, problemas sociais. Por outro lado, com uma rede de apoio tratamento-família-escola, a dislexia se torna apenas uma característica, mais trabalhosa em alguns momentos, mas que não representa de forma alguma limitação de qualquer ordem para o sucesso na fase adulta.

Ainda é frequente o diagnóstico errado? Quando acontece, é comum que haja confusão com qual transtorno?

As confusões são muitas, justamente porque a aprendizagem e suas dificuldades são influenciadas por fatores de ordens diversas, sejam eles ambientais ou intrínsecos ao próprio indivíduo. Então, podemos ver falsos diagnósticos de dislexia, que na verdade eram problemas pedagógicos. Também podemos ver dificuldades de atenção serem equivocadamente chamadas de dislexia. Não é incomum, também, que transtornos da linguagem já ocorressem, mas que foram relevados, sendo evidenciados na época do ensino formal e, por esta razão, terminam confundidos com dislexia.

Dislexia, Transtorno de Déficit de Atenção, Hiperatividade, Deficiências na visão… Muitos são os fatores que podem prejudicar o aprendizado dos estudantes. Os professores, em geral, estão preparados para identificar e lidar com esses problemas? A formação docente não deveria dar maior atenção a essa relação entre saúde e educação?

O professor tem um lugar privilegiado. Só ele é capaz de seguir o dia a dia do aluno, compreender dias melhores e piores, comparar as habilidades mais fortes ou mais frágeis de cada um, além de perceber discrepâncias entre o potencial de um estudante e seu rendimento acadêmico. Neste sentido, ele será o primeiro a identificar que alguma coisa não vai bem. A importância de conhecer as diversas origens das dificuldades não está em diagnosticar, já que esta não é sua função, mas em entender a natureza da dificuldade. Só compreendendo isso, o professor terá como lançar mão de estratégias mais eficazes para ajudar seus alunos. A formação docente que contemple a relação entre saúde e educação pode ajudar muito, afinal não há como separar esses dois campos de saber ao se falar de desenvolvimento infantil.